El Greco, um génio universal na Toledo de Filipe II

Depois de procurar fortuna em Veneza e Roma, El Greco mudou-se para Espanha com a esperança de trabalhar para Filipe II. Instalado em Toledo, pintou ali as obras-primas pelas quais é recordado na actualidade.

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DOMÍNIO PÚBLICO

Laocoonte, 1608/14 (National Gallery of Art, Washington, DC).

Aos 30 anos, Doménikos Theotokópoulos, conhecido como El Greco, encontrava-se em ponto morto na sua carreira como pintor. Formado na sua ilha natal, Creta, na tradição bizantina de pintura de ícones, viajou aos 26 anos para Itália para assimilar os estilos modernos da pintura ocidental. Primeiro, embrenhou-se em Veneza na estética própria deste grande centro artístico, marcada por pintores como Ticiano, Tintoretto ou Veronese, na qual a cor e a luz eram aspectos decisivos.

Anos mais tarde, já em Roma, entrou em contacto com o maneirismo que ali imperava, herdeiro dos grandes mestres renascentistas como Rafael ou Miguel Ângelo. Contudo, nem em Veneza nem na Cidade Eterna, alcançou o êxito que esperava. Para um estrangeiro como ele, tornava-se difícil singrar no competitivo ambiente artístico italiano. 

Em Roma, entrou em contacto com algumas personagens espanholas. Uma delas era Luís de Castela, filho legítimo do deão da Catedral de Toledo. A estreita amizade entre os dois fê-lo pensar que, em Espanha e em particular em Toledo, receberia as encomendas que aspirava como artista. Além disso, El Greco teve notícias da grande campanha que Filipe II pusera em marcha no Escorial, onde construía o seu grande mosteiro-palácio e contratava muitos artistas para o decorar.

Creta
Franck Guiziou / Gtres

A igreja ortodoxa de Agios Panteleimonas (São Pantaleão) ergue-se perto da baía de Messara, na ilha natal de El Greco. Não se sabe se o pintor manteve as suas crenças ortodoxas ou se se terá convertido ao catolicismo quando abandonou a pátria.

O rei de Espanha era o monarca mais poderoso da Europa e era reconhecido pelo seu importante mecenato. A expectativa de entrar para o seu serviço terá sido um dos incentivos, talvez até o principal, para que em 1577 El Greco tomasse a decisão de se transferir para Espanha.

El Greco em Toledo 

Depois de passar por Madrid, El Greco instalou-se em Toledo, mas a sua máxima aspiração era permanecer na corte. A oportunidade surgiu em 1579, quando Filipe II chegou à cidade do Tejo e conheceu a sua produção. Foi nessa altura que El Greco terá recebido a encomenda de um óleo para a Basílica do Escorial: O Martírio de São Maurício e a Legião Tebana (1580-1882). 

No entanto, a obra, tal como conta o frei José de Siguënza, não agradou ao rei, seguramente porque apresentava o tema de forma pouco convencional e não cumpria a função que se esperava da pintura: mostrar claramente os episódios narrados, motivar a piedade dos fiéis e transmitir-lhes a doutrina. A pintura foi rejeitada.

Depois desta decepção, o cretense percebeu que o seu futuro como pintor em Espanha passava por Toledo, de onde já não saiu. Para esta decisão, terá também contribuído a sua relação com uma toledana, Jerónima de las Cuevas, com a qual não chegou a casar-se, mas da qual teve, em 1578, um filho, Jorge Manuel, o único de que se tem notícias.

A Catedral de Toledo
Davide Camesasca / Awl Images

O arcebispado de Toledo era uma das instituições religiosas mais ricas de Espanha, mas El Greco pintou apenas uma obra para a catedral. Na imagem, a capela principal da catedral, realizada na transição do século XV para o século XVI.

