A dimensão lúdica, jogos e espectáculos na Hispânia Romana

No mundo hispano-romano, não eram apenas as actividades comerciais a marcar o ritmo quotidiano. As actividades colectivas de lazer definiam a vida pública e marcavam as ocasiões de celebração social.

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Combate de Gladiadores
Gonçalo Delgado

Numa reconstituição histórica em Bracara Augusta (Braga), repetem-se gestos e actos com quase dois milénios. 

Quando falamos da civilização romana, é inevitável pensar nos enormes edifícios de espectáculo que chegaram até nós, mas só pela comparação de tais construções nos apercebemos da sua verdadeira dimensão: o Estádio Santiago Bernabéu permite acolher cerca de 80 mil espectadores; o Estádio da Luz tem capacidade para mais de 64 mil. Estes números impressionantes tornam-se relativamente modestos quando cotejados com os seus congéneres edificados há mais de dois mil anos.

Com efeito, o Circo Máximo (o Circus Maximus, em latim) em Roma poderia albergar mais de 380 mil pessoas e o grande anfiteatro que hoje conhecemos por Coliseu acolhia quase oitenta mil.

Falamos de casos verdadeiramente impressionantes, construídos em Roma e por ordem imperial, mas olhando para os vestígios que nos chegaram, o panorama é ainda mais surpreendente. Por todo o Império Romano foram criados inúmeros edifícios verdadeiramente excepcionais de carácter religioso, militar, civil, obras públicas e infra-estruturas.

As edificações romanas dedicadas ao espectáculo distribuem-se por uma trilogia de monumentos com características específicas e que acolheram espectáculos também distintos: os circos, os teatros e os anfiteatros.

Circus Maximus (Atlas van Loon)
Biblioteca Nacional da Holanda

Em 1649, o Atlas van Loom publicava esta curiosa gravura do Circo Máximo de Roma, com uma representação evidente da spina e dois grandes obeliscos egípcios. Debate-se ainda o que viu ao certo o ilustrador no século XVII.

Essas construções não foram uma invenção romana. Os circos e teatros são de cronologia recuada, correspondendo a uma herança da civilização grega e de épocas anteriores. Em ambos os casos, pode dizer-se que o topos, o lugar, surgiu primeiro e só depois se impôs a materialização do edifício que acolheu a função.

As corridas de atletas e de cavalos realizavam-se desde tempos imemoriais, muito antes da civilização grega, e tinham lugar em qualquer área propícia à actividade. Só depois se fixou o sítio onde as actividades equestres e as corridas desportivas se realizavam. O local onde veio a nascer o Circo Máximo, em Roma, era usado desde os seus primórdios como espaço de reunião, com valências políticas e religiosas.

Só com Júlio César (100-44 a.C.) se iniciou a sua construção permanente, ocorrendo a sua última formulação sob os desígnios do imperador Trajano (98-117 d.C.).

Na Península Ibérica, conhecem-se 11 circos. Em Portugal, estão identificados o de Miróbriga, próximo de Santiago do Cacém, apenas por teledetecção remota, e o de Lisboa, que permanece sob a actual Praça Dom Pedro IVa cerca de sete metros de profundidade, tendo a sua spina (muro divisório central) sido identificada durante as obras do metropolitano em 1993. Os circos mais relevantes na Hispânia são naturalmente o de Augusta Emerita(Mérida), capital da província romana da Lusitânia, e o de Tarraco (Tarragona), capital da província da Tarraconense, este último integrando um vasto conjunto arquitectónico que incluía o fórum provincial. Assinalam-se circos também em Calahorra, Toledo, Sagunto, Valência e Córdova, a qual foi capital da província da Bética, cidade que terá possuído, possivelmente, não um, mas três edifícios circenses.

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Juan Aunion / Shutterstock

O circo de Augusta Emerita é um dos mais bem preservados da Península Ibérica.

Sendo certo que a civilização grega foi determinante no nascimento dos primeiros edifícios criados para acolher as cerimónias, é verdade também que os monumentos construídos em época romana são substancialmente distintos. Os teatros romanos desenvolvem-se de forma a compor um edifício fechado sobre si mesmo onde a altura das bancadas é a mesma da fachada cénica, visando a optimização acústica. Espaços adjacentes, como camarins e arrumos de cenários, completavam um edifício auto-suficiente. Convém ter presente que as actividades eram distintas das modernas e da noção de entretenimento e divertimento que hoje lhes associamos.

