Há séculos que a China é o país mais populoso do mundo, mas a Índia passará para o topo, ao passo que a China iniciará um arriscado decréscimo. O que acontece quando uma nação ultrapassa o ponto de inflexão?

Começou o Outono e as ruas da aldeia de Ding Qingzi Vão adquirindo tons dourados.

Milhares de maçarocas de milho desfolhadas jazem no chão, em rectângulos ordenados diante das casas, enquanto os grãos secam ao sol. A colheita é um dos acontecimentos mais marcantes da vida rural na província de Anhui, uma constante que Ding, de 35 anos, conhece desde a infância. No entanto, já restam poucas destas tradições. Há casas abandonadas. A algazarra das crianças desvaneceu-se. E, durante vários anos, Ding teve de esforçar-se para encontrar mulher. Poucas jovens vivem na aldeia agora e menos ainda estão dispostas a casar-se com um soldador incapaz de comprar uma casa ou pagar o dote da mulher. “A minha família não é rica”, diz Ding.

De pé na eira, desfolhando as maçarocas, a tia de Ding queixa-se da triste sorte daqueles a que chama “os homens que sobram”. Na aldeia, vivem dezenas de solteirões com 30 a 50 anos, explica. São homens solitários como Ding, cujas esperanças de amor e família colidiram com uma força inexorável: a convulsão demográfica da China.

população na China

Chongqing, uma cidade em expansão no Sudoeste da China, registou um crescimento rápido durante décadas, mas manteve a tradição de comer sopa quente em espaços lotados ao ar livre. Calcula-se que a população desta área urbana seja superior a 17 milhões de habitantes. À medida que a região se desenvolveu, foram construídas linhas de metropolitano, acima e abaixo do solo, para aliviar os engarrafamentos.

Após décadas de uma taxa de natalidade em baixa acentuada, o país iniciou um declínio demográfico irreversível que se reflectirá em toda a China e no mundo nas próximas décadas. As repercussões já se fazem sentir em lugares como Anhui, onde a demanda de Ding em busca de mulher também foi prejudicada por um grave desequilíbrio de género. Na altura em que ele nasceu, nasciam 131 rapazes por cada 100 raparigas em Anhui – reflexo da tradicional preferência pelos filhos, exacerbada pela política de filho único de Pequim, agora abandonada. A China tem agora um excesso de cerca de trinta milhões de homens, mais de metade dos quais em idade casadoira.

Esta aritmética brutal ameaçava expulsar Ding do mercado matrimonial. Quando ele pediu em casamento a sua primeira namorada, os pais dela recusaram porque ele não tinha dinheiro para comprar uma casa nova. Os pais de Ding solicitaram créditos para comprar um carro e remodelar um apartamento numa cidade vizinha com o único objectivo de atrair uma esposa. O preço da noiva, o dote pago à família da mulher, seria de aproximadamente 27 mil euros. Ao longo dos anos, uma casamenteira só conseguiu convencer um punhado de mulheres a aceitarem um encontro às cegas com Ding.

Humilhado pelo fracasso, Ding começou a evitar reuniões de família. “Eram insuportáveis”, diz. Os parentes só falavam da sua situação de “ramo nu”, o termo local para o homem que não acrescenta frutos à árvore genealógica da família.

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Kong Niling, de 5 anos, visita o bisavô Lu Jinfu e a bisavó Yafen em Xangai. O casal teve três filhos e cada um teve um filho, cumprindo a política de filho único. Niling é o seu único bisneto.

Pode parecer um paradoxo falar em escassez demográfica num país com mais de 1.400 milhões de habitantes. Ao longo da história, a identidade e a força da China têm estado associados ao tamanho da sua população. A emergência do país como potência do século XXI tem sido alimentada pela sua aparentemente inesgotável disponibilidade de trabalhadores, centenas de milhões dos quais têm migrado para as cidades.

Quatro décadas de crescimento económico estonteante conferiram à China a aura de um colosso imparável, vitalizado por uma população equivalente a sete vezes a da Nigéria, 42 vezes a do Peru ou 140 vezes a de Portugal.