Estreia conflituosa 

No final do século XVI, Toledo era ainda uma cidade importante, apesar de ter perdido em definitivo a sua condição de capital da monarquia com o estabelecimento da corte em Madrid, em 1561. Tinha 60.000 a 80.000 habitantes e o clero tinha ali um peso especial. Não deve ser esquecido que a cidade era um centro espiritual da época. Com a sua Catedral Primada e inúmeros mosteiros e conventos, constituía uma espécie de capital espiritual da monarquia hispânica, mas era também uma cidade comercial na qual moravam destacadas linhagens nobiliárquicas. Isto permitia que os artistas e artesãos tivessem uma clientela importante entre particulares e instituições religiosas da cidade e da sua diocese. 

Toledo acolhia igualmente intelectuais e literatos de destaque e, desde os finais do século XV, acolhia uma universidade muito ligada à de Alcalá de Henares e que se tornou um dos pilares do humanismo ibérico. Foi neste ambiente que El Greco se relacionou, tal como já acontecera durante a sua etapa em Itália. Embora a informação sobre o seu círculo de amizades em Toledo seja escassa, consta que lidou com Antonio de Covarrubias, cónego da catedral, professor da universidade e um consumado helenista, o que terá facilitado a aproximação do pintor. 

Da catedral, surgiu a primeira encomenda importante que El Greco recebeu em Toledo: El expolio (1577-1579). Tal como a encomenda anterior, a de São Maurício, e por semelhantes razões, a obra não foi bem aceite pelo cabido, que repreendeu o artista porque o tema não estava exposto de forma adequada. Como era habitual, uma vez terminada a obra, recorreu-se a avaliadores experientes para fixar o seu preço.

El Expolio
Davide Camesasca / Awl Images

El Greco pintou esta tela entre 1577 e 1579 para decorar a sacristia da Catedral de Toledo. Representa o momento em que Cristo é despojado do seu manto, pintado com um tom vermelho intenso, antes da crucificação.

El Greco pediu 900 ducados, mas os avaliadores da catedral só lhe ofereceram 227 e ainda lhe exigiram retoques na pintura. No final, um avaliador independente fixou o preço em 350 ducados, mas El Greco não aceitou alterar a obra, tal como lhe tinham pedido os comitentes. A contenda foi decidida em favor da Catedral de Toledo, que não voltaria a fazer-lhe nova encomenda. 

Na cidade, existiam outras igrejas e mosteiros para os quais o cretense trabalharia nas décadas seguintes, tal como o Hospital Tavera, o Convento de São Domingo, o Antigo, ou a Igreja de São Tomé, para a qual pintou uma das suas obras mais famosas: O enterro do senhor de Orgaz. Recebeu também encomendas de outras localidades de Castela, como Illescas, para cuja Igreja de Nossa Senhora da Caridade pintou o seu Santo Ildefonso. Ganhou entretanto fama como retratista, género no qual introduziu em Espanha o estilo aprendido em Veneza. 

Para dar conta destas encomendas, Doménikos criou um novo estúdio na casa alugada em que viveu a partir de 1585. Entre os seus colaboradores figuraram o pintor de Toledo, Luís Tristán, o escultor Giraldo de Merlo e o gravador Diego de Astor. Sabe-se que ele desenhava os originais, enquanto os seus assistentes faziam cópias dos seus quadros mais célebres. As encomendas mais exigentes eram os retábulos, composições nas quais se integrava a pintura, a escultura e a arquitectura e nas quais El Greco desenhava e intervinha pessoalmente. 

O comboio da vida de El Greco 

As investigações desenvolvidas nas últimas décadas demonstraram que os rendimentos de El Greco na sua actividade pictórica, embora oscilassem ao longo do tempo, foram substanciais. Isto permitiu-lhe alguns luxos quotidianos, como “ter músicos assalariados para, quando comia, poder gozar de todas as delícias”, segundo o testemunho do pintor Jusepe Martínez. O cretense apreciava viver dia a dia, gastando tudo o que ganhava e mantendo uma aura de fidalgo, embora à custa de alguma precariedade material. 

O inventário de bens realizado aquando da sua morte revelou que só possuía quatro camisas, dois pares de meias, umas calças, quatro pares de botas e um chapéu, embora não faltasse uma espada e uma adaga. Os móveis da sua casa também eram relativamente escassos.

