Autocolantes, bonecos de peluche e modelos realistas, livros infantis, filmes de animação para crianças ou de acção para os adultos – os dinossauros, um grupo de animais há muito extintos, afirmaram-se na cultura popular como nenhum outro. A imensa popularidade destes animais emergiu há cerca de dois séculos quando as primeiras descobertas de ossos desproporcionais se tornaram um negócio de entretenimento que disputava a atenção com aquilo que na época eram atracções de circo. Anos mais tarde, o britânico Richard Owen cunhou a palavra “dinossauros” para designar estas fantásticas criaturas. E, desde então, foram descobertos fósseis de dinossauros em todos os continentes, incluindo a Antárctida. Portugal não foi excepção.

Atribui-se ao comerciante britânico que esteve em Portugal na década de 1830, Daniel Sharpe, a semente que faria crescer a paleontologia portuguesa e, desde então, tiveram lugar muitas descobertas relevantes no contexto internacional. Uma região do país destacou-se pela quantidade e importância das descobertas ali realizadas – o Oeste. Foi aqui que nasceu o paleontólogo, especializado em histologia, Bruno Camilo.

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Filipe Patrocínio

O paleontólogo Bruno Camilo segura a mandíbula de um pequeno dinossauro herbívoro proveniente da armadilha natural.

Quando lhe perguntam se na infância era fascinado por dinossauros, a resposta não é a óbvia. Bruno Camilo recorda com saudade os passeios que dava com apenas seis anos na companhia do avô nas arribas do Porto Batel em busca de fósseis, mas, mais do que as figuras quase mitológicas dos dinossauros, lembra-se sobretudo de se intrigar com as transformações do planeta capazes de justificar a presença de espécies marinhas no alto das falésias. Passaram-se muitos anos, mas o investigador não parou de procurar respostas.

Em 2021, durante a escavação de uma vértebra de saurópode e de uma tartaruga jurássica numa falésia perto de Torres Vedras, a equipa fez uma pausa para repor energias e esticar as pernas. A paleontóloga Graça Ramalheiro, que participava na campanha, afastou-se alguns metros e abeirou-se da falésia. Deparou-se então com aquilo que pareciam ser ossos à superfície. Nos dias seguintes, toda a equipa intuiu que aquela seria uma descoberta ímpar e que exigiria anos de trabalho até ser plenamente descodificada. O insuspeito vestígio, numa área onde abundam fósseis, revelou-se afinal um complexo emaranhado de ossos que os especialistas designam por bone bed. Uma armadilha natural do Jurássico. Um novelo emaranhado de vestígios de diversas criaturas.

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Filipe Patrocínio

O bloco extraído em 2021 foi objecto de tratamento quase cirúrgico. Este segmento continha ossos de pequenos dinossauros parcialmente articulados, uma raridade preservada por mais de cem milhões de anos.

Bruno Camilo recorda a surpresa de encontrar uma enorme abundância de pequenos ossos “num tipo de sedimentos onde quase nunca se encontram ossos porque correspondem a curvas de rios, muitas vezes dominadas pela vegetação”. Os vestígios das raízes são, aliás, visíveis e deixaram danos nos ossos fossilizados, mas mesmo assim chegou uma catadupa de informação até nós… quase 150 milhões de anos mais tarde.

A campanha do Verão de 2021 ainda era marcada pelo uso das máscaras a que a pandemia obrigava, mas ao ar livre, nos três meses da escavação, pouco se falava de vírus. Com entusiasmo, a equipa concluiu a operação de remoção dos ossos do saurópode e da tartaruga e lançou-se para a nova campanha.

No átrio de uma antiga escola primária convertido em laboratório de campo da Sociedade de História Natural, uma associação científica baseada em Torres Vedras, encontra-se o modelo em tamanho real do crânio de um Triceratops impresso em 3D. Espalhadas pelas mesas, estão centenas de fósseis de dinossauros e de outros animais jurássicos.  Ao fundo de uma das salas, está o bloco de terra acondicionado por gazes e gesso, do tamanho de uma máquina de lavar. É um pequeno tesouro do passado.

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Filipe Patrocínio

O paleontólogo Vitor Carvalho desenha e referencia todos os ossos que vão sendo expostos pelos preparadores Hilde Desmet e Ignace Nerinckx no laboratório da Sociedade de História Natural.