Seguindo uma tradição helenística, era nestes espaços que se reunia o populus e onde se realizavam assembleias políticas e administrativas. No entanto, a motivação religiosa subjacente era o motor da sua realização. Quando tais edifícios se materializam fisicamente, isto é, quando as festividades passam do ar livre para um recinto, corporalizam-se de forma mais clara os preceitos rituais que pautavam os eventos.

Não podemos dissociar destes espaços de espectáculo as datas festivas e a dimensão religiosa das cerimónias de culto aos deuses e de agradecimento por vitórias militares, boas colheitas, chuva providencial ou outras benesses. Neste contexto, a mímica, a dança, as oferendas aos deuses, mas também os grupos de bailarinos e declamantes que entoavam frases e versos, foram-se especializando e complexificando os cerimoniais associados. Os ludi romaniem honra da Tríade Capitolina (Júpiter, Juno e Minerva); os ludi Plebeii, dedicados  a Júpiter; os ludi Apolinares, a Apolo; os Megalenses em honra da deusa Cíbele, ou ainda os Ceriales, que festejavam a deusa Ceres são alguns dos muitos festivais cujos ecos nos chegaram.

O mundo do teatro

A primeira tragédia representada teve lugar em Atenas, por volta do ano 534 a.C. no teatro consagrado a Dioniso. O espaço aproveitava a encosta da Acrópole e o público sentava-se no solo ou em assentos de madeira. A paisagem envolvente funcionaria como cenário, sendo a área plana do vale aproveitada como palco onde decorriam as danças e restantes cerimónias. Sem um espaço verdadeiramente construído, a eleição de um lugar de morfologia semicircular foi adoptada pela facilidade em aproveitar as encostas naturais.

Em 364 a.C., por ocasião do esconjuro de uma epidemia, o Senado de Roma decidiu organizar um espectáculo com mimos, bailarinos e músicos vindos da Etrúria. Foram os Ludi Scaenici ou jogos (Ludi) que os historiadores consideram como sendo o primeiro espectáculo de teatro em Roma. A evolução dos bailarinos em palco ao som de instrumentos musicais e acompanhamento pela declamação de versos criou um estilo de espectáculo que rapidamente cativou as populações da Antiguidade. Progressivamente as representações teatrais multiplicam-se, custeadas por dirigentes políticos, mas também por particulares, por ocasião da celebração de uma conquista militar (os designados ludi triumphales), do funeral de uma personalidade (ludi funebres) ou em cada cem anos (os aclamados ludi saeculares).

A multiplicidade de espectáculos e a progressiva especialização das representações levadas a cena popularizaram o teatro. À comédia, à tragédia e ao drama satírico, de origem grega, juntaram-se outras, de carácter exclusivamente romano, como a pantomima, o mimo ou a atelana.

Curiosamente, o primeiro teatro de pedra só terá sido edificado em Roma no ano 55 a.C. quando por toda a península Itálica, na Grécia e em outras províncias já existiam teatros permanentes. O Senado de Roma tentou impedir a sua edificação em clara oposição à cultura grega, justificando-o com o facto de a concentração de tantas pessoas num espaço ser contrária à moralidade.

Por fim, o pedido do general romano Pompeu (106-48 a.C.) para a construção de um teatro permanente em Roma foi autorizado graças ao argumento de que o edifício a construir mais não seria do que uma grande escadaria que conduzia ao templo da deusa Victória situado na parte superior do hemiciclo.

Especialmente no período de governação do imperador Augusto, estes espaços adquiriram uma função progressivamente política e tornaram-se por excelência lugares de veiculação do culto imperial. Os teatros representavam símbolos do poder e marca da romanidade, sendo, na grande maioria, custeados pela administração central, quando não directamente pelo imperador ou pelo seu círculo mais direto. Desde cedo que o financiamento dos ludi por parte dos magistrados passou a ser obrigatório.

No Império Romano, o número total de teatros conhecidos ascende a mais de 360. Na Hispânia, conhecem-se 25 – três dos quais na província da Lusitânia, onde grande parte do território português se inclui. No actual território português, existe ainda outro em Bracara Augusta (Braga), embora não esteja ainda totalmente escavado nem visitável. Muitas outras cidades terão tido teatros como, provavelmente, terá ocorrido em Coimbra, Conimbriga, Évora, Beja ou Faro, assim como em muitas cidades de Espanha.

