No dia 22 de Novembro de 1963, na Dealey Plaza, em Dallas, o cortejo do presidente John F. Kennedy – que visitava a cidade em pré-campanha para as eleições presidenciais do ano seguinte – foi atingido por várias balas disparadas em redor. Uma delas, fatal, atingiu Kennedy na cabeça. Mais tarde, uma autópsia revelou que pelo menos uma outra se alojara no seu corpo, onde provocara uma série de ferimentos.

Uma comissão de investigação liderada pelo antigo juiz do Supremo Tribunal Earl Warren concluiu que o responsável fora Lee Harvey Oswald, um antigo fuzileiro naval, que matara por motivos desconhecidos. Oswald, que foi apanhado cerca de 80 minutos depois do crime, morreria dois dias depois, um ano antes de serem publicadas as conclusões da Comissão Warren, sob mira de Jack Ruby. Ruby, alguém que durante anos fora homem de mão de várias famílias ligadas ao crime organizado, justificou-se: pretendia poupar Jackie Kennedy à humilhação de um julgamento público. A Comissão Warren decidiu que acreditava nesta explicação e que Ruby de certeza não tinha ligações criminosas. 

É de lembrar que depois de 1964, ano da publicação das conclusões, um novo painel criado pelo Senado dos EUA, liderado por Frank Church – cujo apelido o baptiza – fez uma revisão das provas existentes sobre os eventos de Dealey Plaza, descobrindo até novos dados, e retirou uma conclusão muito diferente: ao invés de um assassino solitário, houvera no mínimo dois. Já neste Verão, Paul Landis, um agente dos serviços secretos americanos que testemunhou o crime, veio contrariar a versão oficial numa entrevista ao New York Times

Sessenta anos depois de um assassinato que chocou o mundo, 65% dos americanos adultos acreditam que Oswald não agiu sozinho, segundo uma recente sondagem levada a cabo pela empresa de estudos de opinião Gallup Poll. 

O Oswald do México

Uma reportagem da Associated Press, publicada após o assassinato, marcou o compasso de imediato: J. Edgar Hoover, director do FBI, anunciava que, com a informação disponível, Oswald fora de certeza o autor único do crime. Seria o que comunicaria ao novo presidente Lyndon Johnson. Qual o motivo da certeza? Ora, havia nesse momento uma pista a ser seguida no México que indicava, com toda a certeza, esta conclusão.

A 1 de Outubro de 1963, entrara na embaixada da União Soviética do México um cidadão dos EUA, identificando-se como Lee Harvey Oswald, falando um russo desconjuntado. Pediu para falar com o cônsul Valery Kostikov, alguém referenciado pela autoridades americanas como pertencente ao programa de Sabotagem e Assassinatos do KGB, o 13º Departamento. O facto de Oswald pedir para falar com ele era significativo. Afinal, durante quase dois anos, o alegado assassino renunciou à sua cidadania americana e emigrou para a União Soviética, onde viveu quase dois anos, trabalhando e constituindo família. Antes da morte de Kennedy, o FBI interceptara um telegrama, assinado “Lee. H. Oswald” que mencionava encontros com Kostin (um código para Kostikov) e que caso tivesse conseguido viajar até Cuba a partir do México, como planeara, “teria tempo para resolver o negócio comum”.

A referência vaga torna-se mais objectiva com o enquadramento: o negócio só podia ser o assassinato. No entanto, se lermos a descrição completa do homem que se apresentou como Oswald no México, algo não bate certo. Lee Harvey Oswald era um jovem de 23 anos, magro, com o cabelo praticamente todo. O seu eu mexicano aparentava ter 32 de idade, uma compleição atlética, calvície e entradas evidentes. 

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Um "mugshot" de Lee Harvey Oswald, considerado oficialmente o único responsável pela morte de Jonh F. Kennedy. O antigo fuzileiro naval, que chegou a viver na União Soviética, morreu um dia depois desta sessão fotográfica.

