Ainda que o sismo de 1755 em Lisboa seja considerado o desastre natural mais destrutivo da nossa história, com um forte impacto fora de portas, a capital portuguesa tem um rasto assinalável de movimentos de placas tectónicas e de perdas sem apelo. No século XIV, por exemplo, os anos de 1321 e 1356 viram a terra a abanar na foz do Tejo. Este último sismo foi tão violento que rachou os sinos de bronze de Sevilha, cidade espanhola que fica a centenas de quilómetros.

Embora tenha sido registado em várias crónicas e livros de linhagens, nomeadamente o "Livro de Noa" (hoje no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra), a sua memória ficou praticamente esquecida até à descoberta de uma inscrição nas paredes do castelo de São Jorge, em Lisboa, durante uma escavação arqueológica.

Em tempos mais recentes, os sismos de 1909 e 1969 voltaram a causar destruição em Lisboa e áreas circundantes. Embora o mais recente tenha sido mais intenso, com grau 8 na escala de Richter, é o de 1909, que se sentiu especialmente em Benavente, que mais danos causou. 42 pessoas perderam a vida no espaço de 22 segundos e este desastre tem a raridade de ser um sismo intraplaca, centrada na chamada Falha do Vale Inferior do Tejo. Foi, portanto, um sismo com origem no próprio território português, ao contrário, por exemplo, do de 1755 que ocorreu devido à compressão das placas europeia e africana a sul de Cabo Verde. 

1531: Lisboa abana de novo

No entanto, foi a uma quinta-feira, 26 de Janeiro de 1531, no século XVI, que ocorreu o segundo mais importante terramoto da história de Portugal. Lisboa vivia já um ligeiro declínio da época da expansão e do comércio ultramarino, mas era, à altura, uma das mais importantes cidades europeias.

Já no início do mês, vários abalos se fizeram sentir em Lisboa – ligeiros, mas intensos o suficiente para serem registados. Entre as quatro e as seis da manhã de 26 de Janeiro então, um agressivo choque terrestre sacudiu a região do Vale do Tejo de uma ponta à outra.

Os seus efeitos atingiram também regiões como a Beira Litoral, o Alentejo e o Sul de Espanha. Há várias menções em documentos coevos – nomeadamente cartas entre figuras importantes da nobreza e do clero – quer à violência do terramoto, quer à mortandade e à destruição causadas pelo mesmo. Lembre-se que em 1531, Lisboa teria à volta de 100 mil habitantes, num cálculo dos registos que nos chegaram. Embora a tradição nos diga que morreram 30 mil pessoas neste abalo, tal informação não pode ser confirmada. Imaginemos, porém, que tenham perecido entre 15 a 20 mil pessoas no desastre e seria um quinto da população lisboeta desaparecida. Estima-se que pelo menos duas mil casas tenham desabado por completo.

Não é algo assim tão incrível de acreditar. Como em 1755, houve um tsunami, que terá deixado o leito do rio Tejo seco durante alguns segundos... para depois regressar com fúria à zona ribeirinha da cidade. Chegam-nos relatos de registos de edifícios e templos destruídos em todo o centro histórico de Lisboa – principalmente na Rua Nova, actual Rua do Comércio, na baixa da cidade. Uma boa parte do Paço real, na ribeira, foi destruído e também em Belém se sentiu o impacto deste sismo, com marcas evidentes na altura na Torre de Belém e no Mosteiro dos Jerónimos. No Rossio, caiu a Igreja de Nossa Senhora da Escada, uma parte do Palácio dos Estaus, residência real onde se recebiam os mais importantes dignitários estrangeiros, e em templos religiosos fulcrais como a Sé de Lisboa, o Convento do Carmo – que viria a ser arrasado quase 230 anos depois – e o Convento de São Domingos, onde encontramos hoje o Teatro Nacional Dona Maria II.

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Uma inscrição na igreja de São Domingos, numa placa, lembra como uma construção original foi destruída em 1531 e de como uma imagem de Senhora da Escada aí presente é invocação protectora contra futuros sismos.