Jóias da Lusitânia

Localiza-se em Lisboa, a antiga Felicitas Iulia Olisipo, o único teatro romano bem caracterizado e aberto ao público existente em Portugal. Com capacidade para cerca de quatro mil espectadores, seguia o modelo arquitectural da capital da província da Lusitânia.

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José Avelar / Museu de Lisboa

Teatro romano de Felicitas Iulia Olisipo (Lisboa). 

Edificado em época de Augusto, sofreu uma importante remodelação decorativa em 57 d.C., data transmitida por uma curiosa inscrição gravada no proscaenium, o muro que separava a zona do palco da área semicircular reservada à elite citadina (a chamada orchestra).

Os teatros assumiam então um papel determinante na promoção das elites locais e transformaram-se no local onde a população se confrontava consigo própria e com os outros: a posição social, o vestuário, os tecidos e jóias, o local de assento, a ordem de entrada – tudo era intencional, sabiamente escolhido e observado.

Como capital da Lusitânia, naturalmente o teatro de Augusta Emerita influenciou os edifícios cénicos da província que administrava. Com capacidade para cerca de seis mil espectadores, impressiona pela dimensão e estado de conservação.

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António Rafael / Museu de Lisboa – Teatro Romano

Estátuas como esta (estátua do Sileno) ornamentava a parte superior do muro do proscénio. A volumetria, o contraste de volumes e consequentes efeitos de claro/ escuro evidenciam uma qualidade superior da oficina escultórica que produziu esta peça, descoberta em 1798, no Teatro Romano de Lisboa.

Edificado entre 16-15 a.C., desconhece-se como seria a fachada original, uma vez que a que hoje possui é uma remodelação provavelmente de época flávia (69-96 d.C.). O mármore empregue nas elegantes colunas provém das pedreiras do Alentejo.

O teatro de Medellín, próximo de Mérida, testemunha o uso de uma ornamentação anterior à utilização do mármore. O belíssimo estado de conservação do monumento, escavado de forma sistemática a partir de 2005, ilustra como seria a decoração da fachada cénica antes do processo de marmorização generalizado, que ocorreu por todo o Império a partir de meados do séc. I d.C. Os elementos arquitectónicos conservados, com destaque para os belíssimos capitéis talhados em pedra local revestida a estuque, seguem uma técnica ornamental antiga que documenta como seriam os capitéis do teatro de Lisboa dos quais se conserva apenas o núcleo pétreo.

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Wonder Photo Spain / Shutterstock

A Metellinum romana também possuía o seu teatro, que aproveitou na perfeição o desnível do terreno para se adaptar à topografia. 

Os mecenas dos teatros

Os teatros romanos representavam as contrariedades do próprio Império. A todos era permitida a entrada, mas a hierarquia era de tal forma rígida que existiam funcionários (os dissignatores) que, em caso de necessidade, removiam à força quem não tivesse comportamentos adequados ou se sentasse em lugar que não lhe era devido. O lugar de cada um era claramente definido. A elite citadina sentava-se na orchestra, a área mais próxima do palco à qual se acedia por corredores específicos: os aditi maximi. O cerimonial processional de entrada, com pompa e circunstância, era uma forma de auscultar a popularidade. Os aplausos ou apupos eram indicadores do apoio que cada um recolhia na população.

Estes dias marcavam o calendário por todo o império, implicando o encerramento do comércio e das actividades públicas. Eram o cenário perfeito para a elite citadina se mostrar e o local privilegiado para se manifestar a religião oficial do Império: o culto imperial, a par do culto aos deuses.

Desgostoso com o caminho de ostentação pelo qual o teatro enveredava, Quinto Horácio Flaco (65-8 a.C.), um dos maiores poetas e filósofos da Roma Antiga, comparou a multidão do teatro a um burro surdo contra o qual as vozes dos actores não podiam competir. Para este poeta, o texto era a essência da peça teatral.

Os teatros em particular, mas de igual modo os restantes edifícios de espectáculo, desempenharam ainda um papel fulcral no urbanismo e arquitectura citadina. Esse papel era relevante do ponto de vista simbólico, pois a sua presença confirmava a importância da urbe, testemunhando o seu dinamismo e promovendo a classe dirigente.

