Sendo uma das maiores cidades dos EUA, Boston tem na sua história um grande número de tragédias: o desastre de eléctrico de Summer Bridge em 1916, que durante décadas foi o mais mortífero da cidade; os atentados na maratona da cidade em 2013; e a longa seca que os Red Sox, a equipa de basebol, suportou até ganhar de novo a World Series. No entanto, nenhum outro desastre de Boston é mais inusitado do que a chamada "Grande Inundação de Melaço" que faz hoje 105 anos. Sim, em tempos houve uma cidade inundada de uma substância viscosa, normalmente obtida a partir de açúcar refinado.

Antecedentes de um desastre

Em 1919, Boston era um dos grandes centros económicos da América do Norte e, nos inícios do século XX, aportavam aí barcos de todas as regiões do globo. A cidade portuária fornecia o etanol que se utilizava na confecção de bebidas alcoólicas ou no fabrico de munições.

Historicamente, a capital do estado de Massachusetts fez parte do comércio triangular que desde o século XVII fazia circular açúcar e escravos entre Europa, América e África. Mesmo com o fim da escravatura, Boston continuou a receber o açúcar, chegado das Caraíbas, mantendo-se como centro de produção de rum.

A Purity Distillery, produtora de álcool, construíra uma fábrica mesmo junto ao porto de Boston, onde erguera um tanque de quinze metros de altura e vinte e sete metros de diâmetro, com capacidade de guardar 8.700 metros cúbicos de melaço. A questão é que, numa lógica de poupança de custos, o encarregado de desenhar e dirigir a obra não foi um engenheiro, mas sim… o contabilista da empresa. O tanque começou a verter praticamente desde o primeiro dia de funcionamento e o mais preocupante é que fora instalado junto a uma área residencial.

Janeiro fora um mês de estranhas temperaturas em Boston, que habitualmente se cobre de neve durante o Inverno. A relativa calidez dos quatro graus desse dia contrastava com os gélidos números negativos que eram habituais nos termómetros. O tanque da Purity rebentava pelas costuras, recheado de um carregamento de melaço que fora transferido no dia anterior a partir de um barco. O produto fora aquecido, de maneira a facilitar a sua transição, e acumulara-se sobre melaço mais antigo, frio, que se encontrava no depósito. Com tantas variações de temperatura dentro e fora do tanque, as leis da física tomaram o seu lugar e deu-se possivelmente uma expansão térmica do melaço mais antigo.

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DOMÍNIO PÚBLICO

A tragédia foi alvo de destaque no The Boston Post do dia seguinte (16 de Janeiro de 1919). 

UMA Grande Onda 

Ao meio-dia e meia, uma violenta explosão fez-se ouvir em toda a cidade: era o rebentamento do tanque, soltando o melaço que galgava a sua carcaça e avançando sobre as ruas em redor da fábrica a uma velocidade superior a sessenta quilómetros hora numa onda que capturou tudo o que encontrou à frente.

Testemunhas descreveram mais tarde um tremor tremendo que agitou o chão, um rugido súbito e cavernoso, que se expandiu num rumor assustador. Os rebites saltaram do metal como balas saídas de uma arma. A onda de energia decorrente da explosão cravou painéis de metal nas paredes da estação ferroviária de Atlantic Avenue e alterou a direcção do percurso de um eléctrico que nem sequer se encontrava no caminho da onda de melaço.

O cenário tornou-se catastrófico: uma vaga de um líquido espesso, amarelo-torrado, quarenta vezes mais denso do que a água, deslizando nas ruas de Boston. Vários transeuntes foram engolidos, outros arrastados, cabeça à tona da onda amarela, o estilhaços e escombros atirados contra edifícios e pessoas. Camiões foram arrastados durante quilómetros e edifícios arrancados dos alicerces, principalmente aqueles feitos de madeira.

Quando o melaço parou, a temperatura invernal, ainda que atípica, rapidamente o solidificou e aqueles que ficaram presos no seu rasto ou tiveram grande dificuldade em libertar-se ou ficaram simplesmente imobilizados na torrente. Isto tornou bastante difícil a tarefa de salvá-las. 150 indivíduos ficaram feridos e 21 morreram, sem contar com os animais, cavalos nomeadamente, que também pereceram neste desastre.

