A maioria das pessoas têm alguns bens com valor sentimental dos quais têm dificuldades em desfazer-se. Já as pessoas com transtorno de acumulação – cerca de uma em cada 40 nos EUA, por exemplo – sentem-se compelidas a guardar a maioria dos seus pertences, mesmo quando fazê-lo significa viverem num ambiente atafulhado de coisas, diminuindo a sua qualidade de vida e pondo em risco a sua segurança devido ao aumento do risco de incêndios, infestações de bolor ou roedores... ou até de se magoarem. “Já morreram pessoas com transtorno de acumulação atingidas por objectos que caíram nas suas casas”, diz Brad Schmidt, professor com distinção e investigador de psicologia na Florida State University, nos EUA.

Embora existam alguns tratamentos para o transtorno de acumulação, os especialistas dizem que são necessários tratamentos novos. Cientistas da Universidade de Stanford estão actualmente a explorar uma nova estratégia que recorre a tecnologia de realidade virtual (RV) para ajudar os indivíduos com transtorno de acumulação a sentirem os benefícios de viver sem tralha. “Este é o primeiro estudo que permite aos pacientes com transtorno de acumulação experimentarem libertar-se de objectos por eles valorizados em simulações das suas próprias casas”, diz Carolyn Rodriguez, professora de psiquiatria e ciências comportamentais na Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford e autora principal do estudo.

um estudo piloto

O recente estudo piloto, publicado no Journal of Psychiatric Research, mostra que a psicoterapia complementada por um headset de realidade virtual e comandos manuais pode ajudar as pessoas que acumulam a tentarem desfazerem-se dos seus bens utilizando uma simulação da sua casa antes de a destralharem na vida real.

“Sabemos que o cerne do transtorno de acumulação envolve uma ligação aos objectos e a dificuldade em desfazer-se das coisas, por isso praticar este acto é um dos tratamentos utilizados nesta investigação”, diz Rodriguez.

O estudo foi realizado ao longo de 16 semanas e permitiu aos seus participantes – todos eles diagnosticados com transtorno de acumulação – entrarem em modelos virtuais das suas casas para experimentarem escolher e deitar fora objectos aos quais se sentiam afeiçoados. A disposição virtual das suas casas e objectos foi criada recorrendo a fotografias que foram carregadas numa simulação tridimensional, para que os objectos fossem conhecidos e valorizados por cada participante antes de tentarem deitá-los fora. Rodriguez diz que “78 por cento dos participantes apercebeu-se de que a realidade virtual os ajudou a deitar mais coisas fora na vida real”.

Estes resultados são promissores, sobretudo tendo em conta que os participantes do estudo tinham idades compreendidas entre os 60 e os 73 anos – a faixa etária na qual a acumulação é mais comum. Embora cerca de 2,6 por cento da população costume debater-se com este transtorno, a sua prevalência pode ser de “até 6 por cento” nos indivíduos mais velhos, diz Randy Frost, professor emérito de psicologia de Smith College e co-autor do livro Stuff: Compulsive Hoarding and the Meaning of Things

dando continuidade a estudos anteriores

O estudo de Stanford tem por base um trabalho prévio da Universidade de Chicago, publicado em 2020, que demonstrou que os indivíduos que se debatiam com transtorno de acumulação se tinham sentido motivados a ter um ambiente limpo depois de utilizarem uma simulação de realidade virtual na qual a tralha fora removida. A investigação de Stanford é única, porém, pois dirigiu-se especificamente a idosos e permitiu que os participantes contribuíssem no processo de limpeza – um passo essencial para se separarem sentimentalmente de cada objecto. “Precisamos de ferramentas criativas para ajudar as pessoas com transtorno de acumulação, uma vez que elas hesitam frequentemente em procurar ajuda ou manter os tratamentos devido à ansiedade”, diz Gregory Chasson, professor associado de psiquiatria e neurociência comportamental da Universidade de Chicago e autor principal do estudo de 2020. Segundo ele, esta nova investigação de Stanford “apresenta resultados promissores com uma ferramenta tão criativa: a realidade virtual”.

