O guerreiro de Viseu e a língua lusitana

Em 2021, nos alicerces de um edifício da Rua Direita de Viseu, foi recuperada uma enigmática estela decorada que abriu um ténue portal para um mundo Pré-Romano e para uma língua há muito extinta.

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José Alfredo

Desde 2016 que a arqueóloga Fátima Costa, da empresa Eon Indústrias Criativas, coordenava uma intervenção de salvaguarda no antigo edifício do Orfeão de Viseu, em plena Rua Direita. No sistema circulatório da cidade beirã, esta é a artéria principal que desde a Antiguidade bombeia sangue do topo da colina para a base. Já se chamou Rua das Tendas e por aqui passou o cardo romano, sobrepondo-se decerto a um povoado da Idade do Ferro de dimensões relevantes. Com a construção da muralha do século XV, tornou-se a Rua Direita – não por traçar uma linha recta (longe disso!) mas por ser central e ligar as duas portas da cidade.

Desde o início do século XXI que Viseu está em vias de se reconciliar com o seu passado. Até então, com honrosas excepções, as primeiras páginas do grande livro de história da cidade estavam omissas, amalgamadas umas nas outras como um manuscrito antigo que nunca ninguém descolara. De 2000 para cá, as dezenas de intervenções urbanísticas no centro histórico foram acompanhadas por arqueólogos que, aos poucos, começaram a preencher o vazio. Basta lembrar que, em 1968, num artigo pioneiro da Geografia Urbana assinado por Orlando Ribeiro, descascavam-se todas as camadas históricas de ocupação da Rua Direita, mas o autor não se aventurava para lá da fronteira medieval. Era como se Viseu não tivesse existido  antes dos suevos e dos visigodos ou da constituição da diocese local.

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PEDRO SOBRAL DE CARVALHO / EON INDÚSTRIAS CRIATIVAS

A escavação arqueológica teve lugar no logradouro da antiga sede do Orfeão de Viseu. O edifício sofreu um violento incêndio em 1923, que deverá ter forçado uma reconstrução apressada. A estela do guerreiro estava depositada de face para baixo, reutilizada como material de construção de um muro.

A persistência compensou. Aos poucos, apareceram vestígios de ocupação romana (que o arqueólogo Amorim Girão já antecipava em 1925), a ponto de o arqueólogo Pedro C. Carvalho, da Universidade de Coimbra, propor já a localização do fórum romano no lugar hoje ocupado pela Sé, pelo Museu Grão Vasco e pela Igreja da Misericórdia. Também um possível anfiteatro foi proposto recentemente entre a Rua Direita e a Rua do Gonçalinho, a par de amplos vestígios de ocupação – de monumentos votivos a espólio funerário – e outros indícios materiais da presença romana.

Pelo meio, emergiu também uma narrativa mais antiga sobre um povoado da Idade do Ferro que deixou significativos vestígios materiais e um ténue eco cultural perpetuado por aqueles que, em última instância, foram responsáveis pelo seu apagamento da história. Mas adiantamo-nos. Esta narrativa tem o momento decisivo numa manhã de 2021, quando Fátima Costa e o arqueólogo Pedro Sobral de Carvalho decidiram por fim levantar uma pedra que há muito os intrigava na base de um muro da sede do Orfeão.

O edifício em si destoa um pouco do carácter medieval da Rua Direita. Como Orlando Ribeiro já notara, esta artéria é uma das que melhor conserva a fisionomia e funções tradicionais das ruas clássicas medievais, ao mesmo tempo que desempenha no contexto moderno a função simbólica da velha cidade. O Orfeão tomara o lugar do Montepio Viseense que, por sua vez, se instalara na Rua Direita no início do século XX. A aquisição de dois lotes contíguos acelerara um programa de construção da nova sede, que provavelmente tomou emprestados todos os materiais pétreos disponíveis no local.