No entanto, a China atingiu um ponto de viragem. A população diminuiu no ano passado e marcou o início de um longo declínio que, segundo as previsões dos demógrafos, persistirá até final do século. A razão principal: a taxa de natalidade da China caiu para o seu nível mais baixo desde a fundação da República Popular, em 1949. Só nos últimos sete anos, o número de nascimentos diminuiu para quase metade, de 18 milhões em 2016 para 9,6 milhões em 2022. Segundo os peritos, mesmo que a taxa de natalidade estabilize, a população da China continuará a diminuir, 50% ou mais, até 2100, ano em que poderá corresponder a apenas metade da população da Índia e de dimensão comparável à da Nigéria.

A última vez que a população chinesa diminuiu foi durante a crise de fome cataclísmica do Grande Salto em Frente, a campanha de industrialização lançada por Mao Tsé-Tung no início da década de 1960, quando cerca de trinta milhões de pessoas morreram de fome. Desta vez, a queda não foi desencadeada pela fome, pela guerra, nem por qualquer catástrofe, mas por rápidas alterações sociais e económicas, pelo aumento dos custos associados ao casamento e pela restritiva política de filho único. O longo reinado da China como país mais populoso do mundo terminará este ano, quando a Índia a ultrapassar a grande velocidade, ocupando a primeira posição.

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Li Guangyu e Pixie Lim levam os cães a nadar num centro para animais de estimação, em Xangai. Li tem um cão e três gatos. Não quer a responsabilidade de cuidar de filhos, mas mima os seus animais. “Sou o pai deles”, afirma Li. “Sacrifico-me por eles e dedico-lhes o meu tempo.”

As consequências desta mudança ultrapassarão em muito um simbólico render da guarda. A recessão demográfica da China abrandará ou travará o progresso do país rumo à liderança económica mundial, mesmo que isso alivie as pressões sobre o ambiente do planeta. Como é possível que uma força de trabalho já em retracção sustente uma população idosa que, segundo as previsões, quase duplicará ao longo do próximo quarto de século? E como incentivará Pequim o aumento da natalidade, depois de ter passado três décadas e meia a suprimi-la? “É um declínio histórico sem precedentes”, afirma o sociólogo Wang Feng, da Universidade da Califórnia. “No final deste século, a China estará irreconhecível, em comparação com o que conhecemos da história da China e da sua posição no mundo.”

A China não é o único país à beira do precipício demográfico. A diminuição das taxas de natalidade e o aumento da esperança de vida têm sido marcas inquestionáveis das economias urbanas industrializadas, uma interacção que resultou numa inversão da pirâmide demográfica na Ásia Oriental e na Europa Ocidental. A China desce velozmente pelo caminho aberto pelos seus vizinhos envelhecidos, o Japão e a Coreia do Sul. Em 2021, a Coreia do Sul apresentava a mais baixa taxa de fertilidade do mundo: 0,81 filhos por mulher. A China não estava muito atrás, com 1,16 e isso não chega a metade da “taxa de substituição” necessária para a manutenção de uma população estável.

No entanto, a situação da China é singularmente assustadora, não só por força da sua dimensão e influência global, mas também devido a uma particularidade indesejável: será provavelmente o primeiro país a envelhecer antes de enriquecer. Apesar da sua emergência como segunda maior economia mundial, o Produto Interno Bruto (PIB) da China ainda é 40% inferior ao do Japão e 20% inferior ao dos EUA.

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No atelier de tempos livres que fundou na cidade de Shexian, na província de Anhui, Mei Shuyun ensina as crianças a escrever com caracteres chineses. Os pais de Jin Zixuan, de 8 anos, têm empregos que não lhes permitem tomar conta dela durante o dia.

A velocidade alucinante da transformação da China empurrou-a para o ponto de ruptura mais depressa do que outros países. A política de filho único também foi um factor de aceleração. Lançado em 1980 para travar o crescimento demográfico explosivo, o programa acabou por apressar o resultado oposto. Pequim abandonou esta política em 2016, mas a taxa de natalidade tem continuado a baixar vertiginosamente.

