O seu fulgor foi inspirado pelo sofrimento e pela paixão. Eis a história de uma mulher com talento natural para a música.

De camisa branca impecavelmente engomada e cabelo negro penteado como uma touca com as pontas encaracoladas para fora, Aretha Franklin parecia pensativa, mas confiante, ao entrar nos lendários FAME Recording Studios, em Muscle Shoals, no Alabama, em Janeiro de 1967.

Aretha tinha então 24 anos e tomou rapidamente controlo da gravação, com excepcional atitude. Ainda não se tornara um ícone musical e cultural. Ainda não se tornara Aretha Franklin, a Rainha da Soul.

Naquele dia, era quase desconhecida e um mistério. Os músicos de estúdio não sabiam bem o que pensar. A tensão criativa era tão densa como o fumo dos cigarros. Hoje, torna-se difícil imaginá-lo, mas Aretha ansiava desesperadamente por um êxito.

Passara os seis anos anteriores na Columbia Records a gravar um tipo diferente de jazz, sem grande sucesso. Agora, na Atlantic Records, o produtor Jerry Wexler queria fazer sobressair a “igreja” que existia em Aretha. Os músicos dos FAME Studios tinham criado um som de rhythm and blues sulista que dera origem a uma série de sucessos, incluindo o clássico “When a Man Loves a Woman”, de Percy Sledge.

Rodeada por um grupo de músicos que não sabiam ao certo que tipo de música haveriam de criar com ela, Aretha não estava interessada em conversa fiada. Tratava-os por Senhor Y e Senhor Z e eles chamavam-lhe Menina Franklin.

Por fim, a filha do pregador, criada em Detroit, sentou-se ao piano. Mais tarde, os musicólogos explicariam que, embora Aretha não soubesse ler música, nem tivesse qualquer educação formal, seria ao piano que haveria de invocar o seu génio. O poder da sua voz era extraordinário em si mesmo, uma força aveludada que parecia reflectir um saber ancestral. Combinada com o seu acompanhamento ao piano, era fenomenal.

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Aretha Franklin nasceu nesta casa, hoje abandonada, em Memphis, no Tennessee. Quando morreu, em Agosto de 2018, cidadãos anónimos trouxeram flores e deixaram mensagens com as letras das suas canções favoritas. Alguns habitantes locais gostariam que a casa fosse preservada como monumento histórico.

Sem cantar uma única palavra, fez soar um acorde no piano. Depois, endireitou as costas. Varreu a sala com o olhar. Retocou o batom com a ponta da língua. Todos os homens presentes na sala repararam. Quando começou a cantar, atingiu uma nota “com a raiva furiosa de uma mulher desprezada”, tão violenta que ameaçou descascar a tinta das paredes do estúdio.

A sua voz explodiu com emoção pura. Os produtores haveriam de descrever aquilo que eclodiu em Aretha naquele dia, em Muscle Shoals, como sobrenatural. Martelou o piano como se as teclas marcassem uma fronteira ténue entre o amor e o ódio. Depois, fez soar uma nota grave e passou à espiritualidade de igreja.

Essa gravação de “I Never Loved a Man (The Way I Love You)” catapultaria Aretha Franklin para a fama. Os músicos da banda diriam que nunca tinham visto, nem ouvido, uma cantora como ela. O poder da voz, a sua força narrativa, e a maneira como transmitia esse objecto intangível chamado alma (soul) – tudo brilhante!

“Posso dizer-lhe o que vi”, contou-me Spooner Oldham, um compositor lendário, numa entrevista que lhe fiz. Oldham tocou com Neil Young, Bob Dylan e muitas outras figuras icónicas da música, mas essa primeira sessão de gravação com Aretha Franklin foi diferente.

“Não foi conversada, nem planeada. Ela começou a tocar. Percebi que estava a trabalhar com uma pessoa especial”, disse Spooner. “A voz dela era difícil de descrever. Abrangia um território muito vasto. Era angelical. Espiritual. Alegre. Triste. Se começarmos a pôr-lhe adjectivos, temos de usá-los todos. Ela era única. Senti imediatamente que era um génio musical.” Durante essa sessão, Aretha, juntamente com os músicos da famosa Muscle Shoals Rhythm Section, gravou o primeiro de muitos discos que venderam milhões de exemplares.

