Uma viagem de 3.300 quilómetros pelo que resta da principal auto-estrada revela um país maltratado que começa a regredir.

Vemo-nos finalmente livres do engarrafamento matinal em Cabul e o mapa do meu smartphone indica uma estimativa de nove horas para percorrer os 500 quilómetros que nos separam da cidade de Kandahar, seguindo pela Auto-Estrada Nacional 1, a estrada mais cara e importante do Afeganistão.

Os Estados Unidos despejaram centenas de milhões de dólares neste troço de asfalto, uma secção da Circular Rodoviária de 2.200 quilómetros que contorna o país. O objectivo era agilizar as viagens e promover o comércio entre a capital e a segunda maior cidade do Afeganistão. No entanto, seria disparatado fazer planos para jantar em Kandahar.

A auto-estrada foi construída nas décadas de 1950 e 1960 pela União Soviética e pelos EUA, os rivais da Guerra Fria que disputavam a influência em Cabul. Arruinada por décadas de guerra e incúria, em 2001 restavam apenas 50 quilómetros de estrada asfaltada. Depois da reparação e reabertura do troço entre Cabul e Kandahar, em 2003, o enviado dos EUA, Zalmay Khalilzad, proclamou: “Estamos aqui hoje – literalmente – na estrada para o futuro do Afeganistão… É um futuro de prosperidade. É um futuro de paz.” Dezanove anos depois, os solavancos causados pela estrada esburacada confirmam a violência galopante e a corrupção associada.

Menos de uma hora mais tarde, a sul de Cabul, na província de Wardak, o piso da via começa a desfazer-se, crivado de crateras causadas pelos explosivos dos talibãs, que me obrigam a desviar-me para fora da estrada ou a travar a fundo para evitar acidentes. Raramente consigo subir acima da terceira mudança. Viúvas vestidas com burkas pedem esmola na berma e rapazes de pá em punho confirmam que é preciso abrandar devido à aproximação de mais danos provocados por bombas.

Como não há equipas de reparação, crianças como Ehsanullah, de 15 anos, e o seu irmão Rafiullah, de 10, preenchem as fendas com terra, do nascer ao pôr do Sol, recebendo gorjetas de dois euros, em dias bons.

“O nosso pai está doente e o meu irmão mais velho é toxicodependente”, suspira Ehsanullah. “Que mais podemos fazer?”

A viagem de carro é menos angustiante do que a minha última jornada através deste bastião talibã, a milícia muçulmana sunita de linha dura que se assenhoreou pela primeira vez do poder em 1996 e foi expulsa pelos EUA em 2001, por dar guarida a Osama bin Laden após os ataques de 11 de Setembro. Em Agosto de 2020, eu viajava por esta estrada na mesma altura em que os militantes talibãs atacavam as caravanas do exército afegão. Combates armados eclodiam por todo o lado e um pequeno número de civis viajava por sua conta e risco, enquanto as tropas do governo, mal armadas, se escondiam atrás de postos avançados crivados de balas.

O posto avançado de polícia onde então passei a noite é agora um monte de escombros. Cascos de tanques destruídos durante a ocupação soviética de 1979-89 repousam a pouca distância de veículos norte-americanos estropiados, de colheita mais recente – uma mistura de iniciativas mal-sucedidas de construção do país.

estrada Afeganistão

Completou-se em Agosto de 2022, um ano desde que os talibãs voltaram a assenhorear-se do poder, depois de os EUA retirarem as suas forças do país. Eu e o fotógrafo Balazs Gardi alugámos um veículo para percorrermos a Auto-Estrada Nacional 1, mais conhecida como Circular Rodoviária, que liga quatro cidades importantes a leste, sul, oeste e norte. Nas duas décadas que já somamos de reportagens no Afeganistão, foi sempre demasiado perigoso fazer este percurso na sua totalidade, mas o breve interregno na violência actualmente vivida proporciona uma rara oportunidade de explorar o país.