Num planeta cuja população duplicou nos últimos 50 anos, a questão pertinente para a China e outros países desenvolvidos poderá parecer estranha: como evitar um colapso demográfico? Pequim desdobra-se nos esforços em busca de respostas. O Presidente da República Chinesa, Xi Jinping, prometeu “melhorar a estratégia de desenvolvimento demográfico” e “implantar um sistema de políticas públicas destinado a aumentar as taxas de natalidade”. A solução para o problema da implosão demográfica exigirá mais do que medidas de engenharia social. Na China, é até possível que isso implique o reconhecimento de temas espinhosos como a igualdade de género, a imigração, os cuidados com os idosos e os limites da tecnologia de ponta. “Nenhum país foi capaz de resolver este problema até agora,” afirma o demógrafo Yong Cai, da Universidade da Carolina do Norte (UCN). “Este é um novo capítulo da espécie humana, ainda por escrever.”

Os pais de Shasha Yu, ambos agricultores, amaldiçoaram-na por ser rapariga. “Nunca deveria ter-te trazido ao mundo”, conta ela que terá ouvido da boca da mãe. A única boa recordação que You guarda da infância na província rural de Shandong é ter caído de uma carroça e acordado no hospital, vendo a mãe a abanar suavemente um leque para refrescá-la. Esse momento de ternura foi tão raro, conta, “que senti relutância em abrir os olhos”.

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Tian Siguo, de 80 anos, e a mulher, Hu Zhongzi, de 77, cultivam um terreno nos arredores de Chongqing. A troco de um apartamento num arranha-céus novo, milhões de agricultores como eles abandonaram a terra dos seus antepassados. O governo chinês está a desenvolver as terras agrícolas na periferia das cidades.

Apesar da infância triste, Yu fez tudo o que podia para conquistar a aprovação dos pais. Foi uma das primeiras pessoas da família a concluir um curso universitário e apanhou a onda do crescimento económico explosivo da China, conseguindo um emprego lucrativo na banca e liquidando as dívidas dos seus pais. Não foi suficiente.

Já quase com 30 anos, a mãe admoestou-a pela vergonha trazida à família por não se ter casado nem tido filhos. Sempre zelosa das suas obrigações, Yu encontrou um namorado adequado, um colega do banco com dinheiro e boas maneiras. “Só queria provar o meu valor aos meus pais”, diz. No entanto, devido à transformação económica da China, a sua atitude em relação ao casamento e aos filhos mudou, tal como mudou para milh��es de jovens mulheres chinesas (e muitos homens) com estudos e em mobilidade socioeconómica ascendente. “Quebrei o vínculo com os valores tradicionais dos meus pais”, diz Yu.

Mudou-se para Xangai, integrando um dos mais velozes processos de urbanização da história. Sessenta e cinco por cento dos chineses vivem actualmente em cidades, face a 20% em 1980.

Terminou o namoro, arrendou e remodelou um apartamento e agora vive sozinha. A ideia de se casar e ter filhos deixara de parecer inevitável e parecia-lhe agora uma barreira à liberdade. “Olho para o casamento dos meus pais e dos amigos e não vejo nada para invejar”, diz com secura.

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A violinista Song Xinxia ensina crianças em Xangai. Os pais com um só filho costumam pagar actividades extracurriculares para assegurarem o futuro do seu filho, ou filha, acrescentando esse custo às despesas de criação de um filho na China moderna.

Shasha Yu e Ding Qingzi encontram-se em extremos opostos do espectro socioeconómico da China. Juntos, porém, ajudam a perceber a razão pela qual as taxas de natalidade e de matrimónio da China caíram para os níveis mais baixos em décadas. Em 2021, a China registou 7,6 milhões de casamentos, uma queda de 43% relativamente ao pico de 2013 e o oitavo ano consecutivo de declínio. A mudança é parcialmente motivada pelo desequilíbrio de género e pelo aumento galopante dos custos do casamento, os factores que frustraram Ding. Segundo os cientistas sociais, reflecte também os níveis crescentes de formação, riqueza e urbanização, juntamente com a afirmação dos direitos e a autonomia das mulheres, como no caso de Yu. A pandemia de COVID-19 e os confinamentos sucessivos reduziram ainda mais os números.

