Os antigos egípcios tinham as suas schenti, os romanos as subligacula e as pessoas da Idade Média usaram braies e chausses antes da introdução da braguilha no Renascimento. Ao longo de todo este tempo, houve um elemento que permaneceu constante – cobrir as partes íntimas do homem. Só muito mais tarde é que apareceram os boxers, as cuecas e cuecas-calção. Afinal, a história da roupa interior é uma mistura de pragmatismo, mudanças e moda.

A antiguidade e os primeiros tipos de roupa interior

O tipo mais antigo de roupa interior foi a tanga. Nos tempos pré-históricos, as tangaseram usadas por homens e mulheres. Eram elaboradas a partir de tiras de tecido, colocadas entre as pernas e presas à volta da cintura.

Os antigos egípcios criaram peças de linho triangulares com fios nas extremidades. Os observadores modernos podem associar o aspecto desta peça a um kilt, mas os comprimentos destas schenti variavam. As schenti eram usadas por faraós e, mais tarde, também por membros das classes sociais inferiores. Tutankhamon foi enterrado com 145 schenti, uma grande colecção de tangas para o acompanharem no submundo.

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Estatueta de um homem religioso com calções cipriotas e uma coroa egípcia, datada da primeira metade do século VI a.C. Cipriota, Calcário, Dimensões: 44,5 x 21,3 x 8,6 cm), Escultura de pedra, homem religioso com capacete pontiagudo e tanga cipriota.

A nudez era muito mais aceitável na Grécia antiga, mas, até ali, era possível que se usasse uma peça de roupa interior semelhante àquilo que os egípcios chamavam perizoma.

Os antigos romanos também tinham as suas próprias roupas interiores para usar sob as túnicas, togas ou robes, que tinham adaptado dos antigos etruscos e usavam desde meados do século II d.C. A subligaculumromana poderia assemelhar-se a uma tanga ou a uns calções.

Do mesmo modo, durante a Idade Média, tribos célticas e germânicas usaram uns calções interiores largos chamados braies. Não sabemos ao certo se os braies eram usados por homens e mulheres (ou a frequência com que eram usados), mas sabemos que os homens usavam um cinto ou um cordão para segurar os seus braies. Alguns também usavam chausses, ou leggings e, no século XV, as duas peças praticamente se fundiram numa só.

Vénus de biquíni
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Vénus de biquíni. Cópia romana em mármore do original helénico descoberto na Casa de Julia Felix (Praedia di Giulia Felice) em Pompeia (século I d.C.) exposta no Gabinetto Segreto do Museu Nacional de Arqueologia de Nápoles, Campânia, Itália.

Estas roupas interiores acabaram por dar lugar a braguilhas mais elaboradas, concebidas não só para cobrir, mas proteger as partes íntimas de um homem. As braguilhas eram feitas de materiais mais rígidos, decoradas e enchidas, tornando-se progressivamente maiores para insinuar a virilidade do homem.

Boxers, cuecas e outras inovações

Continuava a haver necessidade de fabricar peças de roupa para usar sob as túnicas e outras peças de vestuário exterior. No início do século XIX, as ceroulas surgiram como uma componente prática para homens e mulheres, pois mantinham a roupa exterior limpa, absorvendo a poeira e o suor.

Neste período, ocorrem também a introdução dos macacões interiores – predecessores dos babygrows – para satisfazer as necessidades de homens e mulheres. Os homens podiam usar blusas e camisas por cima deles e as mulheres podiam livrar-se dos seus espartilhos, meias e ligas. Foi uma peça útil, pois a industrialização fez com que mais homens e mulheres trabalhassem em fábricas.

Quando as bicicletas invadiram as ruas, as jockstraps ofereceram suporte adicional aos ciclistas que pedalavam nas ruas cheias de altos e baixos. As primeiras jockstraps, assim designadas por serem “straps” usadas por “bicycle jockeys” (cintas para ciclistas), foram introduzidas em 1874. A roupa interior e o equipamento desportivo permaneceram relacionados no início do século XX devido a Jacob Golomb e os seus fatos e calções de banho com cinturas elásticas – uma inovação que deu origem aos boxers como roupa interior.

Os boxers não foram muito populares inicialmente – mas o mesmo não aconteceu às cuecas, que também foram desenvolvidas no início do século XX. Em 1928, Arthur Kneibler foi contratado pela Cooper Underwear Company, onde o “engenheiro de roupa” apresentou roupa interior inspirada nas jockstraps. Os jockey shorts de Kneibler foram um êxito imediato quando chegaram às lojas em 1935.

Marcas familiares estiveram no centro das inovações dos séculos XIX e XX. Hanes capitalizou no mercado dos macacões interiores, os esforços de Golcomb deram origem à empresa de roupa desportiva Everlast e as cuecas de Kneibler inspiraram Cooper a mudar o seu nome para Jockey. O pertinente logótipo Fruit of the Loom já marcava presença na roupa interior na viragem do século.

ceroulas
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Em 1876, os homens americanos usavam frequentemente ceroulas como este par de calças beges compridas, apertadas à cintura.

A roupa interior torna-se popular

A roupa interior tornou-se uma peça da moda nas décadas de 1950 e 1960, quando deixou de ser branca para adoptar uma grande variedade de cores e padrões, e o desenvolvimento de tecidos como o rayon e o Dacron possibilitaram o desenvolvimento de novos designs para homens e mulheres.

Em função disso, os anúncios de roupa interior foram se tornando cada vez mais explícitos – e as cuecas estilo biquíni e as tangas em nylon não tardaram a acompanhar as Tighty-Whities (nome pelo qual os jockey shorts de Kneibler se tornariam conhecidos mais tarde) nas campanhas de marketing.

Nas décadas de 1980 e 1990, o mundo discutia uma questão essencial: boxers ou cuecas? Os boxers tinham-se tornado mais populares após a Segunda Guerra Mundial, pois os homens que serviram nas forças armadas tinham-se adaptado a esse estilo de roupa interior. No entanto, à medida que o século avançava, as pessoas começaram a ponderar os seus benefícios para a saúde – e tornou-se tendência começar a perguntar a homens famosos, incluindo ao presidente dos EUA, Bill Clinton, que tipo de roupa interior usavam.

Pouco depois, surgiu uma nova opção: as cuecas-calção, um híbrido de ambos os estilos. Os créditos desta invenção pertencem a John Varvatos, designer da Calvin Klein, que as criou no início da década de 1990, embora possa não ter sido a primeira pessoa a ter a ideia. Este tipo de cueca tornou-se popular depois de uma campanha publicitária da Calvin Klein, lançada em 1992 e protagonizada pelo rapper transformado em actor Mark “Marky Mark” Wahlberg, que não usava mais nada para além das suas cuecas brancas Calvin Klein. Os anúncios explícitos, fotografados por Herb Ritz, geraram polémica e a Calvin Klein tornou-se uma marca da roupa interior famosa.

A inovação na roupa interior diminuiu desde então – mas pode ter a certeza de que, quando aparecer um produto novo, o público vai querer vê-lo em todo o seu esplendor.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.