Por estas razões, o proselitismo local era habitual, especialmente nos primeiros séculos do império. Particulares pagavam partes dos edifícios ou custeavam-nos na totalidade, como ocorreu no teatro de Mérida, inteiramente financiado por Marcus Agripa, braço direito de Augusto.

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Iakov Filimonov / Shutterstock

Nas récitas de teatro da Antiguidade, seis mil pessoas reunir-se-iam no Teatro Romano de Mérida. Durante muito tempo, apenas a área superior emergia do subsolo e os emeritenses chamavam-lhe Las Siete Sillas (As Sete Cadeiras).

Os edifícios transformaram-se em locais de auto-representação. A gravação do nome do mecenas ocorria em lugar bem visível do recinto. No teatro de Málaga, por exemplo, quatro colunas da fachada cénica foram oferecidas por uma ilustre família local. Em Italica, próximo de Sevilha, elementos da aristocracia daquela cidade ofereceram estátuas e, em Lisboa, um liberto custeou a renovação da área central do monumento e embelezou-o com estátuas.

Progressivamente, o público exigiu espetáculos mais exuberantes e sumptuosos. Máquinas complexas operavam no palco, substituindo cenários e criando efeitos cénicos surpreendentes. Ricos trajes, adereços luxuosos e efeitos visuais sobrepunham-se ao textodeclamado a ponto de alguns, como o poeta Horácio, recriminarem a nova tendência.

Novos tempos, mais violência

Foi na sequência deste tipo de espectáculos mais diversificados que surgiram os anfiteatros e os combates de gladiadores (munera gladiatoria) que, em Roma, se tornaram oficiais a partir de 105 a.C.

Estes jogos tinham inicialmente lugar ao ar livre e só mais tarde surgiram edifícios específicos para os acolher – eram naturalmente mais dispendiosos pela sua grande dimensão. Também aqui poderiam ter lugar batalhas navais (naumachia) e combates com animais selvagens e exóticos (venationes), que acabariam por celebrizar os espectáculos romanos para a cultura popular. Na Hispânia, a primeira referência a este tipo de jogos data de 264 a.C. em Carthago Nova (Cartagena).

Foto fauna selvagem, Goncalo, MNAR cc

Esta rara pintura com representação de uma venatio foi descoberta no anfiteatro romano de Mérida. 

Na Hispânia, conhecem-se 17 anfiteatros, edificados entre os dois primeiros séculos da nossa era e, em Portugal, estão identificados três: Ammaia, Bobadela e Conimbriga. O primeiro foi identificado recentemente e está em processo de investigação, parecendo apresentar uma configuração invulgar na tipologia destes monumentos. O segundo é o único que, até agora, está integralmente a descoberto, e seria em parte construído em madeira. O de Conimbriga ainda não pode ser visto, aguardando a sua escavação. O maior anfiteatro ibérico era o de Córdova com capacidade para 30 a 50 mil espectadores.

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Jorge Rodrigues

Construído no final do século I d.C. ao lado do fórum, o anfiteatro de Bobadela era de pequenas dimensões. Nas suas bancadas de madeira, não caberiam mais de mil espectadores.

Os últimos jogos que se conhecem ocorreram em 549, ilustrando a longevidade destes edifícios de espectáculo. Progressivamente, perderam a sua função, foram abandonados, espoliados, reaproveitados e serviram de alicerce a novas construções.

A célebre expressão “pão e circo” do poeta Juvenal (século I d.C.) pode ser adequadamente aplicada ao povo romano amante de jogos e de espectáculos. O jogo era comum na sociedade e as corridas, as lutas de gladiadores ou os jogos em tabuleiros de duodecima scripta (mais tarde, o jogo do gamão) eram actividades habituais para um cidadão.

A generalização dos jogos de tabuleiro foi impulsionada pelos exércitos que os disseminaram pelos territórios conquistados. Desconhecemos as regras e a própria designação, mas essas manifestações perduraram na nossa cultura.

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Humberto Rendeiro/ Arquivo MMC-MN/ DGPC

Peões, fichas de jogo e dados emergem regularmente em Conimbriga.

* Museu de Lisboa – Teatro Romano / EGEAC. 

Artigo publicado originalmente na Edição Especial "Hispânia Romana".