Em finais de 2021, a União da Juventude Comunista da China fez um inquérito a pessoas com 18 a 26 anos e descobriu que 44% das mulheres e 25% dos homens não tinham a certeza se queriam casar-se. Essas percentagens revelaram-se mais elevadas entre as mulheres jovens como Yu, que vivem nas cidades modernas da China. Os números foram tão desconcertantes para a liderança que a Juventude Comunista assumiu o papel de Cupido, organizando jornadas para quebrar o gelo e “viagens no comboio do amor” para ajudar os camaradas solteiros a encontrarem cônjuge.

Yu quase se casou por duas vezes. Agora, aos 35 anos, convive sobretudo com outras mulheres de carreira como ela: fortes, independentes e solteiras. Foram necessários muitos anos de autoconhecimento para Yu superar a vergonha de não ser casada e adquirir, como diz, “uma ideia mais ampla das suas possibilidades na vida”. No entanto, os pais não aceitaram o facto de Yu e a sua irmã mais velha ainda não se terem casado. Em Shandong, os vizinhos culpabilizaram de tal maneira o casal que ambos se sentiram obrigados a abandonar a aldeia natal.

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Em Nanquim, a médica reformada Wan Liping (ao centro) ensaia, com outras mulheres idosas, para o desfile da Semana de Moda da Mãe Bonita. Estas mulheres lembram que tiveram poucas oportunidades para se exprimirem ou celebrarem a sua beleza ao crescerem numa China dominada pela tradição.

Para compreender a enorme velocidade da inversão populacional na China, vale a pena recuar à década de 1970, quando o mundo era dominado por um pânico malthusiano relativamente à iminente explosão demográfica. O sentimento de perigo era mais intenso na China, onde Mao exortara o povo durante anos a fio a produzir mais bebés para tornar a pátria forte. A nova administração chinesa, sob liderança de Deng Xiaoping, temeu que o rápido crescimento da população destruísse os recursos necessários ao crescimento económico e que isso conduzisse a outra crise de fome. “A China era tão pobre na década de 1970 que os líderes temeram não conseguir alimentar as massas. A obsessão era conduzir a economia a crescimentos de 7% ao ano”, diz Yong Cai. “A maneira mais rápida consistiu em reduzir o número de bocas a alimentar.”

A lógica que conduziu à experiência de engenharia social condicionou durante 36 anos as decisões íntimas das famílias chinesas. Os líderes chineses têm afirmado (sem provas claras) que a política de filho único impediu mais de 400 mil milhões de nascimentos, poupando o planeta a um enorme fardo ambiental e desencadeando o forte crescimento económico sustentado que arrancou da pobreza mais de 750 milhões de chineses, segundo o Banco Mundial. Entretanto, a legião de críticos desta política aponta para provas de que as suas restrições intrusivas resultaram em milhões de esterilizações forçadas, abortos selectivos em função do sexo e infanticídios e criaram uma população desequilibrada com um número excessivo de homens e de adultos idosos e um número insuficiente de jovens.

Os demógrafos fazem outra pergunta: a política de filho único terá sido necessária? A taxa de fertilidade da China já começara a baixar – de quase seis filhos por mulher em 1970 para menos de três em 1980, ano em que a política foi implementada. “Quase 75% do declínio da fertilidade na China aconteceu antes de a política do filho único ser posta em prática,” afirma Wang Feng.

Além disso, a explosão económica seria inevitável assim que a China se abrisse ao mundo. Impulsionado por uma jovem força de trabalho, um dividendo do surto demográfico dos tempos de Mao, o país transformou-se na fábrica do mundo numa única geração. Segundo Wang Feng, mesmo sem a política de filho único, o crescimento económico explosivo e o declínio demográfico teriam acontecido. A liderança chinesa, porém, insistiu em manter o programa depois de os sinais de alerta começarem a piscar. “A China atingiu taxas de fertilidade inferiores aos níveis de substituição no início da década de 1990,” explica o demógrafo. “E a situação continuou a piorar.”

