A história da roupa interior, particularmente da feminina, está por fazer. Apesar de as duas peças convencionais (cuecas e soutien) terem as suas formas de base fixadas desde o império romano, as referências documentais ao uso de peças de roupa interior são escassas, pelo que mapear e entender o significado e o significante, bem como a utilização das peças de roupa íntima, não é fácil. Por exemplo, no Vocabulário de Rafael Bluteau em 1712 a definição de “cuecas” é a seguinte: “São uns calçõezinhos que se trazem debaixo dos calções, se atam debaixo do joelho, por amor do frio. Houve tempo em que serviam de calções. Braccae interiores”.

Há muito poucos registos pictóricos ou escritos de mulheres em trajos íntimos, o que dificulta a compreensão da história da roupa interior no feminino.

Sabemos que as mulheres romanas quando praticavam desporto usavam um tipo de cuecas e um soutien com formas muito semelhantes às actuais devido ao registo em mosaico que se encontra na Villa Romana del Casale di Piazza Amerina na Sicília, e que data do século IV.

Porém, a peça de roupa interior por excelência dos períodos medieval e moderno era a camisa (tanto para as mulheres quanto para os homens), e nem sempre é fácil perceber que peças íntimas se usavam (ou sequer, se se usavam) por baixo. (Figura 1). Se como se viu no artigo sobre as braguilhas, no caso dos homens, a pintura deixa ver o tipo de bragas e calções e formas diversificadas de atar pedaços de pano à cintura de maneira a servirem de cuecas, no caso das mulheres o assunto é mais complicado, uma vez que estas raramente surgem em trajos íntimos.

Corpinho
© National Galery. Imagem em Domínio Público

Figura 1: Corpinho. Lorenzo Lotto, Mulher veneziana à maneira de Lucrécia.

O corpinho começou por ser uma peça interior do vestuário feminino, semelhante a um corpete, que servia para proteger o peito e a cintura, com ou sem mangas aplicadas. Usado transversalmente pelas mulheres de todas as classes sociais, o corpinho era muitas vezes também uma peça de uso exterior, sobretudo entre as mulheres de classes populares. Esta peça de vestuário terá começado a evoluir para uma peça mais apertada (com recursos a laçadas) a partir do final do século XIV quando as roupas começaram a moldar a figura humana, substituindo as linhas suaves e fluidas do vestuário medieval (Figura 2, abaixo).

O corpinho era usado por mulheres de todas as classes sociais.

Em meados do século XV, verifica-se uma alteração substancial na figura masculina e feminina com o abandono definitivo das linhas alongadas e excessivas (como as das coberturas de cabeça pontiagudas ou dos sapatos com pontas extensas e reviradas) da moda quatrocentista e a adopção de uma silhueta que ajustava e moldava o corpo, gendarizando-o, levando à transformação do corpinho no espartilho.

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© MUSEU NACIONAL GRÃO VASCO, VISEU / DIRECÇÃO-GERAL DO PATRIMÓNIO CULTURAL / ARQUIVO DE DOCUMENTAÇÃO FOTOGRÁFICA (DGPC/ADF)

Figura 2: Corpinho. Vasco Fernandes e Francisco Henriques, Apresentação no Templo, 1501-06. Cortesia da Direcção-Geral do Património Cultural / Arquivo de Documentação fotográfica (DGPC/ADF). 

É provável que o desenvolvimento da manufactura de seda no Sul da Europa, particularmente em Itália e Espanha, tenha também contribuído para a necessidade de peças de vestuário mais rígidas, uma vez que o peso, a firmeza e os padrões elaborados de brocados, damascos, veludos e sedas sumptuosas requeriam um tratamento do têxtil e moldes de alfaiataria mais tensos, levando ao desenvolvimento de peças de vestuário que ajudavam a suportar o corpo (como o espartilho) e a moldar a roupa (como o averdugado que se usava por baixo das saias).

Os primeiros “espartilhos” tinham formas muito simples, e provavelmente seriam feitos de dois panos de linho ou algodão (por vezes endurecidos através de um tipo de cola ou enchimento) cosidos juntos, e ajustados de lado na cintura.