Ao longo de duas semanas, em 18 províncias, depois de percorrermos 3.354 quilómetros, encontrámos combatentes empedernidos, agricultores itinerantes, mulheres sujeitas a restrições draconianas que não existiam desde 2001 e crianças obrigadas a garantir o sustento das famílias. O fio condutor entre todos é o alívio produzido pelo fim da longa guerra que matou mais de 150 mil afegãos, bem como uma aparente recuperação da ordem. Sente-se também um desespero crescente perante o facto de o novo regime talibã não ser mais brando do que a sua encarnação original. Apesar de terem prometido amnistiar os antigos inimigos e respeitar os direitos das minorias e das mulheres, os talibãs levaram a efeito execuções sumárias de forças governamentais que se renderam, não conseguiram impedir os ataques sectários e eliminaram agressivamente todos os esforços de inclusão feminina, travando o acesso das mulheres a certos empregos na função pública, obrigando as apresentadoras das notícias televisivas a taparem o rosto e proibindo o ensino secundário das raparigas. Desde que os talibãs tomaram o poder, a economia dependente da ajuda externa colapsou, deixando 95% da população com fome, segundo o Programa Alimentar Mundial.

Em centros urbanos poeirentos e aldeias em derrocada, encontramos vestígios do projecto de modernização desenvolvido durante duas décadas sob direcção dos EUA. A cada quilómetro que percorremos, vão emergindo indícios sinistros do passado obscurantista e isolado do Afeganistão, sublinhando a sensação de que estamos perante um país que se desloca em marcha-atrás.

Saímos da auto-estrada em Shaykhabad, mudando para uma estrada de cascalho com a intenção de visitar a médica Roshanak Wardak, antiga deputada do Parlamento conhecida pelas suas intervenções enérgicas. Hoje, sente-se quase sem palavras quando nos encontramos. É o primeiro dia de aulas em todo o país e os talibãs acabaram de anunciar que as raparigas acima do sexto ano de escolaridade não poderão frequentar a escola.

“Sinto-me chocada”, afirma Roshanak. Mostra-nos um vídeo no telemóvel em que uma adolescente implora o direito de entrar na sala de aula. “Isto significa a destruição do seu futuro. Um ser humano sem instrução não será nada.”

Roshanak Wardak abriu uma clínica para mulheres em 1996, pouco antes de os talibãs assumirem o poder. As mulheres afegãs morriam então de parto em percentagens alarmantes e a médica desafiou as autoridades, prestando cuidados médicos e recusando-se a tapar o rosto. Foi das primeiras mulheres eleitas para o Parlamento após a queda dos talibãs e, em 2010, voltou a praticar Medicina a tempo inteiro, tratando as pessoas feridas devido à insurgência. Queria pôr fim ao banho de sangue e viu nos talibãs a melhor hipótese para expulsar as forças militares dos EUA. Também acreditou que conseguiria exercer uma influência moderadora sobre os talibãs da sua comunidade, muitos dos quais conhecia desde que eram crianças.

estrada Afeganistão

A médica Roshanak Wardak, de 64 anos, visita a maternidade de um hospital distrital de Sayyidabad. Durante a década de 1990, ela tratou compatriotas refugiados no Paquistão, antes de regressar ao seu país para lidar com taxas de mortalidade infantil e materna assustadoramente altas.

As suas esperanças esfumaram-se no último ano. Os talibãs voltaram a impor decretos que proíbem as mulheres de viajar sem a companhia de um parente masculino, de frequentarem os parques no mesmo dia dos homens ou de mostrarem o rosto em público. “Isto não é islâmico”, queixa-se Roshanak Wardak. “As impressões positivas que eu tinha deles mudaram. Enquanto o mundo anda para a frente, nós andamos para trás.”

Acompanhamo-la até ao hospital distrital onde pendente do financiamento estrangeiro. A região rural do Afeganistão foi atingida com especial dureza pelo desaparecimento da ajuda humanitária, pelas sanç��es dos EUA e pelo congelamento dos activos bancários. Na enfermaria dos subnutridos, Ayesha debruça-se sobre a sua filha bebé de aspecto emaciado, Reshma, que está a ser alimentada por via intravenosa. Aos 8 meses, Reshma pesa 2,5 quilogramas. O director do hospital, Abdul Hakim, observa 50 a 100 casos de subnutrição por mês e teme que esse número venha a aumentar. Aquando do regresso dos talibãs, muitos profissionais qualificados fugiram.

Estranhamente, a enfermaria dos traumatizados apresenta-se quase vazia. Durante a guerra, os cadáveres das forças governamentais e da milícia talibã amontoavam-se como “pilhas de lenha” na sala de entrada, recorda Roshanak Wardak. Agora, o único doente é um camionista cuja bochecha está a ser cosida após ter sofrido um acidente de viação por tentar evitar um buraco aberto por uma bomba na estrada.