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Numa demonstração eloquente da maneira como os papéis de género estão a mudar nas áreas urbanas, um grupo de mulheres aprecia a companhia de Liu Yujia, um acompanhante contratado para passar o serão num bar de karaoke de Xangai. Na China, as mulheres demonstram preferência pelo trabalho e pela vida social, em vez de se casarem e terem filhos.

Quando Pequim descartou a política de filho único, em 2016, houve expectativas de que os anseios reprimidos de uma família maior desencadeassem nova explosão do número de nascimentos. Tal não aconteceu. Após uma ligeira retoma, o número de nascimentos continuou a descer a pique. Os confinamentos da pandemia e o abrandamento económico só contribuíram para acelerar a queda, “acrescentando neve à geada” na expressão de Yong Cai. Em 2021, poucas semanas depois de os números do censo mais recente revelarem nova queda na taxa de natalidade, Pequim anunciou uma nova abordagem. “Chegou a Política de Três Filhos!”, segundo o cabeçalho de um jornal oficial. “Gostava de Ter um Filho?” Uma sondagem na Internet, conduzida pela agência noticiosa estatal Xinhua, não foi animadora. Dos primeiros 30.500 inquiridos, 28.000 declararam que “nunca pensariam” em ter três filhos.

A sondagem desapareceu rapidamente da página de Internet. “Se não há dinheiro suficiente para criar um ou dois filhos, como poderia haver para criar três?”, pergunta o demógrafo Xiujian Peng, da Universidade de Victória, na Austrália.

Scarlett Cai e o marido poderiam ser candidatos perfeitos para a próxima explosão de nascimentos. No seu elegante apartamento de Xangai, o jovem casal já conta com três dependentes – da variedade felina – enquanto vai debatendo a questão dos filhos. Ao longo dos anos, a mãe dela tem-na avisado sobre os casais com dois rendimentos e sem filhos que tentaram ter filhos demasiado tarde. Da última vez que a mãe lhe massacrou o juízo, Scarlett, agora com 36 anos, explodiu: “Não ando a viver só para parir um filho!”

Mesmo assim, o casal tem ponderado os benefícios e inconvenientes. O aumento vertiginoso dos custos constitui um obstáculo num ambiente competitivo em que os pais se sentem pressionados a gastar rios de dinheiro com os filhos. Uma estimativa de 2019 fixa em 71.500 euros o custo de criar um filho, sete vezes o PIB per capita da China. Em Xangai, o custo é duas vezes superior. As despesas não perturbam tanto Scarlett Cai como o investimento em tempo e energia e a invasão da privacidade. “Não consigo adaptar-me a um espaço de habitação com mais uma pessoa”, diz ela.

Durante muito tempo, ela encarou a decisão de não ter filhos como uma espécie de rebelião feminista. Enquanto crescia, viu muitas mulheres a casarem-se novas, deixarem os empregos e perderem a sua identidade devido aos filhos e às tarefas domésticas. “Desde miúda que vejo demasiadas mulheres invisíveis”, afirma. “Sempre me interroguei por que razão teria de ser assim” Leu Simone de Beauvoir, estudou filosofia e descobriu no marido um espírito gémeo. “Ao longo dos anos, o meu marido e eu chegámos a um consenso”, diz. “Os seres humanos não têm necessidade imperiosa de se reproduzirem.”

No Outono passado, porém, Scarlett sentiu de repente um vago desejo de ter um filho. Afectada pelos efeitos dos longos confinamentos nos idosos, sentiu-se reconfortada pela ideia de envelhecer junto de um filho ou de uma filha, “uma pessoa próxima de nós”. Essa sensação desapareceu em Dezembro, porém, quando a suspensão repentina da política de confinamento pelo governo desencadeou uma propagação veloz da COVID e instalou o caos nos hospitais. “Se tentarmos ter um bebé agora, o risco será demasiado elevado e a pressão demasiado forte”, afirma. “Para bem da criança, é melhor não a trazer a este mundo.”

Os reformados juntam-se todas as manhãs sob os plátanos, num parque de Xangai. Um círculo de mulheres de cabelo grisalho dança frequentemente em uníssono, ao som de uma canção de tons agudos que emana de uma coluna portátil. Outro grupo desloca-se silenciosamente através dos movimentos fluidos do tai chi.

