Fotogaleria: 15 figuras rituais do Velho Continente

Transformam-se em ursos, veados e diabos. Evocam a morte, mas concedem fertilidade. Vivem nos tempos modernos, mas revivem tradições antigas no Carnaval e ao longo do ano.

Actualizado a

Um coração primitivo ainda bate na Europa. Bem fundo, debaixo do verniz fino da sofisticação, perduram rituais que se relacionam com colheitas e solstícios e com o medo da escuridão invernosa. Monstros espreitam neste coração sombrio, mas nele abrigam-se também promessas de um renascimento primaveril, de safras abundantes e de mulheres embalando bebés recém-nascidos. Na verdade, a Europa ainda não perdeu a sua ligação com os ritmos da natureza.

Essa ligação renova-se durante as festividades organizadas em todo o continente desde o início de Dezembro até à Páscoa. Estas comemorações coincidem com feriados cristãos, mas os rituais em si precedem muitas vezes o cristianismo. Os homens envergam indumentárias que lhes escondem o rosto e ocultam as suas formas. Percorrem ruas, onde os seus disfarces lhes permitem transpor a linha que separa o humano do animal, o real do espiritual, a civilização da barbárie, a morte do renascimento. Um homem “assume uma dupla personalidade”, diz António Carneiro, que se veste como um demoníaco careto durante o Carnaval em Podence, freguesia de Macedo de Cavaleiros. “Torna-se uma coisa misteriosa.”

O fotógrafo Charles Fréger partiu à procura da “Europa tribal” durante dois invernos, tendo viajado por 19 países. Os trajes que documentou variam de região para região e, até, de aldeia para aldeia.

Em Corlata, na Roménia, os homens vestem-se de veados, reconstituindo uma caçada com bailarinos. Na Áustria, Krampus, o homólogo selvagem de São Nicolau, amedronta as crianças mal-comportadas.

Por todo o lado, encontra-se o homem selvagem. Em França, chama-se Homme Sauvage; na Alemanha, Wilder Mann; na Polónia, Macidula é a respectiva versão grotesca. Meio homem, meio fera, o homem selvagem representa as relações complexas que as sociedades humanas, sobretudo no mundo rural, mantêm com a natureza.

O urso é o mais próximo homólogo do homem selvagem. Fera que caminha erecta, o urso também hiberna durante o Inverno. Esta morte simbólica e o ressurgimento após a hibernação são arautos da chegada da Primavera, com toda a sua abundância. Para os participantes nos festivais, segundo Charles Fréger, “transformar-se num urso é uma maneira de dar voz à fera e uma maneira de controlar a fera”.

Por tradição, os festivais representam igualmente um rito de passagem para os rapazes. Através do uso de um fato de urso, ou de homem selvagem, um rapaz “exibe o seu poder”, explica o fotógrafo. Chocalhos pesados pendem de muitas indumentárias, como símbolo de virilidade.

Resta saber se os europeus acreditam que estes rituais precisam de ser cumpridos. Será que acreditamos efectivamente no poder das indumentárias e dos rituais para expulsar o mal e pôr fim ao Inverno? “Todos sabem que não deviam acreditar nisso”, afirma Gerald Creed, estudioso das tradições de mascaradas na Bulgária. A vida contemporânea diz-nos que não devemos acreditar. Mas mantemo-nos abertos para a possibilidade de os costumes antigos terem raízes profundas.

b

Charles Fréger

1 / 15

República Checa: A Morte sai à rua

Quando São Nicolau visita as aldeias de Vysocina, vem acompanhado da personagem da Morte (Smrt), cuja gadanha captura os pecadores.

CF021662

Charles Fréger

2 / 15

Bulgária: Kukeri de Pernik

No dia de Ano Novo, os homens cobrem-se com pele de cabra para representar os Kukeri, que encarnam e simultaneamente expulsam os espíritos maus. No passado, roçavam-se nas mulheres com a justificação de que as tornariam férteis. 

CF026764

Charles Fréger

3 / 15

Portugal: Caretos de Lazarim

No Carnaval de Lazarim, os caretos desfilam com máscaras entalhadas à mão, dirigindo-se para uma fogueira onde as figuras da comadre e do compadre são queimadas.

CF031034

Charles Fréger

4 / 15

Roménia: Cerbul de Corlata

Os homens transformam-se em veados no dia de Ano Novo, reconstituindo uma caçada com bailarinos. Nesta encenação, os veados morrem e ressuscitam em cena. 

a

Charles Fréger

5 / 15

Áustria: Krampus, uma figura do folclore alpino

Segundo uma lenda popular da Europa Central e de Leste, o Krampus é um monstro meio-caprino-meio-demónio que castiga as crianças mal-comportadas na época natalícia. A partir do século XVII, foi integrado nas festividades de Inverno cristãs, tornando-se o companheiro de São Nicolau.

CF027617

Charles Fréger

6 / 15

Alemanha: Os Strohmann da mitologia rural

Os homens-espantalhos do Carnaval simbolizam luxúria e o Inverno. 

CF025141

Charles Fréger

7 / 15

Espanha: Os Zezengorri do País Basco

O touro vermelho-fogo é uma figura de mitologia basca que vive no mundo subterrâneo e o protege. Durante o Carnaval há quem o incorpore no mundo terreno. 

CF029147

Charles Fréger

8 / 15

Suíça: Sauvage

Meio homem, meio fera, em vários países europeus o homem selvagem representa as relações complexas que as sociedades humanas, sobretudo no mundo rural, mantêm com a natureza.

CF023563

Charles Fréger

9 / 15

Polónia: Macidulas

Um par de macidulas dá cor a um dia de Ano Novo. 

d

Charles Fréger

10 / 15

França: Os ursos dos Pirinéus

 

Nos festivais da Primavera, os homens dos Pirenéus desempenham o papel de ursos despertando da hibernação.

CF010974

Charles Fréger

11 / 15

Itália: Boes de Ottana

Um Boe carrega ao ombro um denso conjunto de sinos de vaca, chamados "sas sonazzas" ou "erru",  na Véspera de Santo António, na comuna de Ottana, na região de Sardenha. 

c

Charles Fréger

12 / 15

Alemanha: O Pelzmärtle de Bad Herrenalb

Na véspera de Natal, Pelzmärtle aparece na aldeia de Bad Herrenalb para ralhar com as crianças traquinas e bater-lhes com um pau. O fato de palha é cosido à roupa do indivíduo que o enverga.

CF025353

Charles Fréger

13 / 15

Espanha: Juantramposo de Navarra

O Juantramposo, uma figura traquina, aparece na Terça-Feira de Carnaval em Alsasua. A festa termina com uma dança de comemoração.

CF030106

Charles Fréger

14 / 15

França: Ursos de Vallespir

O Festival dos Ursos é uma festa carnavalesca que se realiza na região Haut-Vallespir dos Pirinéus Orientais e marca o fim da hibernação destes animais.

e

Charles Fréger

15 / 15

Áustria: O Homem Selvagem de Telfs

De cinco em cinco anos, os homens de Telfs colhem líquenes para criar o Homem Selvagem, figura do Carnaval local. Manda a tradição que eles comam um pedaço do líquen antes do início das festividades. Telfs fica situado no distrito de Innsbruck-Land, no estado do Tirol. 

Actualização de artigo publicado na National Geographic de Abril de 2013.