Entre a violência do ocorrido e o maremoto, a população de Lisboa ficou traumatizada e assistiu-se a uma debandada para zonas periféricas, cidadãos dormindo em tendas (à imagem do que aconteceria em 1755) e até em grutas, paradoxalmente. Durante várias semanas, com medo de um novo abalo, conta-se que a população de Lisboa dormia vestida de forma a fugir de imediato.

A superstição religiosa toma conta

Ao lermos uma transcrição efectuada pela investigadora Maria Teresa Morujão de uma memória do terramoto encontrada no arquivo distrital de Braga, podemos inferir o impacto psicológico do desastre natural e também a sua devastação. Várias vezes o redactor invoca a ira divina como motivo da catástrofe, algo que mais tarde foi usado por frades de Santarém para incentivar uma perseguição de cristãos-novos portugueses, culpando-os pela tragédia. A acusação foi rebatida pelo escritor Gil Vicente, em discursos pronunciados defronte dos próprios monges, culpando-os directamente pela eventualidade de uma massacre. A defesa dos perseguidos levou-o até a enviar uma carta ao rei Dom João III, apelando à sua iniciativa de defesa dos cristãos-novos de Lisboa. O que é curioso é que, em 1755, uma das razões invocadas para os motivos do sismo foi, precisamente, esta perseguição… A memória do sismo encontrada em Braga refere também réplicas que se sucederam nos dias seguintes e aumentaram quer os danos, quer o número de vítimas.

A superstição tomou conta dos lisboetas: fizeram numerosas procissões nas semanas seguintes, como penitência, com grande pesar de homens e mulheres, pedidos de perdões públicos entre pessoas, angustiadas com a ideia de que os seus erros e falhas tivessem tido tão funesto impacto, confissões religiosas, comunhões generalizadas. É ainda notada uma obsessão com supostos sinais astronómicos vindos da Alemanha, anunciando tragédias maiores para 1532, remetendo para a história sísmica de Lisboa ao mencionar um tremor de terra em 1393, parte da rica história sísmica da capital portuguesa.

Uma consequência indirecta foi a criação de uma das zonas mais emblemáticas da actual capital portuguesa: o Bairro Alto. Ainda antes das revolucionárias obras da Lisboa pombalina, este foi construído numa inovadora planta em quadrícula, uma das primeiras zonas residenciais europeias a usar esse esquema. A sua localização elevada evoca também o pânico causado pela onda gigante de 1531, uma tentativa de escapar a uma nova hecatombe marítima.

A memória, ainda assim, permaneceu

Apesar da escassez de informações, relativamente a 1755, a marca deste acontecimento permaneceu meio esquecida, que calhou apenas ser lembrado em 1930, numa comunicação à Academia de Ciência Portuguesa do geólogo Pereira de Sousa. Este defendia que, em termos de puros danos materiais e consequências para a capital portuguesa, este fora até mais violento que o seu sucessor quase 230 anos depois.

Já no século XVI, o poeta Garcia de Resende firmou em palavras o espírito e temor da época, o fascínio com o desastroso:

Todos com medo que haviam / deixaram casas, fazendas; nos campos, praças dormiam / em tendilhões e em tendas, / casas de ramas faziam;

as mais noites velando, temendo e receando; porque tremor não cessava; a gente pasmada andava / com medo, morte esperando.

Resende dedicou vários outros versos à recordação do que se passou. Talvez tenha sido útil ao Marquês de Pombal, que após o Grande Terramoto de 1755 lançou uma imensa investigação, recolhendo dados sobre danos e a história sísmica de Lisboa, na qual se incluiu esta tragédia.

Uma inscrição na igreja de São Domingos, numa placa, lembra como uma construção original foi destruída em 1531, e uma imagem de Senhora da Escada aí presente é invocação protectora contra futuros sismos. O prestígio português de um país navegador e dominador dos mares ficou beliscado, mostrando como podia facilmente ser enfraquecido às mãos da natureza. D. João III, cujo quarto no Paço Real desabou – por sorte, o rei encontrava-se fora da cidade – mudou a corte de Lisboa para Évora.