A dimensão e a abundância de ossos, a proximidade da superfície e a localização num terreno acessível a qualquer transeunte forçaram o transporte do bloco para o laboratório para aqui ser laboriosamente escavado e analisado. Como o vazio legal continua a permitir que coleccionadores e comerciantes de fósseis recolham sem escrúpulos materiais paleontológicos no campo, a equipa entendeu que o achado exigia cuidados de segurança e sobretudo muita cautela no tratamento laboratorial.

Com uma agulha em punho, ao longo de um ano, os paleontólogos escavaram os primeiros 15 centímetros do bloco, recuperando 178 pequenos ossos. Apesar de o bloco ter sido delimitado para abranger toda a área da jazida quando foi retirado do campo, por baixo ainda se encontraram mais 78 ossos. Numa primeira análise, os ossos pareciam pertencer a um pequeno dinossauro ornitópode do grupo dos driossaurídeos. Uma análise mais minuciosa sugere que pertencem a um grupo de ornitópodes menos primitivo, provavelmente desconhecidos para a ciência.

Uma das singularidades desta descoberta é o facto de os ossos já identificados pertencerem a pelo menos três indivíduos distintos e estes, por sua vez, parecerem surpreendentemente pequenos. Seriam bípedes e herbívoros, com cerca de 60 centímetros de altura e um 1,80 metros de comprimento. E o bloco reservava outras surpresas.

Para a maioria dos leigos, a história dos mamíferos começa após o catastrófico colapso do asteróide que atingiu a terra há 66 milhões de anos e que conduziu à extinção de grande parte da vida na Terra e da esmagadora maioria dos dinossauros. No entanto, como explica Bruno Camilo, “os mamíferos coexistiram durante cerca de 160 milhões de anos com os dinossauros”. Apesar disso, são raros os contextos que preservam evidências desta estreita convivência cronológica. Nesta armadilha natural de Torres Vedras, porém, ela está bem documentada.

Neste pequeno bloco, além dos fósseis de três dinossauros que por agora se presumem ser da mesma espécie, surgiram vestígios de três tipos de mamíferos distintos. Um deles deverá pertencer a um género ainda por descrever. Foram ainda identificados um crocodilomorfo, mandíbulas e maxilas de diminutos répteis e o dente de um dinossauro aviano, muito semelhante a Archaeopteryx. Bruno Camilo explica que “estes animais partilhavam o mesmo habitat e foram apanhados numa armadilha natural”.  A configuração da armadilha é difícil de intuir a partir do que foi escavado até ao momento. Os esqueletos estão parcialmente desarticulados, mas a ausência de animais exclusivamente aquáticos não sugere um arrasto torrencial. O paleontólogo considera mais provável que um pego de uma zona alagadiça se tenha tornado de tal forma viscoso que aprisionasse irreversivelmente os animais que o tentassem atravessar.  A análise da microgranolometria de lâminas delgadas poderá dar mais pistas sobre o tipo de sedimento fatal.

A excepcionalidade desta descoberta não se esgota na diversidade de espécies encontradas num contexto relativamente restrito. “Estes dinossauros foram os últimos do Jurássico Superior”, diz Bruno Camilo. “Não só os esqueletos deles estão invulgarmente completos, como a presença de diferentes indivíduos fornece pistas que transcendem o indivíduo e permitem retirar ilações ao nível populacional.” 

A expectativa é que esta cápsula possa ajudar a reconstruir a ecologia das espécies. Seriam adultos em migração ou juvenis nas imediações de uma colónia? O bloco talvez não permita respostas para todas as perguntas, mas guarda decerto surpresas. A história recente da paleontologia na Região Oeste tem demonstrado que por vezes se dá um pontapé numa pedra e surge uma descoberta que ajuda a escrever mais um capítulo da história da vida na Terra.

Em Novembro de 2003, a edição portuguesa da National Geographic deu conta da descoberta na Praia de Cambelas de um dinossauro com marcas de predação, um achado notável e ainda hoje único na paleontologia portuguesa. A equipa da Sociedade de História Natural aposta agora que este bloco do Titoniano, um andar do Jurássico, contém mais peças de um puzzle muito antigo, que se vão encaixando gradualmente. E outro elemento encontra-se a curta distância do local onde foi retirado o bloco, embora não possa ser estudado da mesma forma.