Um cheiro intenso, adocicado, dominante de melaço instalou-se na zona portuária e o vento espalhou-o para o resto da cidade. Calcula-se actualmente que os prejuízos totais tenham ficado pelos 100 milhões de dólares.

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DOMÍNIO PÚBLICO

A inundação de melaço afectou várias infraestruturas da cidade, como por exemplo o caminho-de-ferro elevado de Boston.

As consequências: salvamentos e julgamentos

Rapidamente acorreram à cena as operações de salvamento. A primeira foi espontânea, envolvendo alguns cadetes da Marinha que vieram do USS Nantuckett, por acaso aportado nesse dia em Boston. Dividiram-se em dois grupos: um entrou no melaço para retirar sobreviventes, outro teve como função manter os curiosos distantes para não atrapalharem as acções de auxílio. Polícia, bombeiros e pessoal médico juntaram-se algumas horas depois e trabalharam arduamente.

A espessura do melaço tornou as operações longas e árduas. Organizaram-se turnos e, dia e noite, foram retirados todos os sobreviventes da sua doce prisão. Quatro dias ininterruptos de trabalho não permitiram, no entanto, recuperar os corpos daqueles que morreram. Alguns estavam tão enterrados no melaço que se tornaram irreconhecíveis. Outros simplesmente foram arrastados até ao porto de Boston e depositados no mar, que os devolveria à costa quatro meses depois.

As consequências para a Purity foram desastrosas: não só tiveram o prejuízo material, como foram alvo de um processo civil movido por 119 dos sobreviventes, um dos primeiros do género em todos os Estados Unidos da América. Num período em que bandos anarquistas agitavam a política e as ruas, a empresa culpou uma suposta bomba desses grupos como a responsável pela explosão. O tribunal, no entanto, depois de ouvir especialistas, não foi na conversa, considerando que o tanque estava construído defeituosamente e que a responsabilidade recaía sobre a Purity.

Além dos problemas de construção do tanque – inclusive a utilização de aço deficiente e de uma qualidade abaixo do recomendável –, com a impermeabilidade posta em causa desde o seu início, a empresa foi acusada de ignorar sinais óbvios de pressão e tensão, como barulhos graves sempre que o tanque ficava cheio. A Purity estava a tentar produzir álcool em excesso, perante o espectro da lei da Proibição de álcool que surgia no horizonte, e como tal ignorou testes básicos de segurança. Numa incúria ainda maior, chegou até a pintar de castanho o diâmetro do tanque, de forma a disfarçar o melaço que escorria elas visíveis frinchas. As crianças que viviam junto à fábrica aproveitavam até este defeito para recolher, às escondidas, o doce melaço para se banquetearem em casa.

Três anos depois de o julgamento começar, estabeleceu uma indemnização de 10,6 milhões de dólares (em valores actuais) a dividir pelas vítimas, calhando 118 mil dólares a cada uma. De certa forma, a responsabilidade empresarial aos olhos da lei nasceu nesse dia. Isto levou a que Boston adoptasse uma lei que obrigava à contratação de um engenheiro ou arquitecto em qualquer construção feita por entidades privadas. 

A limpeza do local demorou quase um ano. A zona portuária, a mais afectada da cidade, cobriu-se de água salgada e areia, tentando absorver o melaço. Curiosamente, as zonas que demoraram mais na retirada do viscoso elemento foram as dos subúrbios de Boston. Na verdade, descobriu-se que havia algumas áreas previamente ignoradas que tinham sido afectadas e isso obrigou a uma segunda fase de limpezas. Estas áreas incluíam, por exemplo, as linhas de metro e interiores de serviços públicos, como autocarros, cabines telefónicas ou mesmo casas particulares. Toda a Boston estava coberta de melaço e ainda hoje há quem jure que durante o Verão, em dias de maior calor, o cheiro açucarado da grande onda destrutiva se sente no ar. Actualmente, a área do desastre é um parque público. Nunca mais qualquer tanque ou estrutura congénere foi ali construído e uma pequena placa relembra o evento e as vítimas no exacto sítio onde o defeituoso tanque estava localizado.