Fechada num santuário, a estrutura esquelética de um homem em pose de meditação encontra-se com as pernas cruzadas sob as vestes vibrantes de um sacerdote e as mãos ossudas pousadas no colo. Uma pele fina e semelhante a cabedal cobre as partes visíveis do seu corpo.

À primeira vista, aquilo que nos vem à mente é uma única palavra: múmia.

No entanto, para os devotos do budismo ascético no Japão, isto é muito mais do que um ser humano mumificado. É um sokushinbutsu (即身仏) — um Buda “vivo” ou “instantâneo” — que atingiu um estado de meditação profunda que o coloca para além dos vínculos da vida e da morte.

Para tal, dedicou-se a uma série de práticas ascéticas rigorosas que culminaram na auto-mumificação. Existem santuários com outros sokushinbutsu noutros locais do Japão e mais de metade dos sokushinbutsu conhecidos encontram-se em redor das montanhas sagradas da prefeitura de Yamagata. Como surgiu esta prática – e por que motivo tantos escolheram tornar-se sokushinbutsu? Esta é a verdadeira história dos monges japoneses auto-mumificados.

Como alguém se torna um sokushinbutsu?

Esta prática está associada a uma seita do budismo japonês esotérico denominada Shugendo, com raízes no xamanismo, no misticismo antigo e no culto das montanhas.

“Shugendo traduz-se mais ou menos por a forma de cultivar poderes especiais”, diz Caleb Carter, professor associado de religiões japonesas e estudos budistas da Universidade de Kyushu. “Estes poderes eram, alegadamente, adquiridos pelos sacerdotes budistas que se submetiam a austeridades nas montanhas como abluções sobre quedas de água a temperaturas gélidas, meditação em grutas e restrições dietéticas extremas durante longos períodos de reclusão.”

A origem do sokushinbutsu permanece envolta numa mistura de conhecimento registado e mito.

A história diz que o monge Kōbō Daishi estudou o budismo esotérico na China e trouxe consigo aquilo que aprendeu para o Monte Yudano, em Yamagata, depois o Monte Kōya, na prefeitura de Wakayama, deixando um impacto duradouro no Shugendo e outras formas do budismo esotérico no Japão. Segundo a lenda, Kūkai é o primeiro sokushinbutsu e ainda vive — num estado de meditação profunda — no Monte Kōya. A ligação entre o sokushinbutsu e as montanhas sagradas continua a ser fundamental para a transformação num Buda vivo.

“Há muito que se crê que as montanhas são a morada de deuses locais, forças demoníacas, dragões benevolentes e até budas e bodhisattvas”, explica Carter. À semelhança de outros praticantes e devotos, aqueles que aspiravam a ser sokushinbutsu dirigiam-se a estes locais sagrados “para dominar o seu terreno, receber o conhecimento ritual adequado e conviver com sucesso com as suas divindades – tornando-se eles próprios divindades ao longo do processo”.

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fotografia de DR. KEN JEREMIAH

Shinnyokai-sh��nin encontra-se no Templo Dainichibō, no sopé do Monte Yudono. Durante o seu tempo de vida, danos agrícolas causaram uma crise de fome generalizada. Segundo o templo, Shinnyokai-shōnin tornou-se um sokushinbutsu para ajudar a proteger o povo e pôr fim ao seu sofrimento.

A abordagem de cada monge a tornar-se um sokushinbutsu variava. Geralmente, depois de se tornar membro de um dos templos ou seminários e viver uma vida devota, o monge que escolhia alcançar este tipo de iluminação tornava-se recluso. Adoptava uma dieta na qual se abstinha de cereais. Para alguns, isso significava comer apenas cascas de árvore, agulhas de pinheiro, pinhas, sementes, castanhas ou até pedras e cristais durante um período de mil ou vários milhares de dias.

Não se conhecem mulheres sokushinbutsu, pois a presença das mulheres não foi permitida em muitos espaços sagrados, incluindo o cume das montanhas sagradas, durante grande parte da história. Entretanto, as regras mudaram e existem algumas sacerdotisas em várias seitas budistas no Japão.