Na década de 1990, um britânico com casa de férias na região passeava o cão na praia e descobriu pegadas de dinossauros numa laje exposta na preia-mar.  Na mesma altura, também José Joaquim, um marceneiro aficionado pela paleontologia, deu a conhecer à Sociedade de História Natural este local. Nos 25 anos que passaram desde a sua descoberta o nível das águas do Atlântico continuou a subir e os dois trilhos de carnívoros, as pegadas de dinossauros ornitópodes de pequenas dimensões e de saurópodes só são agora visíveis quando as marés baixam. Estes dinossauros caminharam no solo lamacento um par de milhões de anos antes dos que ficaram aprisionados na armadilha natural cem metros mais acima.

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Fotografia de Filipe Patrocínio / Tratamento digital e identificação dos trilhos: Sociedade de História Natural

Um segmento da grande plataforma na zona intertidal, onde os investigadores estão a estudar cerca de  uma centena e meia de pegadas isoladas e trilhos de dinossauros terópodes (a castanho), gigantescos saurópodes (a azul), ornitópodes (a violeta) e possíveis dinossauros couraçados.

À nossa escala, foi um intervalo incomensurável; à escala geológica, foi um instante, pois estes vizinhos partilharam o mesmo andar geológico. Daqui a alguns anos, é previsível que seja necessário usar uma máscara de mergulho para ver as pegadas e, nessa altura, sem a constante força erosiva na zona de rebentação, estas talvez desapareçam sob o coberto de algas e crustáceos. O momento para as estudar é agora e, nas últimas semanas de 2023, a equipa tem realizado voos de drone com LiDAR (com o apoio da Universidade Nova de Lisboa e da empresa especializada em levantamentos por drone Pixair) para mapear com o maior pormenor possível os trilhos destes animais que percorreram um ecossistema lagunar quando os continentes já estavam a divergir.

De volta ao bloco, o objectivo passa por fraccioná-lo em porções mais pequenas sem danificar estruturas sensíveis e realizando mais tarde imagens por tomografia que permitam reter a posição de cada estrutura numa matriz tridimensional. A alternativa seria ir escavando e individualizando todos os ossos, sacrificando a estimativa das suas posições relativas. Esta descoberta inesperada insinuou-se inevitavelmente na tese de doutoramento de Bruno Camilo.

O projecto sobre histologia óssea na Universidade de Bona já corria e tornou-se irrecusável incluir estes espécimes ainda por identificar. Nesta área desafiante, a histologia de fósseis obriga a que sejam realizados cortes destrutivos que a maioria dos museus recusa, mas Bruno Camilo (que já conduzira o mestrado nesta área com ornitópodes) está convicto de que a abundância de ossos retidos nesta armadilha natural permite contornar uma das principais limitações da paleo-histologia: “A análise de ossos isolados coloca problemas de representatividade, mas, com muitos ossos de vários indivíduos da mesma espécie, presumivelmente contemporâneos, será possível recolher pistas sobre o crescimento, a evolução, a fisiologia e o ambiente em que viviam esses animais”, diz. 

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Filipe Patrocínio

O pé direito e a cauda do dinossauro carnívoro Lusovenator, escavado em Cambelas, cuja descoberta foi relatada na edição de Novembro de 2003 da National Geographic.

O Sol começa a baixar no horizonte e a maré já permite vislumbrar as pegadas na laje junto da praia. A brisa de noroeste colide com a falésia e produz uma corrente orográfica que as gaivotas aproveitam, deslizando sem bater as asas. Subitamente, desaparecem e vê-se a silhueta furtiva de dois falcões-peregrinos. Durante muito tempo, pensámos que os dinossauros se tinham extinguido e usámo-los para designar metaforicamente pessoas que vivem num tempo passado, mas, nas últimas décadas, percebemos que as aves são os seus descendentes directos e que estão bem adaptadas ao mundo em que vivemos.

Lá em baixo, as pegadas são lambidas pela refrega da maré e, à nossa volta, é impossível não imaginar que os depósitos de sedimentos que constituem as falésias torrienses guardam ainda incontáveis segredos. A descoberta desta armadilha jurássica ainda tem muito para revelar.

Artigo publicado originalmente na edição de Dezembro de 2023 da revista National Geographic.