No início de Outubro de 2023, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomendou a administração em crianças de uma nova vacina contra a malária, conhecida como R21 / Matrix-M. Quatro meses depois, um relatório publicado na revista Lancet apresenta os resultados da segurança e da eficácia desta vacina num ensaio de fase 3 que envolveu mais de 4.800 crianças em quatro países (Burkina Faso, Quénia, Mali e Tanzânia), seguidas até 18 meses em áreas de malária sazonal e 12 meses em áreas de malária regular.

Os resultados são animadores: a toma desta vacina levou a uma diminuição significativa dos episódios sintomáticos da doença em 68-75% ao longo do ano após a sua administração. 

Os investigadores responsáveis por esta descoberta afirmam que o custo da vacina será acessível, prometendo também um alívio considerável da dor e do número de mortes causadas pela malária na África subsariana.

Os resultados do estudo de fase 3 constituem, assim, um marco na luta contra esta doença devastadora que, em 2022, matou aproximadamente 608.000 pessoas em todo o mundo (mais exactamente em 85 países).

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Ilustração 3D das células sanguíneas, representando a infecção dos eritrócitos pelo Plasmodium, parasita unicelular protozoário. 

ELEVADA EFICÁCIA, com algumas reservas

Embora estejam a ser desenvolvidas várias vacinas contra a malária, ainda não foi encontrada uma solução de vacina que seja completa e definitivamente eficaz. A R21/ Matrix-M poderá finalmente acabar com este drama. De acordo com o relatório divulgado recentemente, esta teve uma elevada eficácia em áreas de malária sazonal, quando administrada imediatamente antes dos meses de chuva associados a uma elevada transmissão da infecção, mas também uma eficácia menor em locais de transmissão menos intensa e perene.

Falta ainda monitorizar a duração da eficácia desta vacina para avaliar melhor o seu impacto na saúde pública, bem como a sua eficácia em zonas de África onde a transmissão da malária é elevada e acontece durante todo o ano. 

O que é a R21 / Matrix-M, e porque é importante?

Tal como na vacina previamente existente – a RTS,S / Mosquirix, recomendada pela OMS há dois anos –, a R21 é uma vacina que combate o agente patogénico da forma mais mortal da malária, o protista unicelular Plamosdium falciparum, usando para isso proteínas expressas por este para treinar a resposta do sistema imunitário ao parasita.

Então, se têm formas de acção semelhantes (aliás, a R21 é uma versão modificada da RTS,S), porque foi tão importante esta aprovação da OMS? A resposta é simples: permitiu aumentar a produção em tempo útil, visto que a Mosquirix, embora esteja aprovada desde 2021, apenas projecta produzir 18 milhões de doses da vacina até 2025, o que constitui menos de 10% do que seria ideal.

O Serum Institute of India (um dos maiores produtores de vacinas do mundo), projecta, por sua vez, produzir mais de 100 milhões de doses anualmente, número com o potencial de alterar completamente a luta contra esta doença em África, onde mais de 260 mil crianças com menos de cinco anos morrem anualmente devido à mesma. Até à data, 25 milhões de doses foram fabricadas e estão prontas para serem distribuídas pelo Serum Institute of India nos próximos três a quatro meses, segundo a Universidade de Oxford, co-responsável desenvolvimento desta vacina

Além disso, o preço unitário estimado é de cerca de metade em relação à que está disponível neste momento, tornando assim o esforço financeiro necessário notavelmente menor. Esta margem é conseguida devido à sua maior potência em relação à previamente existente.

Porque é que a malária é um problema tão sério?

A malária – ou paludismo – é a doença mais devastadora da espécie humana, com a duvidosa honra de ser a doença mais mortal. É causada por um grupo de parasitas protistas do género Plasmodium, via mosquitos (principalmente do género Anopheles).

Das várias espécies que podem causar esta doença, o Plasmodium falciparum é de longe o mais perigoso, podendo levar à morte, se não se obtiver tratamento numas curtas 24 horas após os primeiros sintomas. É também esta a espécie mais prevalente no continente africano, sendo que, fora deste, a espécie mais comummente encontrada é Plasmodium vivax.

Esta situação, a somar à desadequação das infraestruturas de saúde na maior parte do continente, contribui para que África tenha cerca de 95% dos casos anuais de malária. Em Janeiro, Cabo Verde tornou-se, segundo a OMS, no terceiro país livre de malária no continente, depois da Argélia e da Maurícia, mas ainda há um longo caminho a percorrer até à sua erradicação. Importa lembrar, a propósito, que quase todas as mais de 600 mil mortes anuais derivadas desta doença ocorrem na África subsariana. 

Embora haja tratamento, e este diminua a mortalidade e o desenvolvimento de doença grave, a existência destas vacinas (e, claro, a capacidade de as levar até quem delas necessita) é uma peça fundamental no combate à malária.

Actualmente, mais de 800 milhões de pessoas são afectadas por esta doença todos os anos, em resultado da picada de mosquitos fêmeas pertencentes ao género Anopheles. Quando o agente patogénico da malária entra na corrente sanguínea, inicia um ataque dirigido ao fígado, a partir do qual orquestra uma estratégia de invasão e multiplicação no organismo hospedeiro.

A malária causa uma morte a cada trinta segundos, sendo que as crianças com menos de cinco anos de idade representam 75% das vítimas. Ao contrário de outras doenças, como a febre amarela, a malária ataca sobretudo os mais jovens e aqueles cujo sistema imunitário é mais vulnerável.