Alguns quilómetros mais à frente na auto-estrada, um homem magro de 50 anos, conhecido pelo nome de guerra Khan, gaba-se de ter sido responsável pela maior parte dos ataques lançados contra a Auto-Estrada 1 no distrito de Sayyidabad. Khan é actualmente agente de segurança no Ministério das Obras Públicas em Cabul, uma ironia que lhe assenta bem. À semelhança de todos os combatentes talibãs com quem travamos conhecimento, afirma ter participado na jihad porque os estrangeiros estavam a corromper o modo de vida tradicional dos afegãos. Finda a guerra, a sua má vontade contra os estrangeiros suavizou-se, transformando-se em curiosidade, e agora convida-nos para jantar.

O fumo da lareira ergue-se dos muros altos do complexo fortificado de Khan e sentamo-nos para comer quiabos guisados e pão ázimo, uma refeição preparada por uma esposa e uma filha que nunca chegamos a ver.

Somos acompanhados à mesa pelo seu antigo camarada de armas, Elham. Enquanto bebemos chá, os dois recordam com nostalgia o forte sentido de missão que um dia partilharam. “Antigamente, sofríamos, mas éramos felizes”, diz Elham, que trabalha actualmente num departamento provincial de passaportes. “Agora aborreço-me e não sei bem o que fazer. Sinto falta da guerra.”

As montanhas cinzentas da província de Wardak aplanam-se, dando lugar a planícies erodidas ao entrarmos na província de Ghazni. Na última vez que aqui estive, viajei numa caravana de veículos blindados do Exército dos EUA e a nossa viagem terminou antes do previsto quando um dispositivo explosivo improvisado matou dois agentes da polícia afegã que seguiam à nossa frente, abrindo caminho. Desta feita, os combatentes talibãs inspeccionam a bagageira do carro e despedem-se com um aceno, pedindo desculpa pelo incómodo.

Uma tempestade de areia engole a auto-estrada e a noite já cai quando chegamos a Kandahar, o local de nascimento dos talibãs. No ano passado, a segurança melhorou “e nenhum afegâni foi roubado”, garante Gulalai, um vendedor de gelado no grande bazar, referindo-se à moeda oficial do país. “Saudamos o seu regresso.” Várias lojas abaixo, o vendedor de tecidos Sabor Sabori tem uma opinião diferente, afirmando que a lei e a ordem melhoraram, mas com uma contrapartida: já não é possível exprimir-se livremente.

“Estejam felizes ou infelizes, dizem que estão felizes”, resume.

Perto do centro da cidade, a sepultura de Abdul Raziq, um temível comandante da polícia apoiado pelos EUA e inimigo figadal dos talibãs, foi ocultada por muros altos. No auge do seu poder, governou Kandahar como feudo pessoal, enchendo os bolsos com as receitas aduaneiras enquanto os agentes da polícia extorquiam dinheiro aos comerciantes e os seus sequazes torturavam, alegadamente, pessoas e faziam-nas desaparecer. Grupos defensores dos direitos humanos reuniram provas de que os talibãs cometeram homicídios por vingança contra as forças do antigo governo e alguns dos casos mais flagrantes registaram-se em Spin Boldak, terra natal dos antepassados de Raziq.

Uma fila com seis quilómetros de coloridas carrinhas vazias aguarda oportunidade para atravessar a fronteira em Spin Boldak e regressar ao Paquistão. A devastada economia afegã depende das importações: 12 toneladas e meia de carga comercial passam todos os dias nesta fronteira, juntamente com as caravanas de ajuda humanitária da ONU que se dirigem às províncias mais longínquas.

Com a tomada do poder pelos talibãs, registou-se um êxodo humano para o Paquistão e o Irão. Para travar esta sangria de cérebros, os talibãs decretaram no passado mês de Fevereiro que os afegãos sem documentos de viagem não poderiam sair do país sem uma licença especial.

Menos de dois quilómetros para lá dos limites da cidade de Kandahar, os campos de papoila-dormideira irrompem junto da auto-estrada. As flores são vistosas, seduzindo-nos por todos os lados.

papoila afeganistão

Província de Helmand: Trabalhadores sazonais colhem papoila-dormideira ao longo da Auto-Estrada 1, perto da cidade de Gereshk. Poucos dias depois, em Abril, os talibãs proibiram o cultivo, venda e consumo desta planta.

A cultura da papoila-dormideira foi proibida nos últimos dois anos do primeiro governo talibã: mais tarde, os talibãs oneraram com impostos a venda de ópio e de heroína nas regiões que controlavam durante a ocupação norte-americana. De acordo com as Nações Unidas, no ano passado o Afeganistão foi o maior produtor mundial de ópio, gerando 6.800 toneladas, com um possível valor de mercado de 2.660 milhões de dólares – cerca de 10% do Produto Interno Bruto do país. Precisando desesperadamente de aliviar a crise económica, este ano os talibãs tiveram de escolher entre a repressão dos habitantes pobres do mundo rural ou a ignorância voluntária do problema.