A tecnologia também poderá ser útil para estabelecer ligações mais práticas entre os pacientes com transtorno de acumulação e os profissionais de saúde mental. Por exemplo, muitos protocolos existentes para o transtorno de acumulação incluem visitas ao domicílio pelo terapeuta, que motivam e ajudam o paciente a desfazer-se dos objectos.

Esta assistência in loco“é frequentemente impossibilitada por restrições relacionadas com a mobilidade dos terapeutas ou a reticência dos pacientes em deixarem pessoas entrar na sua casa”, explica Frost. “Os tratamentos virtuais eliminam estas dificuldades e representam um avanço significativo na nossa capacidade de tratar este transtorno complicado”.

Um transtorno debilitante

O transtorno de acumulação é uma condição insuficientemente diagnosticada e insuficientemente tratada que só foi considerada um transtorno psiquiátrico em 2013. “O transtorno de acumulação é muito mais comum do que se pensava”, diz Frost. Uma das razões pelas quais não foi reconhecido durante tanto tempo foi “a tendência das pessoas que se debatem com transtorno de acumulação para serem relutantes na procura de tratamento”, diz Marla Deibler, psicóloga clínica sediada em Princeton, Nova Jérsia, especialista no tratamento do transtorno de acumulação. Estes indivíduos podem sentir-se envergonhados pelo seu comportamento e alguns não reconhecem que têm um problema até os membros da sua família se envolverem no assunto. “As pessoas que não acham que têm um problema de acumulação podem não se sentir mal, mas as pessoas que vivem com elas, ou perto delas, podem sofrer”, diz Gail Steketee, reitora emérita da escola de assistência social da Universidade de Boston University e co-autora de Hoarding: What Everyone Needs to Know.

Um dos sinais de que a acumulação de objectos se tornou problemática é quando começa a dificultar a vida de um indivíduo ou impede divisões de serem utilizadas para o seu fim. Por exemplo, objectos empilhados em bancadas de cozinhas, impedindo a preparação de refeições em condições de higiene, ou objectos acumulados em cima das camas ou nos quartos, prejudicando a qualidade do sono. “As dificuldades também podem manifestar-se nas relações, por exemplo quando uma mulher deixa o marido porque já não consegue viver com a sua tralha”, acrescenta Chasson.

Onde procurar ajuda

Embora os dispositivos de realidade virtual ainda estejam em fase de desenvolvimento, as boas notícias são que os indivíduos que se debatem com transtorno de acumulação têm outras opções de tratamento disponíveis.

Um dos tratamentos mais estudados e comprovados para o transtorno de acumulação é a terapia cognitivo-comportamental – um tipo de psicoterapia em que um terapeuta segue um protocolo específico para mostrar a um paciente como melhorar o seu controlo sobre os seus impulsos, pensamentos e comportamentos. “O tratamento da terapia cognitivo-comportamental para o transtorno de acumulação não é fácil, mas um bom terapeuta, capaz de manter o paciente motivado, pode fazer uma grande diferença na sua vida”, diz Schmidt.

Existem outras formas de psicoterapia e workshops altamente estruturados para tratar o transtorno de acumulação que, segundo os especialistas, também são eficazes. Medidas preventivas, como controlar a aquisição de objectos para a casa, também pode ser útil. “Estudos demonstraram que um objecto que entra na casa de uma pessoa com transtorno de acumulação raramente é usado”, diz Frost. Os parentes das pessoas que acumulam também podem ser instrumentais para prevenir a entrada de mais objectos em casa e ajudar a pessoa a remover a tralha do seu espaço quando a acumulação se torna um problema.

Existem outras dicas, recursos e nomes de profissionais especializados no tratamento do transtorno de acumulação no website da International OCD Foundation. Deibler aconselha os indivíduos que se debatem com o transtorno “a terem paciência e compaixão por si próprios”. “Saiba que não está sozinho e que existe ajuda”.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.

Mais Sobre...
Saúde Mental