“Assim que acabaram de gravar a faixa, todos na sala perceberam que seria um sucesso de vendas”, disse-me Rodney Hall, filho de Rick Hall, co-fundador dos FAME Studios.

A origem de parte do sofrimento que Aretha cantava de forma tão apaixonada saltaria à vista de todos no acto seguinte. A sessão de gravação foi interrompida quando o estúdio se transformou num cenário de batalha. O marido e agente de Aretha, Ted White, acusou um trompetista de namoriscar com a mulher e exigiu o seu despedimento. Mais tarde, Rodney Hall lembrou-se de o seu pai lhe contar que a noite acabara com Rick Hall e Ted White tentando empurrar-se um ao outro de uma varanda do hotel onde Aretha se encontrava hospedada.

Esta cena desagradável foi uma janela aberta para o mundo privado de Aretha. Ela canalizaria o seu sofrimento e infundiria espiritualidade em canções que se tornariam universais, cruzando géneros musicais e abrangendo várias épocas, gerações e culturas. Essa noite, no Alabama, haveria de a colocar num rumo que influenciaria a música popular durante várias décadas. A sua voz tornar-se-ia o som revolucionário das mulheres que exigiam reconhecimento.

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Um retrato de Clarence LaVaughn “C.L.” Franklin, pai de Aretha, ainda se encontra pendurado na Igreja Baptista New Salem, em Memphis, onde ele foi pastor nos primeiros anos da década de 1940.

Poucos dias depois de sair de Muscle Shoals, Aretha Franklin gravaria outro êxito num estúdio de Nova Iorque: “Do Right Woman, Do Right Man”. Uma semana mais tarde, gravou “Respect”, canção que se transformaria num hino não só do poder de Aretha na indústria da música, mas também dos direitos da mulher, numa época instável.

Mais de 50 anos passados sobre a épica gravação de Aretha em Muscle Shoals e quase três anos após a sua morte, aos 76 anos de idade, o seu fulgor continua a ser uma espécie de enigma. O longo reinado da

Rainha da Soul é indiscutível. Igualmente indiscutível é o facto de ela ter cantado o mais profundo dos blues, o mais divertido do funk, música pop de batida forte, jazz suave, rhythm and blues poderoso e, até, ópera com fenomenal facilidade. É indiscutível que ela era um génio musical ímpar em termos de variedade, força e espiritualidade.

Tal como Albert Einstein expandiu as fronteiras da ciência e Pablo Picasso criou uma nova forma de arte, Aretha Franklin conduziu a música a novas profundidades, fazendo-lhe arranjos, expandindo-a, captando-a, compondo-a, tornando-a sua.

Mas qual era, ao certo, a raiz do génio artístico de Aretha? À semelhança de outros génios, ela foi uma menina-prodígio, com um dom precocemente alimentado pelo pai. Tal como Picasso e Einstein, tinha uma personalidade dominante e um sentido apurado do pormenor. A cantora tinha um ouvido tão bom que era capaz de decompor as linhas melódicas de uma canção e arranjá-las a seu gosto. Tinha também uma forte ambição e empenho em gravar canções de sucesso.

“O génio de Aretha era muito natural nela”, contou-me o barão da música Clive Davis. “Ela sentia e encarnava a música e conseguia interpretá-la como nunca ninguém fizera antes.”

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A cantora Meagan Connors (à esquerda) e Spooner Oldham (ao centro) ensaiam nos estúdios FAME Recording Studios, em Muscle Shoals. Oldham era músico  de  estúdio quando Aretha Franklin gravou ali em 1967.

Segundo Clive, que trabalhou com Aretha Franklin durante 38 anos, o génio devia-se à capacidade para conferir maior profundidade às canções – maior ainda, por vezes, do que a originalmente prevista pelos próprios compositores. “Ela compreendia a essência da linguagem e da melodia da canção e era capaz de conduzi-la a um lugar que poucos conseguiam alcançar”, afirmou. “Aretha não teve uma única aula de música”, disse a sua prima Brenda Corbett, que integrou o coro de Aretha durante mais de 50 anos. “Ela sabia o que queria. Se algo não estivesse bem, ela dizia.” Graças à sua fenomenal extensão vocal, Aretha Franklin parecia subir ao cume de uma montanha antes de se precipitar nas mais dolorosas profundezas. Na opinião de alguns musicólogos, a extensão da sua voz ultrapassava as quatro oitavas. Mas era a maneira como se servia dessa voz – por exemplo, nos intervalos de oitava cantados nos separadores musicais – que ela revelava o seu incomensurável dom. Quando isso acontecia, todos os que a ouviam ficavam com pele de galinha.