Caminho pelo meio de um campo e inspiro o cheiro enjoativamente doce da seiva da papoila a secar ao sol. Ali Jan, de 36 anos, raspa os bolbos com um instrumento próprio para o efeito, tal como faz desde a adolescência. Ganha cerca de cinco euros por dia. “Se houvesse outro trabalho, deixaríamos o negócio do ópio”, afirma.

Com o antigo governo, era obrigado a pagar “luvas” às autoridades locais. Até ao momento, os talibãs não têm interferido, mas correm boatos de que irão impor uma proibição após a safra: isso permite-lhes cobrar impostos agora e, mais tarde, obter favores dos países ocidentais desejosos de travar o fluxo da heroína. Apesar de os EUA terem investido 8.489 milhões de euros no combate aos narcóticos, a cultura da papoila do ópio cresceu durante a guerra.

Os campos de papoila multiplicam-se ao longo da estrada de terra que se dirige para Sangi Sar. Este povoado agrícola nada tem de admirável, com excepção do facto de ter sido aqui que Mullah Mohammad Omar, um veterano zarolho da luta dos mujahedin da década de 1980, fundou os talibãs na década de 1990. Enquanto os comandantes rivais matavam e roubavam, durante a guerra civil que eclodiu após a retirada soviética, Omar criou um grupo de seguidores, estudantes fundamentalistas religiosos conhecidos como talibs, que conquistaram todo o país, com excepção de alguns nichos, em 1996.

Omar fugiu para o Paquistão quando os EUA invadiram o Afeganistão, morrendo de doença em 2013. A sua antiga casa de aldeia sofreu bombardeamentos, mas a mesquita onde era imã foi reconstruída. Um antigo camarada de armas, Abdul Majid, conta-me que Omar “tinha a convicção de que, quer morresse ou sobrevivesse, o emirado [islâmico] acabaria um dia por prevalecer. E referia-se assim aos norte-americanos: ‘Vocês são o país mais poderoso do mundo e, daqui a 20 anos, hão-de ser o mais fraco.’”

Em Lashkar Gah, capital da província de Helmand, contactamos um talib chamado Rozi Billal, que conhecemos meses antes em Cabul. Devido à sua atitude bem-disposta e gosto pelas redes sociais, eu partira do princípio de que ele seria ligeiramente progressista. Enganei-me.

Enquanto seguimos por uma estrada esburacada, junto do rio Helmand, Billal, de 28 anos, conta-nos que, no início, se voluntariou como bombista suicida por se sentir ultrajado pelos ataques e raides aéreos lançados pelos EUA. Os dirigentes talibãs consideraram-no demasiado inteligente para se sacrificar e confiaram-lhe a missão de ser ele a treinar os bombistas. Durante 12 anos, levou uma vida dupla como militante e estudante universitário a tempo parcial. A co-educação pouco fez para moderar os seus valores conservadores. Actualmente professor, continua a insistir que as mulheres devem ser separadas.

talibãs

Raparigas acotovelam-se numa escola comunitária financiada por uma instituição estrangeira na província de Wardak. Estas escolas foram fundadas em zonas rurais controladas pelos talibãs antes de este grupo reconquistar o poder em 2021 e eram, frequentemente, a única oferta de ensino. O decréscimo da ajuda internacional e a proibição do acesso das raparigas ao ensino põem em risco o futuro destas escolas.

“As mulheres são uma distracção”, afirma, acrescentando que, uma vez, ordenou que uma estudante obstinada fosse retirada da sua sala de aulas por tentar estudar com os homens.

Herat, a terceira maior cidade do Afeganistão, com mais de meio milhão de habitantes, é um antigo entreposto comercial que partilha laços culturais com o Irão, localizado apenas a 120 quilómetros a oeste. A velha cidadela quatrocentista foi restaurada na década de 2000 e a cidade conserva uma aparência de prosperidade.

No entanto, nos territórios a norte de Herat, reina a miséria. Há informações generalizadas de pais que vendem as filhas, obrigando-as a casarem-se muito novas, e a venda de rins para transplantes está a aumentar. Em Dazwari, uma aldeia nas terras altas perto da fronteira com o Turquemenistão, os moradores têm dependido do abastecimento de víveres por parte do USAID e da ONU, uma vez que a seca reduziu a menos de metade a safra de trigo e dizimou as ovelhas. Aqui, uma em cada três crianças sofre de subnutrição, afirma o líder comunitário Arbab Nader. “O governo [talibã] nada faz por nós.”