Ao contrário do que actualmente possamos pensar, no século XVI o espartilho não se destinava a apertar a cintura e a criar uma figura tipo ampulheta, mas sim a moldar o tronco numa forma cilíndrica, achatando e elevando a linha do busto (Figura 3).

ESPARTILHO CORPINHO Moretto da Brescia 007
© National Galery of Art, Washington. Imagem em Domínio Público

Figura 3: Corpinho. Moretto da Brescia, Retrato de Senhora de Branco, c. 1540.

Para o conseguir, foi criada uma peça, o busco, palavra de origem italiana, que consistia numa espécie de placa feita num material rígido – madeira, marfim, barbas de baleia ou metal –, normalmente mais espessa na parte superior e afunilando em direcção à ponta em baixo, muitas vezes decorada com motivos elaborados e de belo efeito. Esta placa era inserida entre as camadas de linho ou algodão da parte da frente do corpinho, e aí atada através de um laço.

O espartilho destinava-se a moldar o tronco numa forma cilíndrica, achatando a linha do busto.

O busco conferia, assim, ao busto feminino o efeito desejado de achatar o tronco, e só mais tarde, por volta da segunda metade do século XVI, esta estrutura foi reforçada, com a adicção de barbas de baleia nas laterais e na parte de trás (Figura 4, abaixo).

De novo, e ao contrário do que se possa pensar, estas peças de vestuário não eram nada desconfortáveis. Eram confeccionadas sobre o corpo, com a função de servir de suporte ao mesmo. Os materiais, mesmo os menos nobres, eram confortáveis e ajustados por laçadas, o que permitia soltar ou apertar os laços de acordo com as necessidades e bem-estar de quem usava os corpinhos. Igualmente, o reforço que foi sendo aduzido às peças e as transformou nos espartilhos quinhentistas e seiscentistas acabava por contribuir para apoiar as costas.

corpinho
© Museu Nacional do Traje e da Moda / DIRECÇÃO-GERAL DO PATRIMÓNIO CULTURAL / ARQUIVO DE DOCUMENTAÇÃO FOTOGRÁFICA (DGPC/ADF)

Figura 4: Espartilho. Museu Nacional do Traje e da Moda, inv. 4206, 1660 d.C - 1680 d.C. Cortesia da Direcção-Geral do Património Cultural / Arquivo de Documentação fotográfica (DGPC/ADF). 

O corpinho, como outras peças de vestuário, entrou na literatura e poesia portuguesas do período moderno, contribuindo para visualizar a descrição da peça anteriormente feita. Leia-se por isso a maneira como Francisco Rodrigues Lobo (escritor e poeta, que viveu entre 1580 e 1622) descreveu no início do século XVII, o trajo de uma mulher serrana no seu O Pastor Peregrino, dizendo-a vestida com “Hum corpinho mui custoso / De chamalote encarnado, / Fita de seda amarela / Que por baixo reluzia, / Que acinte tudo a fazia / Mais fermosa”.

Glossário

Bragas – Tipo de cuecas ou calça interior, cuja dimensão e forma vai mudando ao longo do tempo. 

Chamalote  –  Tecido de pêlo de camelo, de certas espécies de bode ou de lã, de várias cores, geralmente misturado com alguma seda.

Referências bibliográficas:

Bluteau, Raphael, Vocabulario Portuguez e Latino (…). Coimbra: No Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712, vol. 2, p. 629.

Oliveira, Fernando, O vestuário português ao tempo da expansão (Séculos XV e XVI). Lisboa: Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para os Descobrimentos Portugueses, [1993].

Waugh, Norah, Corsets and Crinolines. Taylor & Francis, 2018 (edição de Judith Dolan).

* Este artigo foi escrito no âmbito de uma parceria de comunicação de Ciência estabelecida entre a National Geographic Portugal e o CHAM - Centro de Humanidades, relacionada com o projecto VESTE, e integra a série "Saber o que Vestir". A sua autora, Carla Alferes Pinto, é investigadora do CHAM – Centro de Humanidades NOVA FCSH.