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Devido aos custos de criar um filho, os recém-casados Shi Lin e Guo Huanhuan, residentes em Chong- qing, decidiram ter apenas um filho ou mesmo nenhum. “Quero dar o melhor ao meu filho, mas também quero ter uma vida própria e não ficar amarrada aos cuidados infantis”, diz Guo.

Certo dia, há pouco tempo, uma reformada de 69 anos sentou-se num banco de jardim observando os colegas reformados a terminarem os seus exercícios. A mulher, que revelou o apelido, Dong, mas não quis dizer o nome próprio, trabalhara duramente durante décadas numa fábrica de produtos plásticos. Foi uma das trabalhadoras que impulsionaram os primeiros anos da expansão industrial da China. Passa agora a maior parte do tempo a cuidar da neta: vai levá-la e buscá-la à escola e cozinha-lhe o jantar todos os dias. “Se eu não ajudar a minha filha a cuidar da criança, ela não conseguirá trabalhar”, diz Dong.

Dong representa a convergência de duas das mais perturbadoras tendências da China de hoje: a redução da força de trabalho e o crescimento explosivo da população idosa. Devido ao declínio da taxa de natalidade, há cada vez menos jovens trabalhadores para substituírem pessoas como Dong, que se reformou aos 50 anos. A força de trabalho da China começou a diminuir há cerca de uma década e, segundo as previsões, perderá quase 150 milhões de trabalhadores até 2040.

Entretanto, prevê-se que as fileiras dos idosos venham a engrossar em mais de 200 milhões: de 13% da população na actualidade para quase um terço em 2050. E não é apenas a bolha dos nascidos durante a época do surto demográfico que atinge a idade da reforma: os adultos mais velhos, como se vê pelos que passeiam no parque de Xangai, estão a ficar mais saudáveis e a viver mais tempo. A esperança de vida na China elevou-se de 55 anos em 1970 para cerca de 78 na actualidade. É um sinal de progresso, mas gera um dilema: como será a China capaz de sustentar uma sociedade em estado de “superenvelhecimento”?

As famílias chinesas, outrora muito extensas, reduzem-se agora a estruturas “4-2-1”: quatro avós, dois progenitores e um filho. Embora adequado à criação de uma criança e à acumulação de riqueza, este esquema transforma-se num fardo para os mais idosos, à medida que os membros da família envelhecem. Os filhos únicos da China, calculados em 150 milhões, criados por seis cuidadores, encontrar-se-ão de súbito na situação de serem responsáveis por cuidar de alguns deles ou de todos. Esta dinâmica arrasta a economia para o fundo, à medida que uma força de trabalho cada vez mais pequena se esforça por financiar os sistemas de pensões e os cuidados de saúde necessários a uma crescente população envelhecida.

Segundo uma estimativa da Academia Chinesa das Ciências Sociais, a pensão social para empregados urbanos poderá esgotar-se em 2035. Mesmo que as políticas públicas mudem, o défice demográfico “acarretará seguramente consequências económicas muito desfavoráveis”.

O que pode a China fazer? Considerando as forças demográficas já existentes, não será possível impedir uma quebra demográfica acentuada. Isso não é de todo mau para o planeta: pode contribuir para combater as alterações climáticas e para aliviar a pressão sobre o ambiente e as cidades lotadas da China. Mesmo assim, Pequim mostra-se desesperada por mitigar as repercussões económicas que impeçam a China de alcançar a meta da “prosperidade comum” proposta por Xi.

Uma solução simples é a imigração. No entanto, a China apresenta uma das mais baixas taxas de imigração do mundo. Tem menos de um milhão de habitantes nascidos no estrangeiro (0,06% da sua população) e não disponibiliza acessos viáveis à sua cidadania.

Pondo de parte a imigração, Pequim está a explorar três opções a que poderíamos chamar, bem ao estilo do Partido Comunista, os Três Aumentos: aumento da idade da reforma, aumento da produtividade e aumento da taxa de natalidade.