Numa casa de adobe, com uma única divisão, Ma Bibi tece tapetes sete dias por semana para sustentar os seus cinco filhos, ganhando 24 euros pelo trabalho de dois meses. A sua filha de 10 anos, Xarifa, labuta agora a seu lado. “Eu queria ser professora, mas isso agora já não é possível”, diz a rapariga, exprimindo resignação.

Na província de Badghis, acampamentos improvisados de deslocados erguem-se dos dois lados da auto-estrada, aguardando as entregas da ajuda humanitária que deixaram de chegar. O piso da estrada vai-se esboroando, transformando-se em manchas de terra, até desaparecer.

Num posto de controlo isolado em Darah-ye Bum, um guarda talibã diverte-se quando lhe digo que vamos de automóvel até Maimanah, na província de Faryab, a maior cidade mais próxima, 235 quilómetros a nordeste. Começamos a subir uma estrada íngreme e um rapaz corre na nossa direcção para nos avisar que é demasiado perigoso, redireccionando-nos para o leito de um rio. Verifico no mapa e este confirma que ainda estamos na Auto-Estrada 1. 

O leito do rio é a estrada.

Saio várias vezes do carro para tirar pedras do caminho e podermos seguir viagem. Durante o resto do dia, avançamos penosamente, a uma média de três quilómetros por hora, sem qualquer viatura à vista. Já anoiteceu quando alcançamos Bala Murghab, uma vila formada por ruínas enegrecidas pelo fogo.

Um lojista deixa-nos dormir no chão da sua loja, mas quase não conseguimos descansar.

O caminho para Maimanah não acompanha a estrada e somos obrigados a seguir um táxi, antes da alvorada, para não nos perdermos. Não nos resta outra hipótese senão continuarmos a seguir os faróis traseiros do táxi e, nervosos e cheios de medo, avançarmos ao longo das subidas e descidas.

Quando o piso da estrada finalmente reaparece, passadas cinco horas de viagem, é como se estivéssemos a emergir de um sonho. “A Circular Rodoviária é um mito”, digo em voz alta, interrogando-me sobre quantas pessoas terão percorrido o circuito na sua totalidade. Apesar de todas as reivindicações dos cartógrafos e dos responsáveis pelo planeamento militar, a famosa auto-estrada do Afeganistão é mais um projecto sobrevalorizado de construção nacional que ficou por concluir.

O trajecto suave e sonolento até Shibirghan, capital da província de Jowzjan, é um alívio bem-vindo. Passamos pelo desvio para Dasht-e Leili, onde, em finais de 2001, cerca de dois mil combatentes talibãs capturados pelo senhor da guerra usbeque Abdul Rashid Dostum morreram sufocados dentro de contentores de transporte marítimo e foram despejados em valas comuns. Dostum viria a ser o primeiro vice-presidente do Afeganistão e, mais tarde, marechal das Forças Armadas afegãs, reinando como senhor absoluto sobre Jowzjan ao longo das duas últimas décadas e levando uma vida de luxo em residências palacianas por todo o Afeganistão e no estrangeiro.

Um enérgico funcionário dos serviços de informação talibã comunica-nos que a nossa viagem de automóvel passou por uma sepultura colectiva recentemente descoberta. Balkhi cancela um compromisso para nos mostrar o local. Ajoelha-se e começa a escavar com as próprias mãos, desenterrando maxilares, fémures e pedaços de roupa. Ele jura que o novo regime há-de fazer justiça.

No edifício bombardeado do tribunal provincial, cada queixoso apresenta o seu caso perante clérigos de turbante. Ahmad Javed, de 39 anos, perito em tecnologias de informação, afirma que os sequazes de Dostum se apropriaram da sua terra.

talibãs

Província de Jowzjan: Um tribunal talibã, em Shibirghan, ouve o depoimento de um homem acusado de vender bebidas alcoólicas. A venda já era ilegal no regime anterior, mas os talibãs reforçaram a aplicação da lei.

“Espancaram-me e partiram-me a mão esquerda”, conta. “Sinto-me feliz por o emirado ter chegado: agora respeita-se a lei de Alá e não a vontade dos homens fortes.”

