Como chegaram ao nosso tempo os acontecimentos e relatos do passado? Ou as frases célebres de grandes pensadores e artistas de épocas muito distantes e diferentes da nossa? A resposta a estas perguntas está numa importante figura que existe desde tempos imemoriais: o historiador.

É graças a eles que podemos interpretar os documentos antigos que falam sobre as nossas origens, conhecer as civilizações que deram lugar às nossas sociedades ou entender os acontecimentos que mudaram o curso da história. Eles contam-nos o quando, como e porquê da história para que possamos compreender o presente.

No entanto, caso pense que estudar o passado é uma ciência exclusiva da actualidade está equivocado. Já na antiga Grécia e em Roma, duas épocas chave para a história da humanidade, os historiadores dedicaram-se a deixar registos escritos dos acontecimentos mais importantes que ocorriam à sua volta. Alguns chegaram a ser tão importantes que o seu legado perdurou de forma clara ao longo do tempo, transformando-os nas famosas figuras que conhecemos actualmente. Falamos-lhe, agora, sobre quatro deles.

TUCÍDIDES, o HISTORIADOR TOTAL

O ateniense foi o primeiro a usar um método científico para a investigação histórica, sendo, por isso, considerado o pai da história enquanto ciência. Viveu entre os anos 460 a.C. e 396 a.C., mas a sua mentalidade era avançada para a época.

Entre outras coisas, determinou que a causa dos diferentes acontecimentos era a acção do Homem, não a vontade divina, e que os grandes feitos históricos ocorriam devido a causas profundas e complexas que podiam ser analisadas.

Tucídides centrou a sua investigação exclusivamente nos seus contemporâneos da Grécia e utilizou um estilo narrativo rigoroso e austero, sem relatos pitorescos, tentando ser o mais objectivo possível.

Rapidamente se apercebeu de que as recordações e simpatias pessoais condicionavam os testemunhos sobre cada facto, fazendo com que recebesse versões diferentes dos mesmos. Não obstante, Tucídides escrevia para aqueles que desejavam examinar a verdade com todas as suas nuances.

A sua obra mais conhecida, História da Guerra do Peloponeso, narra o grande conflito bélico entre Atenas e Esparta, as duas grandes potências do mundo helénico em 400 a.C., e ainda hoje é utilizada por analistas e estrategas internacionais para comparar os conflitos do mundo clássico com o panorama geopolítico contemporâneo, onde as grandes potências lutam para se transformar em impérios hegemónicos. No século XVII, o historiador britânico Thomas Hobbes traduziu-a directamente do grego para inglês, permitindo assim que Tucídides chegasse a muito mais gente.

HERÓDOTO, o HISTORIADOR VIAJante

Heródoto é considerado o primeiro historiador de todos os tempos, um investigador da sua própria cultura, bem como de outras, e descreveu com precisão os acontecimentos que marcaram a sua época.

Redigiu o livro História, uma obra magna mais tarde dividida em nove livros, na qual aborda temas tão diversificados como o império persa e as suas guerras contra os gregos, a antiga cidade de Persépolis, a construção da grande pirâmide de Gizé, o povo lídio e os seus reis ou a lendária Babilónia.

Trata-se de um historiador que explorou o mundo e as suas culturas, informando-se em primeira mão sobre as suas façanhas e os monumentos que erigiram para depois nos oferecer um relato histórico e etnográfico sobre as regiões da antiguidade que ele próprio visitou em diversas ocasiões.

Durante algum tempo a sua obra foi considerada pouco séria, mais digna de uma fábula do que de uma narração histórica, mas o seu estilo voltou a popularizar-se durante o Renascimento. No século XVIII, o seu prestígio reafirmou-se quando se comprovou a veracidade dos seus relatos.

Heródoto nasceu na cidade jónia de Halicarnasso, na Ásia Menor, no ano 484 a.C., e passou um longo período na ilha grega de Samos, antes de empreender as suas viagens. Morreu em Túrio em 425 a.C.

TITO LÍVIO, o GRANde HISTORIADOR DE ROMA

O volume de produção de Tito Lívio é dos maiores de todos os autores romanos. Dedicou 40 anos da sua vida a criar a maior obra alguma vez escrita sobre a história de Roma: Ab Urbe condita (“Desde a fundação da Cidade”), relatando a história de Roma desde os seus antecedentes e fundação até a morte de Druso, no ano 9 a.C.

No entanto, o seu trabalho não se destacava pelo rigor histórico, misturando frequentemente acontecimentos e mitos. Isto deve-se parcialmente ao facto de o objectivo da sua escrita ser compilar toda a informação disponível sobre um tema específico, misturando o conhecimento oficial com o popular, de modo a disponibilizá-lo a qualquer leitor.

D
DOMÍNIO PÚBLICO

Versão de 1714 de Ab Urbe condita disponível na biblioteca digital do BEIC e carregada em parceria com a Fundação BEIC.

A sua história do povo romano está inacabada. Dos 142 livros que a compuseram, restam apenas 35: do 1 ao 10, da Fundação da Cidade até a Terceira Guerra Samnita (753-290 a.C.); do 21 ao 45, desde a Segunda Guerra Púnica até ao início da Terceira Guerra Macedónica (218-171 a.C.).

Apesar do sucesso do seu trabalho, a sua vida privada era um mistério. Sabe-se que nasceu na actual Pádua e viveu entre os anos 59 a.C. e 17 d.C., tendo-se dedicado à escrita a tempo inteiro: em grego e em latim. Por volta do ano 30 a.C., mudou-se para a cidade de Roma, onde conheceu o recém-consolidado imperador Augusto. Ambos mantiveram uma boa relação, apesar dos ideais republicanos de Tito Lívio, provavelmente por partilharem os valores romanos tradicionais. Tanto assim foi que Augusto o encarregou da educação de Cláudio, seu neto e futuro imperador.

SUETóNIO, o HISTORIADOR CAÍDO em DESGRAça

Caio Suetónio Tranquilo viveu aproximadamente entre 70 e 140 d.C., embora se desconheça o seu local e data de nascimento exactos. No entanto, é possível encontrar alguns pormenores sobre a sua vida nas cartas de Plínio o Jovem, outro historiador romano com o qual mantinha uma boa amizade.

Graças ao seu trabalho como responsável pelos arquivos imperiais no tempo dos imperadores Adriano e Trajano, Suetónio conseguiu aceder a uma vasta colecção de documentos valiosos que facilitaram a criação da sua principal obra, intitulada Vida dos Doze Césares. Nesta, dedicou-se a biografar os soberanos do mundo romano do ponto de vista anedótico e não tanto analítico, sublinhando determinados aspectos da sua personalidade e vida pública e até alguns pormenores privados – contados com grande detalhe. Foram estes últimos que contribuíram muitíssimo para a popularidade da sua obra. No entanto, uma abrupta perda do favor do imperador Adriano levou à sua expulsão da corte, após a qual se retirou para uma vida muito mais privada, da qual restam poucos registos.

A influência do seu estilo narrativo é significativa no âmbito da literatura e os seus escritos são, frequentemente, a única fonte histórica da época a abordar determinadas temáticas, sendo, por isso, extremamente valiosos.