"Saber o que vestir": Braguilha (I)

Gizadas originalmente para esconder a roupa interior, as camisas ou partes do corpo não cobertas pelas calças, as braguilhas transformaram-se em peças que se queriam bem visíveis.

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D sebastiao 1562
© Palácio de Schönbrunn, Viena/ Imagem em DOMÍNIO PÚBLICO

Braguilha. Allonso Sanchez Coelho (?), Retrato de Dom Sebastião (?), c. 1562. 

O que vestimos, e como o vestimos, faz parte da nossa identidade individual e de grupo. Com efeito, a roupa, o cabelo, e as muito variadas maneiras de modificar o corpo de que dispomos hoje em dia, transmitem uma imagem que nos ajuda a sermos caracterizados e a sermos distinguidos. Não dispomos de uma segunda oportunidade para causar uma primeira impressão, e muito dela vem, precisamente, do vestuário e de como o compomos do corpo.

A moda europeia é actualmente uma indústria que mobiliza milhares de pessoas e milhões de euros, mas quando surgiu na transição do século XV para o XVI era um fenómeno de corte, feito para ser distintivo e emulado.

Distintivas, porque diferenciadas e dificilmente massificadas, as novas tendências eram imitadas pelos aristocratas, cortesãos e outros grupos sociais que podiam (ou tentavam) adquirir os mesmos materiais, a mesma artesania de excelência expressa nos muitos ofícios associados à moda (alfaiataria, costura, sapataria, joalharia, luvaria, chapelaria, etc., etc.), os mesmos metais e pedras preciosas que as famílias régias.

Ao longo dos cinco fins-de-semana de Dezembro, na série "Saber o que vestir", daremos conta de cinco peças-charneira do vestuário do período mencionado. Começamos pela... braguilha. 

UMA BREVE HISTÓRIA DA BRAGUILHA

Ainda hoje é uma componente fundamental do vestuário, concretamente, das calças. Normalmente aberta por fecho-éclair (ou zíper), e apesar de utilizada de diferentes maneiras, actualmente a braguilha é transversal aos géneros, mas começou por ser uma peça de uso exclusivo masculino.

Na realidade, contrariando esse propósito, a braguilha era uma peça autónoma e que foi inicialmente pensada para cobrir, para preencher o espaço que era visível e ficava a descoberto entre as bragas e as calças.

Nos períodos medieval e moderno, as calças eram semelhantes aos actuais collants de senhora, muito justas, moldando a forma da perna masculina (Figura 1).

Calças com abotoadoras
© Gallica / Bibliothèque nationale de France

Figura 1: Calças com abotoadoras. Missale et horae ad usum Fratrum Minorum, 1301-1400. Fonte: Gallica BnF

A braguilha foi inicialmente pensada para cobrir, para preencher o espaço que era visível e ficava a descoberto entre as bragas e as calças. 

Inicialmente formadas por duas peças que se vestiam uma de cada vez, evoluem no final da Idade Média para uma peça mais comprida que se une em torno da anca.

Não sendo cosidas, eram unidas e suspensas através de atilhos, laços, presilhas e outras formas de abotoadoras, noutras peças de roupa, como a camisa, que cobria o tronco (Figura 2).

Pontormo (Jacopo Carucci) (Italian, Florentine)   Portrait of a Halberdier (Francesco Guardi )   Google Art Project
© Getty Center, Los Angeles, Califórnia EUA / Imagem em domínio Público

Figura 2: Calças e braguilha.  Pontormo ou Francesco Guardi (?), Retrato de alabardeiro, 1529–1530. 

Quando esta forma de calça mais alta e presa nas ancas se tornou a mais usada e, à medida que a altura das camisas masculinas subia do tornozelo para as coxas, tornou-se necessário cobrir a abertura deixada entre as pernas das calças. A situação foi inicialmente resolvida através da utilização de pedaços de pano cortados com a forma triangular ou rectangular que eram suspensos às calças através de abotoadoras (Figura 3).

As formas mais rígidas eram obtidas através da moldagem de camadas sucessivas de algodões e linhos enrijecidos ou de couro.

1661px Pieter Bruegel
© Alte Pinakothek, Munique / Imagem em DOMÍNIO PÚBLICO

Figura 3: Braguilhas. Pieter Bruegel, o Velho, A terra do leite e do mel (Het Luilekkerland), 1567.

Todavia, esta peça de vestuário iria rapidamente autonomizar-se e evoluir formal e materialmente, transformando-se num símbolo de masculinidade e virilidade (Figura 4).

Outra teoria, da área da antropologia social, considera que a grande alteração na forma da braguilha – isto é, de um pedaço de pano para uma caixa estruturada – se deveu à necessidade de conter uma nova doença sexualmente transmissível, a sífilis, também conhecida como “varíola francesa”.

Esta doença, que se espalhou por toda a Europa a partir de final do século XV, era tida como um castigo imposto aos humanos pelo pecado da luxúria, e como os tratamentos implicavam o manuseio de uma grande variedade de ervas e minerais transformados em unguentos, xaropes e cataplasmas sujos, seria necessário proteger os materiais sumptuosos do vestuário de quaisquer gorduras ou secreções purulentas.

