Editorial

É curioso o efeito do tempo sobre as obras de arte e os artistas. A passagem das décadas tanto pode transformar um génio do seu tempo num autor esquecido como pode celebrar mais tarde talentos ostracizados. Tomemos o exemplo de Guernica, a famosa obra de Pablo Picasso apresentada pela primeira vez na Exposição Mundial de 1937, em Paris. O contexto da obra (um comentário feroz sobre o bombardeamento do povoado basco durante a Guerra Civil Espanhola) não foi imediato para os milhares de visitantes que acorreram à Cidade-Luz no Verão de 1937. A codificação implícita às figuras de Picasso, o desconhecimento do próprio massacre e os aliciantes dos restantes pavilhões da exposição explicam esse ostracismo.

Na imprensa portuguesa (antes ainda de o governo republicano espanhol celebrar o quadro como uma alegoria à violência, o que o tornou tóxico para o regime português, afecto naturalmente aos insurrectos nacionalistas), Guernica passou em claro. Artur Portela, notável jornalista e crítico cultural do Diário de Lisboa, remeteu treze crónicas de Paris e não encontrou oportunidade para se referir ao quadro mais famoso do século XX. Celebrou os diamantes congoleses do Pavilhão da Bélgica, a singeleza do Pavilhão de Portugal, a recuperação de César no Pavilhão de Itália e a luta simbólica travada em Paris entre os programas ideológicos da Alemanha nazi e da Rússia comunista, mas, de Picasso, nada se lhe ofereceu dizer. Portela já estivera em Espanha, cobrindo os horrores da Guerra Civil para o seu jornal de sempre, pelo que não é crível que tivesse ignorado o poder da alegoria de Picasso. Pelo contrário. Deve tê-lo percebido e compreendeu que uma obra de arte também é o produto do seu contexto político e, no Portugal de 1937 (onde um grupo de anarquistas acabara de atentar contra a vida de Salazar), apreciar uma obra-prima implicava escolher um lado da barricada.

Estaremos assim tão longe desse tempo?

Índice

Pornografia no convento: Nas escavações do Convento de Santana, em Lisboa, foi encontrada uma taça de porcelana chinesa com cinco cenas eróticas.

Pancho Villa: A revolução mexicana de 1910 transformou Pancho Villa, até então um simples ladrão de gado, num carismático líder seguido por dezenas de milhares de soldados.

O Lactário de Lisboa: Não existia nada idêntico na cidade ou no país, mas um projecto pioneiro no início do século XX transformou os cuidados de saúde infantil.

O resgate dos templos da Núbia: Em 1961, a UNESCO fez um apelo para salvar o património arqueológico do Egipto e do Sudão face ao risco de submersão gerado pela construção da nova barragem de Assuão.

Nabucodonosor: A Bíblia e os historiadores da Antiguidade apresentam Nabucodonosor II como um conquistador implacável e um grande construtor, mas o que existe de concreto sobre este rei babilónio e que papel jogaram o mito e a lenda na sua celebrização? Sob este rei, Babilónia viveu a sua fase dourada. 

O túmulo de Gengis Khan: Onde repousa Gengis Khan? Depois da sua morte, o paradeiro dos restos mortais do maior conquistador da história ainda é um mistério envolto nas brumas da lenda. 

Savonarola: Desde a sua chegada a Florença em 1490, este frade dominicano galvanizou o povo com as suas denúncias de corrupção e profecias. Oito anos mais tarde, foi queimado na fogueira. 

A restauração da independência: Circunstâncias especiais marcaram a subordinação portuguesa a um rei espanhol em 1580. Circunstâncias especiais permitiram a consolidação da restauração, sessenta anos mais tarde. Nesta edição, contamos-lhe a história de um período atribulado na Península Ibérica, que durou mais de duas décadas, até à normalização das relações diplomáticas. 

Arranha-céus: No início do século XX, Nova Iorque foi cenário de uma vertiginosa corrida de construção. Desde então, os arranha-céus forjaram o mito da grande metrópole do nosso tempo. 

Guernica: A notícia da destruição de Guernica pelas bombas da aviação fascista desencadeou em Picasso um impulso criativo do qual emergiu uma das obras-primas da pintura ocidental. 

Sarah Bernhardt: Há um século, faleceu em Paris a actriz mais famosa da história, a Divina Sarah Bernhardt.

Boas leituras!