As idades de reforma obrigatórias na China – fixadas há mais de sete décadas, quando a esperança de vida era praticamente metade do que é hoje – são das mais baixas do mundo: 50 anos para as mulheres, excepto as que trabalham em escritórios, que se reformam aos 55 anos, e 60 anos para os homens. O aumento desse limite para os 65 anos seria suficiente para alterar o equilíbrio entre trabalhadores e reformados. “O aumento da idade da reforma é uma política pública eficaz a curto e médio prazo,” afirma Xiujian Peng. Só há um problema: é extremamente impopular. Quando Pequim ventilou esta ideia, em 2008, ela foi abandonada devido à resistência popular. Agora, os líderes chineses não vêem outra alternativa.

O aumento da produtividade pode ser ainda mais problemático. Para contrabalançar a diminuição da força de trabalho, Pequim apoia-se em várias décadas de investimento na educação para produzir trabalhadores de melhor qualidade, mas também na alta tecnologia. A China é o mercado que mais cresce no sector da robótica industrial e um dos líderes mundiais em inteligência artificial. Segundo previsões do governo, os robots poderão desempenhar as tarefas de 240 milhões de trabalhadores. Mas a alta tecnologia não constitui panaceia. “Os robots e a automatização permitirão mitigar o efeito negativo de uma população em declínio,” afirma Peng. “Mas não podem substituir os trabalhadores em todos os sectores.”

A tarefa mais árdua será aumentar a taxa de natalidade. A transformação da China “numa sociedade amiga da fertilidade”, como escreve o jornal estatal “Global Times”, seria uma solução de longo prazo. Os governos locais têm disponibilizado novos incentivos à política dos três filhos: benefícios fiscais, subsídios à habitação, licença de maternidade prolongada, expansão dos serviços de cuidados infantis e, até, em algumas províncias, bonificações em numerário. Até ao momento, nenhum destes incentivos parece ter resultado. A quebra da taxa de natalidade agravou-se ainda mais no ano passado. A pandemia e a recessão económica dificultaram a elaboração de planos para o futuro. Condicionadas pela política de filho único e confrontadas com a subida constante dos custos, as famílias parecem indisponíveis para terem mais do que um filho, se é que querem ter algum. “A pressão financeira é demasiada”, afirma Dong, a reformada que toma conta da sua neta. “É suficiente criar bem um filho.”

Ding Qingzi já tinha praticamente desistido de se casar quando recebeu um telefonema da sua casamenteira em finais de 2021. Ela descobrira uma mulher na província de Anhui que estava disposta a encontrar-se com ele. Havia apenas dois problemas: a mulher era divorciada e tinha uma filha de 6 anos. Ding ficou preocupado. Anos antes, uma mulher divorciada fingira sentir-se romanticamente atraída por ele, apenas para lhe extorquir alguns milhares de euros. Mesmo assim, depois dos contratempos vividos no mercado matrimonial durante tantos anos, que alternativa lhe restava?

No dia em que se conheceram, Ding – por norma tímido e taciturno – deu por si a conversar com prazer. A namorada mostrou abertura e gentileza, nas suas palavras, e pareceu-lhe sincera. Ele não demorou muito tempo a pedir-lhe para “assentarem”. “Decidi que este seria o meu último encontro às cegas”, conta. “Se não resultasse desta vez, eu poria de parte as ideias de casamento.” A mulher sentiu-se pressionada, mas a família entendeu que seria difícil para uma mãe divorciada descobrir um homem de confiança. Além disso, a família de Ding contraíra uma dívida para pagar a totalidade do dote da noiva.

Quando o casal se casou, no ano passado, Ding diz que não parava de pensar: “Resolvi finalmente esta situação tão importante na minha vida!” O homem introvertido fez um longo discurso durante o copo-de-água e os pais “choraram compulsivamente”. Desde então, a vida de Ding transformou-se. Ganhou peso e voltou a comparecer às reuniões de família, acompanhado pela mulher e pela enteada. E sente-se orgulhoso por já não ser um ramo nu, sujeito à má-língua e ao ridículo. Ding e a mulher preparam-se para ter um filho juntos – um minúsculo batimento de esperança num país onde faltam crianças.