Teria sido mais convincente para efeitos narrativos se a peça fosse uma surpresa completa, mas, na realidade, Fátima Costa já tinha uma ideia do que estava na face voltada para baixo, posicionada numa espécie de bueiro. Percebendo a qualidade do trabalho de aplanamento da face traseira, a arqueóloga conseguira inserir um telemóvel na pequena vala e fotografara a face oculta. “Vi logo que tinha inscrições”, conta com um sorriso. “Mas não estava preparada para o resto.”

Quando a peça foi finalmente voltada, exibiu uma face que talvez não fosse vista há quase dois milénios. Com 99 centímetros, estava fragmentada no topo superior, o que implicou a perda provável do corpo esculpido do guerreiro – calcula-se que poderia ter mais um metro.

A superfície que nos chegou apresenta um amplo escudo redondo, cuja dimensão excede a própria largura da estela. Uma das mãos segura um punhal e a outra está espalmada na diagonal sobre o peito. Talvez não no próprio dia, mas os arqueólogos não puderam deixar de se lembrar da descrição vigorosa de Estrabão, em “Geografia”, sobre o armamento dos lusitanos: “Têm um escudo pequeno de dois pés de diâmetro, côncavo na frente, preso por correias, pois não tem manilhas nem outro tipo de pegas. Têm também um punhal ou um cutelo” – escreveu o autor grego, poucos anos antes de Augusto fundar as três primeiras províncias romanas na Península Ibérica e dar a machadada final nas culturas indígenas resistentes ao poder de Roma.

As semelhanças simbólicas eram sugestivas e não apenas com as fontes clássicas. As estátuas dos guerreiros galaico-lusitanos do Castro de Outeiro Lesenho (Boticas/Ribeira de Pena), descobertas no século XIX, apresentam armamento semelhante e até o modo de empunhar a arma com a mão direita é significativamente parecido. A peça estava a “comunicar” com os arqueólogos, mas ainda demoraria até se perceber a totalidade da sua mensagem.

Lusitano Galaico, mNA
MUSEU NACIONAL DE ARQUEOLOGIA / DGPC

Descoberta no Castro de Outeiro Lesenho, em Boticas, a estátua deste guerreiro deverá remontar ao século I d.C. e tem particular relevância para o debate sobre a nova peça por apresentar indiscutível semelhança no que respeita às armas: o escudo e o punhal. Ao sítio associam-se mais três estátuas do mesmo tipo.

“Havia também uma inscrição e aí percebemos que tínhamos de convocar outros especialistas”, diz Fátima Costa. “De alguma maneira, o arqueólogo de salvaguarda funciona como o médico de família, fazendo a primeira triagem dos casos que encontra e remetendo para o especialista as situações mais intrincadas.” Neste caso, os especialistas foram o epigrafista Armando Redentor, também da Universidade de Coimbra, e o arqueólogo Pedro C. Carvalho, que tem nos últimos anos reconstituído a Viseu Romana e a Viseu da Idade do Ferro com base nos achados arqueológicos de décadas anteriores.

Uma língua extinta é como um baú cheio de tesouros do qual se perdeu a chave. Na maior parte dos casos, na ausência de falantes activos, perde-se para sempre. A língua lusitana poderia ser mais um ramo morto da grande árvore da diversidade linguística humana, mas foi preservada precariamente pela cultura que se lhe sobrepôs. Com a romanização, impôs-se uma nova cultura, um novo panteão de deuses, um novo regime político e uma língua nova, o latim, alicerçado numa prática corrente de fixação de texto pela escrita. A epigrafia tornou-se corrente no mundo romano, ao passo que as línguas e dialectos indígenas eram sobretudo orais.

Como náufragos perdidos num mar de corrente contrária, chegaram-nos apenas cinco a seis inscrições em língua lusitana (duas ou três em território espanhol, na zona de Cáceres, conhecendo-se o paradeiro de uma apenas; uma em Lamas de Moledo; outra no Cabeço das Fráguas; e uma última em suporte móvel encontrado em Arronches). Sem excepção, foram todas produzidas já sob domínio romano, utilizando o alfabeto latino adaptado à estrutura da língua pré-romana. “As pessoas movem-se e os dialectos e as línguas movem-se com elas, não são estanques”,  lembra Armando Redentor. “Nas inscrições que nos chegaram na língua dita lusitana, temos grafada, por exemplo, a teonímia (os nomes das divindades), outro vocabulário e algumas formas verbais. Tudo o que é antroponímia (os nomes de indivíduos) já aparece latinizado, embora alguma revele origem indígena.”