“O génio é muitas vezes definido em termos de uma pontuação elevada obtida num teste de QI, uma concepção que tendo a desfavorecer”, afirmou Dean Keith Simonton, professor jubilado de psicologia na Universidade da Califórnia. “Noutras situações, o génio é definido como excepcional talento precoce num domínio particular”, afirmou. “Noutros casos, o génio é atribuído às pessoas que tiveram um impacte duradouro.”

Segundo os especialistas, as crianças-prodígio parecem muitas vezes ser almas antigas, cujo desempenho ultrapassa de longe a idade que têm. Enquanto crianças, podem parecer assustadoramente avançadas, espantando as outras pessoas com a mestria com que abordam sonatas complexas, ou a ciência e equações matemáticas.

No caso de Aretha, o seu talento musical tornou-se evidente desde muito cedo.

Aretha Louise Franklin nasceu no dia 25 de Março de 1942, na zona sul de Memphis, no Tennessee. O seu pai, o reverendo Clarence LaVaughn “C.L.” Franklin, era um famoso pregador baptista. A mãe, Barbara Siggers Franklin, era uma cantora de música gospel muito respeitada.

A família mudou-se de Memphis para Buffalo e dali para Detroit, onde o pai se tornou pastor da Igreja Baptista New Bethel. Quando Aretha tinha 6 anos, a mãe deixou a família. Aretha, o irmão e as duas irmãs foram criados pela avó paterna, mas sentia saudades da mãe, que morreu pouco depois. “Isso aconteceu quando eu tinha 10 anos”, disse Aretha Franklin em “Aretha: From These Roots”, uma autobiografia escrita em colaboração com David Ritz. “O papá chamou-nos todos (eu, Erma, Carolyn e Cecil) à cozinha. Sentou-se na ponta do lavatório, que parecia um aparador, e falou, simples e solenemente. A nossa mãe tivera um ataque cardíaco mortal. Fiquei ali parada, atordoada. Não consigo descrever a dor que senti, nem vou tentar. Por vezes, o sofrimento é um assunto privado e a dor que uma criança pequena sente quando lhe morre a mãe desafia qualquer descrição.”

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O piano em que Aretha tocou para a gravação daquele que seria o seu primeiro disco a vender um milhão de exemplares, “I Never Loved a Man (the Way I Love You)”, encontra-se hoje na casa de família de um executivo dos estúdios FAME. Os FAME foram influentes no desenvolvimento de Muscle Shoals.

Na opinião da família, foi um trauma de infância do qual ela nunca recuperou e uma tristeza que carregou consigo para o resto da vida.

Também parece não haver dúvida sobre a influência exercida sobre Aretha pelo talento do pai, ele próprio um intérprete famoso. C.L. Franklin era conhecido para lá de Detroit porque as gravações dos seus sermões eram vendidas com sucesso. Aretha era uma jovem adolescente quando se juntou ao pai no circuito da música espiritual.

C.L. Franklin reconhecia o génio da filha e exibia-a no seu itinerário de igreja em igreja. Ele pregava e, em seguida, ela cantava.

Aretha fez a sua primeira gravação aos 14 anos – segundo algumas fontes, cerca de dois anos depois de nascer o seu primeiro filho, Clarence, e a idade com que deu à luz o segundo filho, Eddie.

O cartaz de um concerto de 1960, em Chattanooga, no Tennessee, publicita um sermão de C.L. Franklin com a sua filha de 18 anos, Aretha, “uma estrela em ascensão no campo da música gospel”. De acordo com o musicólogo Jason Hanley, vice-presidente para a educação e para a contratação de convidados no Rock & Roll Hall of Fame de Cleveland, “o reverendo Franklin é efectivamente a cabeça de cartaz. Depois, a sua incrível filha, este prodígio, Aretha Franklin, canta a mensagem evangélica transmitida pelo pai.”