Esta interpretação propõe também que a contaminação da forma protuberante da braguilha tenha sido passada do vestuário usado pelos mercenários e soldados para a roupa masculina civil. Isto porque esses teriam desenvolvido um recipiente com função prática, que mantinha as camadas de ligaduras com os tratamentos para a sífilis no lugar. Estas impediam que a gordura ou outras manchas se espalhassem para os elegantes cantos cortados do vestuário e, ao mesmo tempo, protegiam os genitais de pancadas ou da fricções dos artefactos e armas pendurados no cinto que usavam comummente.

Alonso Sánchez Coello   Infant Don Carlos of Spain   Google Art Project
© Kunsthistorisches Museum, Viena / Imagem em DOMÍNIO PÚBLICO

Figura 4: Braguilha. Alonso Sánchez Coello, Retrato do príncipe D. Carlos de Áustria, 1564.

Apesar de usada por homens de todas as idades e classes sociais e de terem diferentes formas (Figura 5), as braguilhas mais decoradas e que recorriam a têxteis mais exuberantes – veludos, brocados, lã fina, damasco, bordados – eram usadas por membros das cortes régias e aristocráticas, e por homens que tinham meios financeiros para pagar os materiais e o fabrico das peças. Constituíam assim símbolos de poder e de exibição da riqueza, de acordo com o estatuto de cada um.

As braguilhas mais decoradas e que recorriam a têxteis mais exuberantes  eram usadas sobretudo por membros das cortes régias e aristocráticas.

A pintura europeia de retratos cortesãos masculinos regista diferentes formas, cores, texturas e dimensões das braguilhas ao longo do século XVI, sendo patente uma representação da virilidade que espelhava a expressão e conflitos pelo poder entre as diversas dinastias reinantes na Europa de quinhentos.

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© Pinacoteca di Brera, Milão / Imagem em Domínio Público.

Figura 5: Braguilha. Giovan Battista Moroni, Retrato de Antonio Navagero, 1565.

As braguilhas que originalmente tinham sido pensadas para esconder a roupa interior, as camisas ou partes do corpo não cobertas pelas calças, transformaram-se em peças que se queriam bem visíveis, utilizando tecidos suaves – e tanto mais caros e luxuosos quanto era rico ou poderoso o seu encomendador – no exterior e sendo cheias com palha, crina de cavalos e outros materiais que mantivessem a forma dada à peça (Figura 6).

A braguilha não escapou ao escárnio e à crítica, e o Cancioneiro Geral menciona-a várias vezes de forma jocosa.

As formas mais rígidas eram obtidas através da moldagem de camadas sucessivas de algodões e linhos enrijecidos (que eram também usados para forrar o vestuário que se queria mais resistente) ou de couro. A forma e a dimensão que atingiam formava uma caixa espaçosa, na qual os órgãos genitais podiam permanecer bem protegidos da fricção, dos choques ou das pancadas dos vários punhais, bolsas, ferramentas, pomanders ou espadas que os homens do renascimento penduravam nos seus cintos.

After Hans Holbein the Younger   Portrait of Henry VIII   Google Art Project
© Walker Art Gallery, Liverpool / Imagem em DOMÍNIO PÚBLICO Figura 6: Braguilha. Oficina de Hans Holbein, o Novo, Retrato de Henrique VIII, 1537-1547.

Figura 6: Braguilha. Oficina de Hans Holbein, o Novo, Retrato de Henrique VIII, 1537-1547.

Tendo ou não tido origem no vestuário dos mercenários, a importância representacional das braguilhas aristocráticas era tal que foram também moldadas em metal nas armaduras de aparato (Figura 7).

A literatura portuguesa dos séculos XV e XVI está cheia de referências ao vestuário, comummente citado para caraterizar e ridicularizar personagens. A braguilha não escapou ao escárnio e à crítica, e o Cancioneiro Geral menciona várias vezes a de um D. Guterres, troçado pela sua libertinagem. Mas há outra em tom mais heróico, a cantiga de Fernão da Silveira:

Cavalheyros de Castilha,

Vós qu’estays en Freyxinal,

Vynde ver h~ua barguilha

A Portugal,

Do filho do marichal!

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© Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque / Imagem em DOMÍNIO PÚBLICO

Figura 7: Braguilha em metal. Kunz Lochner, Armadura do imperador Fernando I (1503–1564), Nuremberga, 1549.

Glossário

Alabardeiro – armado de alabarda (arma antiga com haste longa e peça pontiaguda de metal na ponta). 

Bragas – roupa interior, ou como chamamos hoje, cuecas. 

Pomander – esta palavra deriva de uma corruptela da expressão francesa “pomme d’ambre” (maça de âmbar). Ou seja, uma bola em forma de maçã feita de substâncias odoríferas que era guardada numa caixa de pequenas dimensões, e que se usava ao pescoço ou preso ao cinto através de uma cadeia.

Referências bibliográficas:

Martins, Mário. O riso, o sorriso e a paródia na literatura portuguesa de quatrocentos. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa – Divisão de Publicações, 1987, p. 96.

Vicary, Grace Q., “Visual Art as Social Data: The Renaissance Codpiece”. Cultural Anthropology, vol. 4, n.º 1, 1989, pp. 3-25. 

* Este artigo foi escrito no âmbito de uma parceria de comunicação de Ciência estabelecida entre a National Geographic Portugal e o CHAM - Centro de Humanidades, relacionada com o projecto VESTE, e integra a série "Saber o que Vestir". A sua autora, Carla Alferes Pinto, é investigadora do CHAM – Centro de Humanidades NOVA FCSH.