LamasMoledooao PedroPintoE EonIndustriasCriativas CC

Ao longo de quatrocentos anos, esta inscrição foi alvo de interpretações parciais e até fantasiosas. O arquitecto Rogério de Azevedo chegou a ver no texto a música de um hino lusitano redigido em caracteres gregos. Hoje em dia, após as leituras de H. Balmori, António Tovar, Maria de Lourdes Albertos, João Inês Vaz e Jürgen Untermann, entre outros, dá-se como certo que se trata de uma inscrição de carácter religioso, registando o sacrifício de animais a divindades autóctones por parte de uma entidade identificada como os Veamnicori (ou Veaminicori). Redigida em língua lusitana, é plausivelmente do século I d.C.

Em 2009, na obra de construção do funicular no centro de Viseu, a poucos metros do local deste achado, foi encontrada uma ara importantíssima. Na inscrição, Albino, filho de Quéreas, invocava os deuses e deusas vissaieigenses, cumprindo o voto de lhes erguer um altar. A peça talvez pertencesse ao próprio fórum e, embora escrita na totalidade em latim, abriu uma chave de leitura para a transição vivida na cidade no final do século I d.C.

“Ao consagrar divindades indígenas no principal espaço público, a inscrição sugere que se mantinha a sacralidade anterior e que se permitiam cultos mais antigos no coração da cidade romana”, diz Pedro C. Carvalho. “Creio que em Viseu já temos claras evidências de um encontro de culturas, de um hibridismo cultural, onde manifestações pré-romanas (lusitanas ou não) coexistiam com o novo mundo romano. No centro e no topo da cidade, uma área entre penedos foi propositadamente deixada intacta pela construção do fórum. Na actual cidade, nas traseiras da Sé, ainda se observam esses afloramentos graníticos volumosos. São os restos do monte antigo, provavelmente sagrado para o povoado da Idade do Ferro. Poderia ter sido arrasado como sucedeu noutras cidades romanas, mas foi preservado. Que melhor demonstração haveria da vontade de manter na cidade romana um espaço sagrado de época pré-romana?”

A inscrição agora encontrada refere: “Monumento (sepulcral). Lobésio, filho de Cauciro.” Lobésio, com ligeiras variações, é um dos antropónimos cuja distribuição geográfica é basicamente lusitana. Nesta inscrição, a terminação do nome em “-os” chamou a atenção de Armando Redentor, como indicador de que poderia tratar-se de uma desinência de língua pré-romana, eventualmente celta ou lusitano, num contexto geográfico lusitano. “Na realidade, conhecemos pouco desta língua e é importante ter cuidado com as afirmações categóricas. Do singular, conhecemos o dativo e o acusativo da língua lusitana, mas não as terminações do nominativo ou do genitivo. Precisamos de mais inscrições para complementar o conhecimento sobre a língua lusitana e esclarecer os enigmas sobre as suas origens e influências”, diz.

Todas as inscrições conhecidas até agora em língua lusitana assinalam acontecimentos de carácter público, provavelmente repetidos com regularidade (como sucede com o santuário do Cabeço das Fráguas) ou com referências a sacrifícios de animais em honra de deuses específicos do panteão indígena. Não se conhecia até agora qualquer inscrição de carácter funerário, mas a estela é um monumento habitualmente associado à comemoração funerária em contextos de necrópoles. A que necrópole se poderia associar?