É difícil saber se El Greco terá obtido o reconhecimento artístico que ansiava. Mesmo sendo Toledo uma cidade cosmopolita e activa, os artistas não tinham o prestígio social de que usufruíam em Itália. Além disso, El Greco era tendencialmente mais conflituoso nas suas relações clientelares e manteve constantes litígios por desavenças em questões monetárias – como o litígio que manteve com o Hospital da Caridade de Illescas, que chegou à Chancelaria de Valladolid – ou em questões temáticas.

Porém, deve ser assinalado que os valores pagos pelas suas obras indicam que existia já alguma consciência da sua categoria como pintor, sem comparação com outros pintores que trabalhavam também em Toledo. O próprio El Greco estava convencido da sua genialidade e considerava-se até superior a Miguel Ângelo, que destratava por “não saber retratar, nem fazer cabelos, nem coisa que imitasse carne”. Ao mesmo tempo, considerava-se um artista intelectual. 

A sua biblioteca, inventariada depois da sua morte, era composta por 130 livros, um número muito considerável para a época, com títulos em grego, em italiano e em espanhol. Juntamente com os clássicos e os livros religiosos, destacavam-se os volumes dedicados às artes, especialmente à arquitectura, como o Tratado de Vitrúvio. Tinha até a intenção de sintetizar o seu pensamento artístico num tratado que ficou por terminar quando faleceu. 

No dia 7 de Abril de 1614, aos 73 anos de idade, El Greco morreu na cidade que o acolhera. Deixou como herdeiro o seu filho Jorge Manuel, também pintor. O seu amigo, frei Hortênsio Félix Paravicino (retratado abaixo), compôs estes versos depois da sua morte: “Creta deu-lhe vida e pincéis / Toledo, a melhor pátria onde começou / a alcançar com a morte eternidades”.

4 OBRAS ESSENCIAIS DE "EL GRECO"

Um frade da Ordem das Mercês

Album

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Um frade da Ordem das Mercês

Em 1609, El Greco desenhou o retrato do jovem frade pregador, Hortênsio Félix Paravicino. Pintou-o quase de corpo inteiro, sentado numa ampla cadeira, vestido com o hábito branco e preto da sua ordem, sobre o qual se distingue uma cruz vermelha e azul. Com a mão esquerda, segura um espesso livro e um missal entreaberto. A obra encontra-se no Museu de Belas-Artes de Boston.

 Visão de São João

Met / Scala, Florença

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A Visão de São João

Esta tela, pintada por El Greco nos últimos anos da sua vida, foi uma encomenda da Igreja de São João Baptista, nos arredores de Toledo. O tema da pintura remete para a abertura do quinto selo do Apocalipse bíblico: vê-se São João (à esquerda) e as almas nuas que pedem para receber as suas túnicas brancas. A obra está exposta no Museu Metropolitano de Nova Iorque.

O inquisidor geral

Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque / Album

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O inquisidor geral

Em 1600, Filipe II fez uma visita a Toledo acompanhado, entre outros, pelo cardeal e pelo inquisidor-geral Fernando Niño de Guevara. Terá sido provavelmente nesta altura que El Greco fez este célebre retrato, actualmente no Museu Metropolitano de Nova Iorque. Niño aparece com os seus atributos cardinalícios (hábito púrpura, chapéu vermelho, quatro anéis). Os óculos são símbolo de cultura.

Perspectiva de Toledo

Oronoz / album

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Perspectiva de Toledo

Esta pintura, realizada em 1598, capta a cidade de Toledo a partir de norte, com uma fileira de construções que desce até à Ponte de Alcântara sobre o Tejo. No topo, avista-se o Alcázar e, num nível inferior, a silhueta da catedral que, segundo uma perspectiva realista, não deveria aparecer. Fonte: Museu Metropolitano de Nova Iorque. 

Artigo publicado originalmente na edição nº 12 da revista História National Geographic.