Segundo Jeff Ramsey, professor no departamento de voz do Berklee College of Music, em Boston, o tempo passado por Aretha Franklin a cantar em coros de igreja e no circuito da música gospel contribuiu para polir o seu génio e o circuito proporcionou-lhe uma sabedoria enraizada na história, sofrimento e resiliência da população negra nos Estados Unidos. As suas raízes eram o gospel e “aquilo que nunca mudou foi a natureza sagrada da sua voz”, afirmou.

Na biografia de David Ritz, “Respect: The Life of Aretha Franklin”Cecil, o irmão de Aretha, disse que ele e as outras irmãs tinham talento musical, mas que Aretha “nascera com ele. Mais tarde, os musicólogos bem podem analisar a forma como ela o alcançou. Bem podem dizer que ela praticou com mais afinco do que nós ou que prestava mais atenção à música que a rodeava ou que tinha mais motivação para aprender. O que eu vos digo é que nada disso é verdade. Ela não praticava. Não prestava mais atenção à música do que a Erma, a Carolyn ou eu.” E acrescentou: “Nós sempre soubemos que ela possuía um tipo diferente de talento. É aquele talento a que chamam génio. Não se aprende. Ou se tem ou não se tem.”

O génio pode ser alimentado num ambiente que lhe dê espaço para crescer. Muitas vezes, os génios têm grandes personalidades, uma enorme ambição, competitividade e a capacidade de não se diminuírem ao lado de outras pessoas geniais.

Em Detroit, Aretha Franklin cresceu numa cidade que gerou uma constelação de estrelas musicais: Diana Ross, Stevie Wonder, Berry Gordy, Smokey Robinson e os Temptations. Mesmo no meio de tantos músicos talentosos, Aretha Franklin sobressaiu.

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Smokey Robinson conta que tinha 8 anos quando viu pela primeira vez a jovem Aretha. Mais tarde, tornar-se-ia amigo de Cecil Franklin. Descreve o seu primeiro encontro com Aretha em casa da família Franklin. “Andávamos a passear pela casa quando ouvi música”, contou à multidão presente no funeral de Aretha. “Ouço o piano a tocar e esta voz, esta voz parecia de uma rapariguinha a cantar. E então entro nessa sala e vejo-te – e ali estás tu e estás a cantar.”

Quando era pequena, Aretha era arrancada ao sono, de vez em quando, para actuar para as estrelas que visitavam o seu pai famoso. Nessa sala, ela conheceu as cantoras gospel Clara Ward e Mahalia Jackson, o cantor-autor de canções Sam Cooke, o compositor e chefe de orquestra Duke Ellington, os pianistas de jazz Art Tatum e Oscar Peterson, os cantores Ella Fitzgerald, Dinah Washington, Nat King Cole, Lou Rawls e Billy Eckstine e o reverendo Martin Luther King, Jr.

O génio de Aretha revelou-se plenamente no seu álbum de estreia de rhythm and blues (R&B) ao reinterpretar “Respect”, música escrita pelo cantor de música soul Otis Redding. A sua canção fala de um homem que exige respeito quando regressa a casa. A versão de Aretha fala de uma mulher que faz essa exigência e ela soletra cada letra da palavra “respect” ao interpretá-la.

Nesse ano, Aretha conquistou o primeiro dos seus prémios Grammy para a Melhor Gravação de Rhythm & Blues e Melhor Interpretação Vocal a Solo de Rhythm & Blues por uma mulher, com “Respect”. Conquistaria mais 17 Grammys e receberia 44 nomeações para o prémio, concedido pela Recording Academy para homenagear a excelência nas artes e ciências da gravação.

Em 1998, os fãs da música obtiveram um inesperado vislumbre da espantosa diversidade do talento de Aretha Franklin na cerimónia da entrega dos Grammy Awards, em Nova Iorque. Estava prevista a actuação de Luciano Pavarotti, o mundialmente famoso tenor italiano, cantando “Nessun Dorma”, a grande ária escrita por Giacomo Puccini. Mas Pavarotti cancelou a sua comparência no espectáculo ao vivo por doença.

Aretha Franklin iria actuar com os Blues Brothers na cerimónia dos Grammys dessa noite, mas Ken Ehrlich, produtor executivo do espectáculo, lembrou-se de que Aretha cantara “Nessun Dorma” duas noites antes, numa gala de beneficência para a Recording Academy. “Subi a correr até ao seu camarim e perguntei-lhe se ela poderia cantar a ária”, contou mais tarde Ehrlich à revista “Billboard”.