A investigação em Viseu já identificou três necrópoles de época romana, uma das quais na Rua Silva Gaio, a cerca de 750 metros do local deste achado, embora pelo meio existisse o fórum. Há muito que os epigrafistas sabem que as palavras voam, os escritos ficam e… as  pedras com inscrições tendem a deslocar-se e a reaproveitar-se em contextos posteriores. Nunca saberemos quem foi Lobésio nem porque se lhe dedicou um monumento tão refinado. Seria certamente um membro da elite local, pressionada entre as forças tectónicas de duas civilizações. Pedro C. Carvalho tem uma curiosa interpretação: “Estamos a chegar à conclusão de que, nas periferias do Império, havia diferentes versões de ser romano, derivadas da manutenção de diversas manifestações do substrato cultural indígena. Tendemos a esquecer que na Península Ibérica, como noutras regiões, o bilinguismo ocorreria. As línguas nativas não desapareceram de um dia para o outro, nem os indivíduos acordaram um dia como romanos.”

Cauteloso com a datação de uma inscrição reaproveitada (e por consequência sem elementos sólidos de datação), Redentor sugere que esta estela do guerreiro deverá datar do início do primeiro século da nossa era, ao passo que a ara dos deuses vissaieigenses (que aliás foi decisiva para indagar sobre o nome autóctone da cidade, Vissaium) data do final desse século ou mesmo do início do seguinte. “Isso revela uma continuidade interessante do uso da língua e comprova que o registo de línguas paleo-hispânicas é particularmente evidente no campo da religião – da teonímia e das fórmulas religiosas”, diz.

“Esta nova inscrição aponta para uma fase ainda precoce do contacto linguístico em que as competências na nova língua poderiam ainda não ser totais”, acrescenta Redentor. “A ara, por seu lado, a história de um momento em que o latim já teria sido assumido como nova língua, mantendo-se no entanto resquícios da língua antiga, pré-romana.” Quando duas línguas se encontram, uma com cariz oral e outra com expressão escrita marcada, é evidente que a língua escrita – ainda por cima oriunda da cultura dominante – prevalecerá. No entanto, inscrições como esta abrem um pequeno portal para um mundo que se perdeu, já que a língua é, de todos os aspectos de uma cultura, o que provavelmente deixa menos rasto material.

Os combates deixam marcas nos esqueletos dos soldados e uma ampla cultura material de armamento; as práticas religiosas deixam para trás inscrições, lucernas e os próprios espaços sagrados; as crenças e superstições ficam testemunhadas por amuletos e até tabuinhas de maldição. A língua, porém, é como um fio de seda que, uma vez cortado, dificilmente se reconstitui.

“Por outro lado, também é verdade que só temos conhecimento da língua lusitana quando ela passou à forma escrita, utilizando o alfabeto latino”, lembra Pedro C. Carvalho. “E o mesmo sucedeu com as divindades pré-romanas. Só as conhecemos porque continuaram a ser objecto de culto em época romana e o seu nome ficou gravado na pedra. Não saberíamos que nos cultos indígenas havia centenas ou mesmo milhares de divindades, nem saberíamos os seus nomes, se não fossem estes relatos e estas invocações de época romana.”

Lobésio talvez só aspirasse a ser recordado pelos companheiros e familiares mais próximos. Talvez falasse em lusitano (se os indícios remeterem para essa língua) e já compreendesse o latim, inserindo-se – sem saber – naquilo que o epigrafista José Cardim Ribeiro chamou o “magma de idiomas indo-europeus que se forjava na Europa” na Antiguidade. Poderia ser um guerreiro hábil no uso do punhal de empunhadura biglobular que tanto assustara os soldados romanos na geração do pai, Cauciro. Conhecia decerto alguém com sagacidade para adequar o alfabeto latino ao registo da sua língua. Por um estranho canal intercultural, facilitado pela literacia da nova cultura vencedora na cidade onde vivia, a sua mensagem viajou pelo tempo e chegou à actualidade, como um eco remoto de uma cultura da Idade do Ferro que começamos a desvendar. O que mais se esconderá no subsolo da cidade de Viseu? 

Artigo publicado originalmente na edição de Janeiro de 2024 da revista National Geographic.