Após o jejum, os monges sepultavam-se numa câmara de pedra no subsolo ou num caixão, entoando orações até morrerem. Alguns eram deixados sob a terra durante três anos, sendo posteriormente exumados, num estado preservado, e depositados no templo. Outros eram exumados imediatamente após a morte e os seus corpos eram desidratados utilizando fumo de carvão e incenso, e depois novamente enterrados e deixados no subsolo durante três anos, até serem colocados nos santuários.

Não sabemos ao certo quantos sokushinbutsu existiram ao longo da história. O processo de auto-mumificação é tão popular que não há como saber quantos monges podem ter tentado fazê-lo e fracassado – e os seus corpos não preservados terem apodrecido e desaparecido. No entanto, na década de 1960, investigadores japoneses redescobriram e estudaram os sokushinbutsu na região documentada como 21, para a qual existem registos escritos de outros cujos restos mortais já não existem.

A concentração mais elevada de sokushinbutsu (13 de 21) encontra-se na prefeitura de Yamagata. Estão espalhados por templos em redor do Monte Yudano, parte do Dewa Sanzan sagrado, juntamente com o Monte Haguro e o Monte Gassan.

Embora esta prática possa parecer incompreensivelmente extremista, os sokushinbutsu existem enquanto parte de uma estrutura religiosa mais abrangente que inclui outros actos ascéticos que exigiam esforço e a resistência física. Actualmente, os leigos ainda podem participar em actos ascéticos – como caminhar sobre o fogo, subir uma escada de espadas com os pés descalços e submeter-se a provas de resistência ao frio – em festivais, templos ou locais sagrados. Existem actos semelhantes no taoísmo e no budismo praticado na Índia, ambos influenciados pelo desenvolvimento histórico do Shugendo.

Para a maioria das pessoas, a participação nestes actos fisicamente exigentes e frequentemente dolorosos torna a mente e o espírito mais focados.

Tornar-se sokushinbutsu para beneficiar os outros

O sokushinbutsu mais velho de Dewa Sanzan é Honmyokai, que entrou em meditação profunda em 1683. Originalmente vassalo de um senhor feudal, diz-se que ingressou num seminário Yudano para rezar pela recuperação do seu senhor, que sofria de uma doença terminal. Para se tornar sokushinbutsu, começou por viver em reclusão, praticando uma dieta ascética à base de agulhas de pinheiro durante quase uma década. Quando estava prestes a morrer, entrou numa câmara de pedra e entoou uma oração até morrer. O investigador especialista em folclore Ichiro Hori, que faz parte da equipa original de investigadores que estuda os sokushinbutsu, diz que o desejo de Honmyokai era libertar as pessoas do sofrimento e da doença.

O sokushinbutsu mais conhecido de Dewa Sanzan é Tetsumonkai, que se tornou sokushinbutsu em 1829. Embora a sua história varie ligeiramente dependendo da fonte, a crença mais generalizada diz que ele matou dois samurais e fugiu para um templo, iniciando ali uma vida ascética. Também viajou pelo norte do Japão, oferecendo orientação espiritual e cuidados médicos graças ao seu conhecimento de ervas. À semelhança de Honmyokai, o altruísmo é um tema transversal à história de Tetsumonkai. Durante o período Edo, uma doença que atacava os olhos disseminou-se, tornando-se epidémica. Segundo Hori, Tetsumonkai arrancou propositadamente um dos seus próprios olhos para oferecer às divindades do Monte Yudano e salvar as pessoas que sofriam da doença. Seguindo o precedente aberto por aqueles que o precederam, Tetsumonkai jejuou e entrou em meditação profunda, tornando-se um Buda consagrado no Templo de Churen-ji.

Existem muitos outros sokushinbutsu e muitos cujas histórias se perderam no tempo. Para todos os que conhecemos, os relatos mencionam que decidiram submeter-se ao processo por razões pessoais e singulares. No entanto, o processo é frequentemente uma escolha altruísta, seja para o benefício de um indivíduo, de uma aldeia ou de uma sociedade inteira.

A razão para se tornar um sokushinbutsu parece não ser em benefício próprio, mas algo que o indivíduo se propõe a fazer em prol dos outros, tanto durante a sua vida mortal, como após a morte – enquanto Buda vivo.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.