Aquilo que aconteceu em seguida foi um dos momentos mais memoráveis da carreira de Aretha Franklin. Não tendo voz de tenor, nem sendo cantora de ópera, ela interpretou maravilhosamente a ária. “Teve de mudar de tom por ter sido obrigada a usar o arranjo feito para Pavarotti”, contou David Ritz. Escutou a orquestração durante 20 minutos e descobriu a forma de alterar a sua voz para um tom que não era o seu preferido. Transformou a ária numa canção soul, mas respeitou a beleza do dom melódico de Puccini.

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O coro juvenil de Detroit actua num concerto de homenagem realizado em 16 de Agosto de 2019, no primeiro aniversário da morte de Aretha. “Ela nunca se esqueceu de onde veio, nem de como começou”, afirmou a presidente da câmara da cidade, Brenda Jones.

Numa entrevista que lhe fiz em 2012, Aretha Franklin contou-me que “Nessun Dorma” era uma das suas canções favoritas. “São demasiadas” canções para enumerá-las todas, disse, quando lhe perguntei de qual gostava mais. “Entre elas, certamente ‘Respect’, ‘Jump to It’, ‘Natural Woman’, ‘Rock Steady’ e ‘Nessun Dorma’, a canção preferida de Pavarotti.” Na sua voz, não havia a mais leve ponta de gabarolice.

Em 1987, Aretha tornou-se a primeira mulher a ocupar um lugar no Rock & Roll Hall of Fame, abrindo caminho à presença de outras mulheres. A revista “Rolling Stone” atribuiu-lhe o primeiro lugar na lista dos Maiores Cantores de Todos os Tempos. Em 2019, recebeu uma Citação Especial póstuma para o Prémio Pulitzer.

Aretha apresentou-se em espectáculos memoráveis, incluindo aquele em que subiu ao palco com um casaco de peles, que lhe pendia dos ombros, e um vestido amarelo para cantar “I Dreamed a Dream”, no evento da tomada de posse de Bill Clinton como presidente dos Estados Unidos, em 1993. A canção era um clássico do espectáculo musical Les Misérables. Aretha tomou conta da canção e do palco. Quando deixou cair o casaco de peles, lançando em seguida uma nota aguda, a multidão e a família Clinton levantaram-se num aplauso.

“Todos na sala estavam hipnotizados à medida que o espectáculo aumentava de intensidade”, recordou Clive Davis, no funeral de Aretha. “Então, Aretha, só ela, única como era, mudou espontaneamente a letra da canção de ‘I dreamed a dream’ [Sonhei um sonho]’ para ‘I have a dream’ [Eu tenho um sonho]: essa mudança instintiva para o lema de Martin Luther King tornou esse clímax arrepiante e inesquecível até hoje.”

“Aretha ajudou a definir a experiência americana”, escreveu Obama no Twitter após a sua morte. “Na sua voz, conseguíamos sentir a nossa história como um todo e todas as suas nuances – o nosso poder e o nosso sofrimento, a nossa sombra e a nossa luz, a nossa busca pela redenção e o nosso respeito duramente conquistado.”

A coragem e a lenda de Aretha Franklin foram mais longe do que a sua música. Contribuiu para o financiamento do movimento dos direitos civis, manifestou-se na rua ao lado de Luther King e cantou no serviço fúnebre em homenagem do líder dos direitos civis em 1968. Criou músicas que se tornaram banda sonora de revoluções: os movimentos dos direitos civis e das mulheres e os protestos contra a Guerra do Vietname.

Em 1970, ofereceu-se para pagar os 250 mil dólares necessários para que a activista política Angela Davis fosse libertada da prisão sob fiança. “Os negros serão livres”, disse Aretha à revista “Jet”. “Fui presa” por perturbar a paz em Detroit “e sei que é preciso perturbar a paz quando não se consegue ter paz. É um inferno estar na prisão. Hei-de vê-la sair em liberdade se houver alguma justiça nos nossos tribunais, não por acreditar no comunismo, mas porque ela é uma mulher negra e deseja a liberdade dos negros. Eu tenho o dinheiro. Recebi-o dos negros, eles deram-me a capacidade financeira para tê-lo. Quero usá-lo de formas que ajudem a nossa gente.”

