Damos por garantida a ideia de preservação de monumentos históricos, mas esta é relativamente moderna. A noção de que a História que impregna de memória as localizações, as estruturas e as paisagens é um daqueles conceitos só possíveis de existir numa realidade onde a necessidade não impera.

O Coliseu de Roma, por exemplo, deve uma grande parte da sua deterioração não só à passagem do tempo, mas também à delapidação feita pela população da capital italiana ao longo dos séculos. A necessidade de pedra para a construção de casas ou ruas sacrificou o rumor da plateia dos tempos imperiais no altar mais premente do pragmatismo.

Em Portugal, no ano de 1836, ficou famosa uma sessão da Sociedade Patriótica Vimaranense, onde foi proposta a demolição de uma das poucas torres originais do castelo de Guimarães. Com um castelo praticamente em ruínas, ponderou-se esta destruição porque uma rua necessitava de ser calcetada e faltava material. Numa discussão acalorada, onde se contrapunha a importância histórica do monumento à sua utilização como prisão política pelo lado miguelista durante as Guerras Liberais, a Sociedade votou por quinze votos a favor e quatro contra pela preservação do castelo. 

Les monuments historiques

Não acontecia assim em toda a Europa. Já em 1790, com a Revolução Francesa a iniciar-se, Aubin Louis Millin fala da expressão “monumento histórico”, na Assembleia Constituinte, num debate que previa a destruição da Bastilha, edifício mal-amado por ser a sede do arsenal militar das forças de segurança reais. A discussão pública originou a criação da Comissão de Monumentos, que devia analisar a importância de locais históricos e artísticos e o seu destino.

Quando, no ano seguinte e perante a nacionalização dos bens religiosos, o caos se instalou no destino do variado património relacionado com a Igreja – abadias, conventos, mosteiros, capelas, cemitérios –, a necessidade desta Comissão justificou-se de imediato. Alguns dos edifícios tinham sido apropriados por populares e vandalizados. Outros caíram nas mãos do Estado e foram colocados ao serviço de funções que os deterioraram rapidamente, como prisões e quartéis militares. Por fim, os que foram vendidos a privados, na sua grande maioria, desapareceram pelos mesmos motivos pelos quais o castelo de Guimarães quase foi destruído.

O conceito de “monumento histórico” foi sempre polémico em França até 1819, apesar da defesa pública por parte de intelectuais como Victor Hugo ou François-René de Chateaubriand. É, porém, neste ano que, pela primeira vez, o orçamento público destina uma quantia para a preservação, manutenção ou criação de "monuments historiques". Quase 20 anos depois, em 1840, é publicada a primeira lista de  monumentalidade considerada prioritária: incluía locais tão importantes para a memória de França como o teatro Romano de Arles, o Chateau de Blois ou Palácio papal de Avignon. Até mesmo outros registos materiais, como a tapeçaria de Bayeux, foram incluídos na lista.

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SHUTTERSTOCK / Gennady Stetsenko

Os belos jardins do castelo de Villandry, no Vale do Loire, França, classificado como "Monument Historique".  

O National Trust é fundado

No outro lado do canal da Mancha, na orgulhosa pátria britânica, a febre de preservação histórica francesa encontrou então rival. Em 1882, foi aprovada a Lei de Protecção de Monumentos Antigos. Isto só se deveu a vários esforços de legisladores, principalmente John Lubbock, que enfrentou vários chumbos até ver finalmente aprovada alguma legislação neste sentido.

A inspiração gaulesa sempre foi clara: Lubbock citou o Abade Gregoire, figura revolucionária que defendia o conservacionismo dos lugares e das artes. Numa primeira lista, constavam 68 locais, a maior parte deles pré-históricos ou em risco evidente de desaparecimento. A Arthur’s Stone, em Gales, Stonehenge ou Avebury, em Inglaterra, estão entre icónicos locais que beneficiaram deste estatuto para serem recuperados e ainda hoje constarem dos locais mais visitados do país.

No entanto, inicialmente, o esforço estatal foi tímido. Um grupo de aristocratas liderados por Octavia Hill, Sir Robert Hunter e Hardwicke Rawnsley decidiu fundar aquilo que designaram como um fundo de protecção para lugares de interesse histórico e beleza natural. Chamaram-lhe “National Trust” e ainda hoje a designação oficial da organização inclui esta declaração de intenções.

Octavia Hill é reconhecida como a principal mentora da iniciativa: uma mulher com um passado reformista, interessada nos problemas de habitação das classes mais pobres. Ela própria que, nasceu numa família com problemas económicos, já tentara estabelecer com a irmã Miranda uma instituição de propósitos semelhantes, a Kyrle Society.

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EM DOMÍNIO PÚBLICO

Octavia Hill retratada por John Singer Sargent, em 1898. (Digitalização por Church Times)

Hunter, um solicitador, trabalhara para a Commons Preservation Society, e Rawnsley tinha também na protecção de edifícios históricos uma paixão, evidente quando fez campanha para preservar o Lake District, uma área montanhosa no Noroeste de Inglaterra, da construção de uma linha de caminho-de-ferro que atravessaria um dos seus mais belos vales, o de Newlands. Em 1895, o National Trust foi fundado e logo nesse ano, adquiriu a Casa Clerical de Alfriston, em Sussex. A organização pagou o preço simbólico de dez libras, num sinal de que o Trust dependia, acima de tudo, do entusiasmo e da boa vontade daqueles que quisessem colaborar no seu esforço.

O crescimento de uma organização

No início, o trabalho foi concentrado em adquirir edifícios modestos e paisagens naturais de interesse artístico, histórico ou simplesmente estético. Mas com o crescimento das doações e da reputação, rapidamente esta charity foi adquirindo grandes casas senhoriais e até locais arqueológicos da pré-história britânica. Por volta de 1914, o National Trust possuía 63 propriedades.

Na década de 1930, a organização recebeu até doações de aldeias, com centenas de anos, com o objectivo de ajudar na sua preservação futura. O ímpeto conservacionista levou até a originais esforços na chamada de atenção para o trabalho da organização e da necessidade de recolher dinheiro para continuar as suas actividades. Ficaram famosas aqui as iniciativas do Ferguson’s Gang, um grupo de mulheres que, utilizando como pseudónimo nomes de homens com trocadilho ou de mulheres com muito sentido de humor, angariaram fundos para o Trust entre 1930 e 1947. Mascaradas, deslocavam-se à sede da organização e deixavam sacos com dinheiro na mesa da secretária, nunca revelando as suas identidades. Mais tarde, também os homem foram autorizados a entrar no "gang" e trataram acima de tudo de tarefas mais práticas.

Apesar de alguns escândalos na sua história – alguns deles tentando usar o Trust para fazer passar como “históricas” casas recentes e pouco assinaláveis, para fugir a alguns impostos – a organização é hoje respeitada e popular no Reino Unido. Com quase seis milhões de membros a contribuirem monetariamente para as suas operações e mais de 53 mil voluntários que anualmente colaboram nas suas actividades, tem secções em todas as nações que compõem o país – Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.

Simbolicamente, o Fundo Nacional para Locais de Interesse Histórico ou Beleza Natural é presidido hoje pelo rei Carlos III. A presença do monarca deve-se à responsabilidade pela preservação de um património que pertence à história da sua família e das antecessoras que ocuparam o trono britânico.