O bairro de Alfama, em Lisboa, mantém há séculos o mesmo traçado e muito do edificado precede o grande terramoto de 1755, mas o perfil sociodemográfico daqueles que ali habitam mudou radicalmente nas últimas décadas. É fácil para quem hoje percorre estas ruas e vielas esquecer como era a vida neste e noutros bairros populares há um século.

Na primeira metade do século XX, graças aos progressos da medicina e à melhoria dos sistemas de saneamento e práticas de higiene, registou-se uma expressiva redução da mortalidade infantil e do aumento da esperança média de vida. Mesmo assim, no início da década de 1960, por cada 1.000 crianças com menos de um ano morriam em Portugal cerca de 80. Hoje, esse valor fica abaixo de três.

No acervo de Joshua Benoliel, o pai do fotojornalismo português, encontram-se testemunhos vívidos da vida na transição para o século XX em bairros como o de Alfama. As crianças andrajosas e descalças que conseguiam fintar as estatísticas sorriam para a então misteriosa câmara do fotógrafo.

No início da década de 1960, por cada 1.000 crianças com menos de um ano morriam em Portugal cerca de 80.

Como hoje, as vítimas de antanho, não se distribuíam uniformemente por todas as classes, mas isso não significava que nem as famílias mais abastadas eram poupadas à tragédia de ver partir precocemente crianças das suas famílias. A última década do século XIX foi traumática para a nação. Rafael Bordalo Pinheiro parodiava com o seu humor mordaz o complexo tabuleiro de xadrez geopolítico que conduziu ao Ultimato britânico de 1890 contra as possessões portuguesas em África e, num tom mais lúgubre, o político, jornalista e poeta Guerra Junqueiro publicava um volume com o eloquente título Finis Patriae.

Tragédia inicial

Face à crise social e de regime que marcava o início do século XX em Portugal, a vida seria certamente penosa para os mais vulneráveis. Nesses anos tumultuosos que precederam o regicídio e posteriormente a Implantação da República, o militar Rodrigo António d’Aboim Ascensão viu em 1899 partir o seu filho Manuel ainda antes de completar um ano. O acontecimento abalou severamente o militar e a sua mulher, Olímpia Covacich D’Arrábida Lamas.

A missão de um homem
MUSEU DO LACTÁRIO

Rodrigo António d’Aboim Ascenção nasceu em Faro em 1859, no seio de uma família abastada. Concluiu com distinção o curso do Colégio Militar, seguindo depois para a Escola do Exército na arma de Cavalaria. Serviu ainda durante muitos anos na Guarda Fiscal.

No ano seguinte, o então capitão visitou a Exposição Universal de Paris e encontrou em exibição bebés recém-nascidos dentro daquilo que à época era uma novidade tecnológica absoluta: as couveuses d’enfants tinham sido patenteadas quatro anos antes e, no seu interior, os bebés frágeis eram mantidos em condições de temperatura e humidade óptimas e estavam mais protegidos de agentes patogénicos. As creadeiras, ou como hoje lhes chamamos incubadoras, devem ter fascinado Aboim Ascensão. Inspirado no modelo francês das gouttes-de-lait, o militar fundou, logo em 1901, a Associação Protectora da Primeira Infância de Lisboa e, em 1903, adquiriu as primeiras incubadoras.

Com funções no comando da Companhia de Cavalaria da Guarda Fiscal, junto de Alfama, cruzava-se quotidianamente com a pobreza das famílias do bairro vítimas das carências mais elementares. Para a capital, que entrava tardiamente num processo de industrialização, convergia um expressivo êxodo rural. Em poucos anos, a população da cidade duplicou e muitos aspirantes a operários viviam na miséria. Esta realidade terá sido instrumental para que rapidamente o militar se entregasse de corpo e alma a um projecto pioneiro no país. 

Inaugurado em 2019, o museu do Lactário
ALEXANDRE VAZ

As visitas ao Museu do Lactário – que recupera a história secular da instituição a uns passos da Estação Ferroviária de lISBOA - Santa Apolónia – são guiadas e estão sujeitas a marcação prévia, através do e-mail museudolactario@fasl.org.pt ou do telefone 218 861 760. 

O projecto visionário à época não foi entregue a um desconhecido. O arquitecto Miguel Ventura Terra tinha estudado e trabalhado em Paris e, depois de regressar a Portugal, abraçou a ambiciosa proposta de Aboim Ascensão. O Lactário de Lisboa foi inaugurado em 1903 e, nesse mesmo ano, Ventura Terra, que ofereceu o projecto do lactário à Associação, foi galardoado na segunda edição do prestigiado Prémio Valmor com um edifício no número 57 da Rua Alexandre Herculano em Lisboa.

Sem prejuízo da excelência arquitectónica, os factores que mais se destacavam no projecto do Lactário não eram as suas formas, mas sim o sentido de missão a que a obra se propunha. 

Apesar do nome, a instituição não se limitava à distribuição de leite de qualidade controlada a lactentes, pois abrangia também o apoio pediátrico e social. O sucesso da iniciativa foi proporcional ao número de necessitados que orbitavam em redor da zona ribeirinha, onde então se concentrava a actividade fabril e portuária. No final da década de 1920, apesar da mudança de regime e das convulsões sociais, a rede de postos de distribuição de leite já se estendia de Alcântara ao Beato e, em muitos aspectos, constituía a verdadeira assistência social na cidade.