Talvez o leitor seja demasiado jovem para ter visto Aretha Franklin no seu apogeu, mas provavelmente ouviu a sua música. É muito provável que a sua mãe e o seu pai a conheçam. O leitor já a ouviu no cinema. E ouviu também a maneira de cantar de Aretha em artistas como Beyoncé, Ariana Grande, Fantasia, Jennifer Hudson, Lady Gaga, Whitney Houston e Adele.

Na 16.ª edição do tributo aos artistas americanos do Rock & Roll Hall of Fame, que homenageou Aretha Franklin em 2011, vários artistas fizeram uma serenata a Aretha, cantando-lhe as suas canções. Nessa noite, em Cleveland, Aretha não iria supostamente cantar. No entanto, durante um intervalo do espectáculo, ela pediu um piano.

Aretha subiu ao palco, acompanhada por Ronald Isley, Cissy Houston, Jerry Butler e Dennis Edwards para interpretar uma canção extra. “Lançaram-se numa canção incrível”, recorda Jason Hanley. “Ela comandava. Naquele instante, o mundo todo reduziu-se ao foco de luz que a iluminava. Todos fomos testemunhas. Foi então que, pessoalmente, me apercebi da razão pela qual ela é quem é.”

David Ritz que colaborou com Aretha na redacção na sua autobiografia, em 1999, e que escreveu o seu próprio livro sobre a cantora 15 anos mais tarde, chamou-lhe engenheira. Contou-me que parte do génio de Aretha se devia à forma como desconstruía as canções de outras pessoas que decidira interpretar: no estúdio, ela desmontava a canção por completo, infundia-a de soul, e, por fim, acrescentava-lhe o seu próprio balanço e sentimento. Depois de montar de novo a canção, assenhoreava-se dela. “Ela interpreta uma versão de um sucesso de Glen Campbell chamado ‘Gentle on My Mind’”, disse o biógrafo. “Era originalmente uma canção country com jazz, balanço e big band e ela tornou-a fantástica.” A sua inteligência, disse, é patente “na intensidade da sua expressão emocional”. Nasceu do sofrimento, da depressão e do seu desejo de nunca falar sobre a sua história, nem sobre as coisas que a magoavam. Numa entrevista dos primeiros tempos, uma jovem Aretha sorri, de nervosismo, enquanto se senta ao piano. White, o marido, está sentado a seu lado. Tem o cabelo puxado para trás e o seu rosto é meigo e ingénuo. Diz para a câmara com voz de menina: “Ainda estou a descobrir quem sou e o que sou na verdade.”

Numa entrevista que me concedeu em 2012, respondeu a todas as perguntas – menos uma. Estremeceu de desagrado quando lhe pedi que recordasse a sua memória de infância mais antiga.

“Durante toda a vida, guardou grande segredo sobre o que acontecia na sua vida, romântica e pessoal”, explicou David Ritz. “Ninguém conseguia obter qualquer informação dela. Ela reprimia a cólera. Reprimia a sua confusão. O único veículo que usava para transmitir tudo isso era a música. Por serem memórias reprimidas, eram expressas de maneira extravagante.”

Só parecia conseguir exprimir o seu sofrimento quando cantava. E quando a dor vinha ao de cima, era astronómica.

David Ritz conviveu com Aretha durante muitos anos, tentando contar a sua história. “Alguns de nós vão ao psicólogo ou ao psiquiatra, pagam e fecham a porta”, disse. “Ela faz isso, abrindo a boca no palco. É a sua psicoterapia. A sua catarse.”

Em Atlanta, na Geórgia, a National Geographic filmou a terceira temporada de “Genius”, uma série que, nas temporadas anteriores, se centrara em Einstein e em Picasso. Esta temporada de oito episódios teve como protagonista Cynthia Erivo no papel de Aretha Franklin.

Suzan-Lori Parks foi directora de operações e produtora executiva de “Genius: Aretha”. Vencedora de um Tony e dramaturga premiada com um Prémio Pulitzer, Suzan-Lori está sentada no sofá de um cenário que nos transporta de regresso ao passado. Foi concebido para replicar a casa onde Aretha cresceu, em Detroit, servindo para reimaginar a sua vida na juventude. O sofá e as duas poltronas encontram-se revestidos com plástico protector. Vêem-se beatas de cigarros dispersas por vários cinzeiros. Um piano de cauda está arrumado ao canto da sala. Uma escadaria emoldura a sala de estar.