A Cadeia de provas desmorona-se

Embora a narrativa oficial seja a do assassino solitário, nos dias seguintes ao atentado de Dallas circulava entre os jornais – motivado por informações vindas principalmente da CIA e do FBI – que Oswald estaria ao serviço de uma cabala comunista internacional. O certo é que, em plena Guerra Fria, o governo de Lyndon Johnson amenizou esse discurso e a Comissão Warren escolheu uma versão mais centrada em Oswald, a bem da segurança nacional. Mesmo os memorandos da CIA nos dias seguintes a 22 de Novembro tornam-se mais cautelosos na linguagem utilizada para falar da visita mexicana de Oswald: “O guarda da embaixada disse que Oswald visitou…”, deixando uma clara margem para encaixar explicações como a de um impostor. As gravações tirariam qualquer dúvida. Segundo a CIA, foram destruídas. Quando? Os relatos são contraditórios. O agente David Phillips disse, já depois de reformado, que tal acontecera antes do assassinato; mas as gravações são referidas em 23 de Novembro de 1963 num memorando enviado do FBI aos Serviços Secretos. Richard Helms, na altura o director da CIA, quando falou à Comissão Warren, diz por um lado que uma fotografia de um suposto Oswald na posse da CIA datava dois dias depois de este supostamente ter saído da Cidade do México. Helms não revela, porém, que o vídeo da embaixada dos EUA, o que filmou o suposto Oswald, tinha a data correcta da visita original.

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Lee Harvey Oswald foi baleado fatalmente por Jack Ruby, aquando da sua transferência pela polícia para a prisão do condado de Dallas, a 24 de Novembro de 1963.

Portanto, neste momento, para não perderem a conta, temos 3 Oswalds. Um real, outro impostor e um terceiro que não se sabe muito de onde veio. O Comité Church que mais tarde viria a questionar as conclusões originais não toma em conta outras provas, como as declarações do cônsul cubano na Cidade do México, que descreve o impostor com clareza e recusa a identificá-lo com o Oswald verdadeiro. No entanto, o próprio Comité acha estranho que, segundo o registo, o Oswald real tenha feito variadíssimas visitas às embaixadas soviética e cubana e a CIA não apresente qualquer foto das suas vigilâncias; no entanto, tem mais de seis fotografias do impostor que quer apresentar como verdadeiro.

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Passeio de automóvel de John F. Kennedy por Cork, Irlanda, em 28 de Junho de 1963. Morreria num cortejo semelhante, num descapotável, cerca de cinco meses depois. 

O FBI e Joseph Milteer

A 10 de Novembro de 1963, a Polícia de Miami forneceu à organização federal uma gravação onde um supremacista branco chamado Joseph Milteer revelava, numa reunião gravada por um informador, que se preparava algo de sério contra Kennedy. Fala de um plano envolvendo homens em prédios altos com espingardas a ser preparado nesse momento. A reunião ocorreu nos primeiros dias desse mês. Milteer não era um maluco solitário: pertencia a bem organizados grupos racistas do Sul e fora por esse motivo que a Polícia o seguira até à reunião.

Numa outra gravação após o assassinato, Milteer rejubila com o resultado e assegura de novo que não fez uma previsão que se revelou acertada. Simplesmente contou algo que sabia. O que fez com o FBI? Primeiro, enviou ordens para desacreditar a fonte da gravação, um informador que a Polícia de Miami considerou inatacável. Depois, tentou forçar a conclusão de que Milteer mentia. O certo é que nunca fez chegar quer a gravação, quer o relatório do informador à Comissão Warren

Lee Oswald é apresentado no imediato de 22 de Novembro de 1963 como um homem solitário, com problemas psiquiátricos, de forma a tornar mais aceitável a ideia deste como assassino único

Este artigo baseia-se, entre outras fontes assinaladas, nos livros Deep politics and the death of JFK e Dallas 63, ambos do académico canadiano Peter Dale Scott.