Em 1972, foi retirada da baía de Angra do Heroísmo uma colubrina assinada Iohan Diaz e datada de 1545. Essa boca-de-fogo constitui um raro exemplar português deste tipo: é a mais antiga inequivocamente atribuída a este mestre fundidor, do qual são conhecidos apenas três outros exemplares em Portugal.

Com um calibre de 12 centímetros e um comprimento de cano de 4,3 metros, pertencia à classe das colubrinas, peças de artilharia com maior alcance no disparo, circunstância que, associada à forma de uma cobra (do termo latino colubra), justificou a designação. 

O seu achamento em contexto arqueológico subaquático, no alinhamento com o Forte de Santo António, sugere que fora aí posicionada para atingir navios inimigos muito antes de estes se aproximarem de terra.

O Museu de Angra do Heroísmo ( MAH) propôs esta peça para Património Móvel de Interesse Nacional. Recentemente três colubrinas castelhanas de bronze do século XVIII, encontradas no rio Arade (Algarve), receberam também esta classificação. 

DETALHES ESTÉTICOS E SIMBÓLICOS

Com elementos decorativos integrados na sua morfologia funcional, a peça aparenta uma coluna de ordem clássica, com o fuste canelado e o coronel da boca a lembrar um capitel.

Na raiz da bolada e no coronel da boca, apresenta decoração em baixo-relevo com folhas de acanto trilobadas. A bolada é decorada com alternância de festões e mascarões, evocando os ciclos anuais da natureza ou da guerra e de paz entre os povos.

A marca do mestre fundidor, inscrita numa cartela no falso segundo reforço, bem como a data e o troféu de armas visível na parte inferior da bolada, apresentam estilo idêntico ao observado noutras bocas-de-fogo do mesmo mestre.

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Fotografia de Paulo Henrique Silva / Museu de Angra do Heroísmo

O perfil de um guerreiro clássico em baixo-relevo no cascavel da peça.

Artigo publicado originalmente na edição nº 14 da revista História National Geographic.