Foi numa sala de estar como esta que Aretha ouviu alguns grandes cantores, como Mahalia Jackson, Sam Cooke e Clara Ward. Num piano parecido com este, ela sentou-se no banco, ao lado do inimitável James Cleveland, que lhe ensinou os seus acordes. Numa cozinha semelhante a esta, Big Mama, como chamava à sua avó, e as cozinheiras contratadas pelo pai preparavam comida típica do Sul: milho frito, feijão-frade, frango com bolinhos de massa, feijão-verde e tartes de batata-doce.

Suzy-Lori estava decidida a captar o génio de Aretha numa “série definitiva sobre a universalmente aclamada Rainha da Soul”, disse. E prosseguiu: “E embora todos os amantes de música popular ocidental reconheçam o som da sua voz, poucos conhecem a sua história, sabem o sofrimento por que passou, conhecem as dificuldades da sua infância, sabem que a mãe morreu ainda nova, sabem que ela não se limitou a saltar para o palco e a descobrir o seu som.”

Aretha Franklin não tinha tudo planeado quando começou a cantar, contou Suzi-Lori. Ela “escavou fundo e transformou a sua vida numa obra que perdura e ilumina o caminho de todos nós”.

Os génios criam luz para as gerações futuras, afirmou Suzy-Lori. “Harriet Tubman era um génio. Einstein era um génio. Edison era um génio. Da Vinci era um génio. Bach era um génio. [John] Coltrane era um génio. Toni Morrison era um génio”, disse. “Estas pessoas não criam apenas o que está na moda. As suas criações são profundamente duradouras.”

No outro lado do estúdio, Cynthia Erivo está a arranjar o cabelo e a maquilhar-se, transformando-se em Aretha, invocando o génio e a diva. Em 2016, Cynthia sentiu-se como se estivesse a cantar com Aretha, mesmo que por breves instantes. Num vestido de renda branco, Cynthia subiu ao palco por ocasião da cerimónia dos Kennedy Center Honors, cantando “The Impossible Dream”. No instante exacto em que se preparava para atacar uma nota aguda, a câmara passou a filmar o público. E lá estava Aretha, de olhos fechados, a cantar a letra juntamente com ela.

O momento foi fugaz, mas fortíssimo. Cynthia contou-me que costuma ver o vídeo muitas vezes. “Sinto-me feliz por ter conseguido fazer algo de que ela gostou e por ter sido uma das vozes que lhe trouxe alguma felicidade”, afirmou.

Cynthia Erivo, vencedora de um Grammy, um Emmy e um Tony pela sua interpretação em “The Color Purple” na Broadway, conheceu Aretha nos bastidores depois de um espectáculo. Cynthia foi nomeada para dois Prémios da Academia em 2020 – Óscar para a Melhor Actriz e Óscar para a Melhor Canção Original – por desempenhar o papel da abolicionista Harriet Tubman no filme “Harriet”.

Agora, está a transformar-se na Rainha da Soul. “É incrível desempenhar o papel de um ícone como Aretha, que é um dos meus ídolos”, disse Cynthia Erivo, criada no Reino Unido, onde começou a ouvir a música de Aretha Franklin na infância. Cynthia diz ter-se preparado para o papel lendo, ouvindo música e vendo o documentário “Amazing Grace”, estreado após a morte de Aretha, que a mostra na gravação de um álbum em 1972.

A película, filmada ao longo de duas noites na Igreja Baptista Missionária New Temple, em Los Angeles, mostra-nos uma Aretha de 29 anos regressando às suas raízes do gospel. Realizado por Sydney Pollack, o filme mostra uma gravação rara de Aretha numa actuação transcendente. Na segunda noite, Charlie Watts e Mick Jagger, dos Rolling Stones, esgueiraram-se para dentro da sala e misturaram-se com o público. O filme mostra igualmente o pai de Aretha sentado junto de
Clara Ward, que se tornou sua mentora. “Vi-o religiosamente. O filme dá-nos uma visão profunda de quem ela realmente era”, disse-me Cynthia Erivo. “Quando começa a cantar o separador musical da canção, acontece qualquer coisa e ela abre-se por completo. É nessa altura que sentimos o seu coração.”