Ao escavarem um poço, transformado em lixeira no local do velho Convento de Santana (também conhecido por Mosteiro das Penitentes da Paixão de Cristo), em Lisboa, Rosa Varela Gomes e Mário Varela Gomes foram surpreendidos com um conjunto de peças cerâmicas descartadas, algumas da quais quase intactas. Terão sido deitadas fora na mesma altura, apesar de constituírem bens raros de porcelana chinesa azul e branca do final da dinastia Ming (1368-1644).

Uma hipótese provável, que os autores sugerem num artigo recentemente publicado no The Antiquaries Journal, é que esse “descarte a grande escala possa ser explicado por medidas obrigatórias de higiene ou profilaxia numa altura em que as doenças contagiosas proliferavam”. Os surtos da Praga do Algarve de 1645 e 1650 podem ter originado a rejeição de loiças do convento.

Entre as peças descobertas destacou-se uma taça decorada com cinco cenas eróticas. A peça, importada do Oriente, é um testemunho vívido da capacidade portuguesa para trazer porcelana chinesa para a Europa. No início do século XVII, chegariam 40 a 60 mil peças de porcelana por ano a Portugal. Mais nenhum reino alimentaria então um comércio tão prolífero com a China. 

Certamente importada através da Carreira da Índia, esta taça de porcelana terá sido introduzida clandestinamente num convento lisboeta – argumentam Luís Urbano Afonso, Mário Varela Gomes e Rosa Varela Gomes, os dois últimos responsáveis pelas escavações no local em dois períodos distintos (entre 2002-2003 e 2009-2010).

Na China e no Japão
ALEXANDRE VAZ. FONTE: “CHINESE PORNOGRAPHY IN A PORTUGUESE NUNNERY: ON A TRANSITIONAL PERIOD BLUE AND WHITE PORCELAIN BOWL RECOVERED FROM THE SANTANA CONVENT (LISBON)” THE ANTIQUARIES JOURNAL, 2023

Este tipo de figuração era conhecido como “imagens de Primavera” e por vezes constituíam um presente apropriado para um dignitário masculino. 

Possivelmente produzida na província chinesa de Jiangxi, a peça mostra um par de figuras claramente orientais em posições sexuais. As cenas encontram-se integradas em motivos geométricos decorativos. É evidente a ordem da sequência, mas o autor teve alguma dificuldade em representar as proporções anatómicas correctas, mostrando-se mais à vontade com o desenho do mobiliário envolvente.

uma INTERPRETAÇÃO possível

Mas que papel teria uma peça desta natureza num convento feminino de Lisboa, em meados do século XVII? O Convento de Santana, fundado em 1543 por uma religiosa negra com apoio do confessor de D. João III, mudou-se para Santana em 1562, já reestruturado como comunidade feminina franciscana da Terceira Ordem Regular.

Os conventos portugueses estavam, com frequência, repletos de mulheres oriundas das classes privilegiadas sem vocação para a vida monástica. Ali mantinham privilégios da vida anterior e resistiam a renegar os prazeres carnais. A literatura religiosa da época criticou os escândalos provocados pelas tentativas frequentes de visitas de estranhos ao interior dos conventos. “Considerando a dificuldade em ultrapassar barreiras físicas e estabelecer relações carnais, grande parte da vida sexual destas freiras, bem como a dos seus amantes profanos, dependia da sua imaginação”, escrevem os autores.

Em excelente estado de conservação
ALEXANDRE VAZ. FONTE: “CHINESE PORNOGRAPHY IN A PORTUGUESE NUNNERY: ON A TRANSITIONAL PERIOD BLUE AND WHITE PORCELAIN BOWL RECOVERED FROM THE SANTANA CONVENT (LISBON)” THE ANTIQUARIES JOURNAL, 2023

Se esta peça fosse apreendida, poderia valer ao possuidor ou possuidora uma detenção, mas, no Convento de Santana, alguém considerou o risco aceitável em meados do século XVII.

As imagens visuais poderiam ser estímulos importantes e a tigela de porcelana com cinco cenas de sexo heterossexual explícito recuperada deste convento era certamente uma raridade. No entanto, “a prevalência de uma cultura de galanteria e sedução monástica em conventos como este, que raramente envolvia relações sexuais, fornece um contexto plausível para a circulação e consumo de material erótico”.

Artigo publicado originalmente na edição nº14 da revista História National Geographic.