No tempo da primeira administração talibã, a justiça foi aplicada de forma sumária e brutal: enforcamentos por homicídio e violação, amputações por roubo. Mufti Zahed, presidente do Supremo Tribunal de Jowzjan, afirma que a pena de morte e os desmembramentos voltarão a ser aplicados, embora ainda não os tenha ordenado.

Nesse mesmo dia, os talibãs anunciaram uma proibição do cultivo, consumo e venda de ópio. Com os activos do Estado congelados e escasso reconhecimento diplomático, os talibãs parecem estar a tentar conquistar os favores da comunidade internacional.

Mawlawi Gul Mohammad Saleem, governador-adjunto de Jowzjan, reconhece que “houve problemas” durante o último regime talibã, mas diz que os líderes do movimento viajaram pelo mundo e querem agora estabelecer relações globais. Segundo estimativa dos geólogos norte-americanos, o Afeganistão possui cerca de um bilião de euros em recursos minerais por explorar – seria suficiente para retirar milhões de pessoas da pobreza, se os estrangeiros investissem em infra-estruturas.

A derradeira etapa da nossa viagem é o túnel de Salang, com 2,7 quilómetros de comprimento, atravessando o Indocuche, a cordilheira montanhosa que separa o Norte do país de Cabul. Este arrojado projecto da engenharia soviética foi concebido para assegurar o trânsito de mil veículos por dia aquando da sua inauguração em 1964. Entretanto, a passagem deteriorou-se, transformando-se numa conduta lamacenta e esburacada, asfixiada por fumos de escape, que chega a ser diariamente cruzada por nove mil viaturas.

A boca do túnel vomita fumo quando lá entramos. A visibilidade cai para zero. Após aquilo que, mais tarde, parece ter sido uma eternidade, emergimos e encostamos na berma para respirar ar puro. Ainda nos falta um desvio: até ao vale de Panjshir, o lendário bastião de resistência que nem o exército soviético nem o governo talibã conseguiram domesticar. Panjshir resistiu mais uma vez enquanto todas as outras províncias sucumbiam rapidamente, uma após a outra, no Verão de 2021, mas os combatentes talibãs conseguiram finalmente romper o seu mito de impenetrabilidade.

O ambiente é sombrio neste bastião de animosidade antitalibã. “Talvez restem cinco em cada cem famílias que aqui viviam”, diz Habibullah, dono de uma padaria na aldeia de Unabah. “Só ficaram as que não tinham dinheiro.” Uma em cada duas lojas tem as portas fechadas. “A escuridão reina por todo o lado”, diz este homem.

Aquilo que resta da resistência de Panjshir refugiou-se nas montanhas. Por ora, porém, a resistência é sobretudo simbólica.

Quando chegamos a Cabul, uma enorme bandeira dos talibãs esvoaça sobre a colina de Wazir Akbar Khan, um parque no centro da cidade. Em qualquer reunião que aqui aconteça sente-se o ambiente turbulento de um encontro familiar, mas sem mulheres à vista. Combatentes de todo o país riem-se e tiram fotografia.

No entanto, a transição dos talibãs de movimento guerrilheiro para governo está a esgotar a paciência dos afegãos. Novos decretos vão restringindo as liberdades individuais e da imprensa e o país encontra-se, em grande medida, isolado das trocas comerciais e da ajuda humanitária, precipitando a economia em queda livre.

“Passámos a vida inteira em conflito. Por isso, consigo prever o futuro”, diz Abdul Khaliq, um operário que viveu a invasão soviética, a guerra civil e a campanha dirigida pelos EUA. “Este país não será reconstruído nos próximos 50 anos.”

No nosso último dia, regressamos de carro a Shaykhabad, para uma visita à médica Wardak. O seu fatalismo foi substituído por uma atitude de desafio. Agora, oferece cadernos e esferográficas a uma escola para raparigas, de base comunitária.

Num complexo privado, a quilómetros de distância de qualquer estrada asfaltada, as raparigas, algumas das quais com apenas 6 anos, debitam em voz alta factos sobre o aparelho circulatório. Wardak queixa-se de que a qualidade do ensino não é boa – não há testes, os manuais são poucos – mas pelo menos as raparigas estão a aprender algo.

De volta a casa, Wardak tem algo para nos mostrar: um edifício de pedra escondido, com um terraço vazio. “Se os talibãs não deixarem as raparigas regressar à escola, vou construir uma aqui”, promete. “Decidi ficar e resistir como puder. É esse o meu dever, enquanto mulher com formação académica. Da próxima vez que aqui vierem, este lugar estará cheio de vozes maravilhosas.”