Ciência e superstição

Uma das virtudes da iniciativa foi a sua capacidade de persistir obstinadamente no desempenho de uma missão de indiscutível relevo ao longo de décadas e atravessando a Monarquia, a Primeira República, o Estado Novo e a Democracia. Entre 1903 e 2006, o Lactário distribuiu quatro milhões de litros de leite a mais de 16 mil crianças às quais foram realizadas cerca de cem mil consultas pediátricas.

Baixo-Relevo
ALEXANDRE VAZ

No pedestal do busto do fundador, foi esculpido este baixo-relevo, homenageando a função social da instituição.

É impossível calcular o número de vidas que a instituição e o seu Lactário terão ajudado a salvar, mas o seu legado transcendeu a entrega de leite, o apoio social e a prestação de cuidados pediátricos. A instituição foi pioneira em Portugal na prestação de cuidados neonatais e desempenhou um importante papel no combate a superstições perniciosas, promovendo uma abordagem moderna da puericultura.

Entre 1903 e 2006, o Lactário distribuiu quatro milhões de litros de leite a mais de 16 mil crianças.

Um volume assinado pelo médico Clemente Edmundo de Morais Sarmento, que serviu durante 30 anos aquela obra social, foi publicado pouco depois da sua morte, em 1957. A edição do Lactário compilou e desconstruiu uma lista destes presságios populares organizada pelas diferentes regiões do país.

À distância, muitos destes ditados parecem disparatados e até divertidos, mas seria ingénuo assumir que as crenças e a pseudociência, que podem interferir com os cuidados parentais e com o superior interesse das crianças, se perderam no século passado. Para explicar a diarreia infantil, atribuía-se a causa à circunstância de a roupa da criança ter sido estendida sobre a erva. O diagnóstico recomendado ditava que se abandonassem os cueiros sujos no telhado. As crianças também não deveriam ser colocadas em frente de um espelho, porque isso alegadamente lhes atrasaria a fala. A lista é longa e, se algumas ideias eram absolutamente inócuas, outras poderiam contribuir para agravar situações de saúde. Não é naturalmente esta instituição e o seu Lactário que explicam sozinhos a drástica redução da mortalidade infantil à escala nacional, mas foram sem dúvida estes e outros contributos que permitiram que, num século, Portugal deixasse de ser um dos países da Europa com taxa de mortalidade infantil mais elevada, registando agora uma das taxas mais baixas do planeta.

Rodrigo António d’ Aboim Ascensão morreu em 1930 e a mulher faleceu três anos depois, mas a obra de medicina social que criaram não se extinguiu com o seu desaparecimento e manteve-se na vanguarda da prestação de cuidados pediátricos até surpreendentemente tarde. A filha do casal era apaixonada por poesia e manteve-se envolvida na vida da instituição, tendo compilado uma antologia poética consagrada à primeira infância.

Portugal regista hoje uma das taxas de mortalidade infantil mais baixas do planeta.

Sucesso Confirmado
ALEXANDRE VAZ

A galeria representa bebés, já saudáveis e robustos, no momento da “alta hospitalar”.

Maria da Piedade foi ainda entusiasta dinamizadora do projecto O Enxoval do Lactente. No espólio do Museu do Lactário, inaugurado em 2019 incluem-se peças destes enxovais, entre muitos outros objectos de ciência e técnica, de pintura, escultura, azulejaria, fotografia e documentação arquivística que ajudam a compreender a missão deste equipamento na transição para o século XX.

De Lisboa para Faro

A musealização do espaço não ditou o fim da missão da instituição. A distribuição de leite terminou em 2006 e uma das grandes particularidades deste projecto foi o controlo absoluto de toda a fileira produtiva. Poucos terão consciência de que uma vacaria se manteve em laboração no coração de Alfama até aos primeiros anos do século XXI. Hoje, neste espaço, paredes-meias com o Museu, a instituição mantém um infantário que continua a prestar apoio à comunidade do bairro. Apesar da singularidade e pioneirismo desta iniciativa lisboeta, o alcance da obra de Aboim Ascensão foi maior e estendeu-se a Faro, a sua terra natal, onde um refúgio criado por sua vontade e pelo seu sobrinho o homenageia no seu nome.

De Paris a Alfama
ARCHEOFACTU

A exposição universal de 1900 foi um acontecimento sem precedentes. Mais de 50 milhões de pessoas visitaram o recinto. Entre as novidades em exibição, Aboim Ascensão descobriu as incubadoras desenvolvidas para bebés de baixo peso e outras vulnerabilidades. Adquiriu quatro unidades. Uma das incubadoras originais compradas em França.

Na transição para o século XX, a mortalidade infantil era avassaladora, mas a elevada natalidade compensava a curva demográfica do país. Hoje, esses números inverteram-se, mas o desafio de mantermos sistemas de saúde eficazes mantém-se tão actual como em 1903.

Artigo publicado originalmente na edição nº 14 da revista História National Geographic.