Embora seja completamente normal os organismos mudarem e nenhum alimento seja nocivo quando consumido em moderação, podemos interrogar-nos: Será que deveria experimentar uma destas limpezas mágicas? Será que funcionam?

A resposta, tal como quase tudo o que envolve o organismo, é complicada. Nenhum estudo de qualidade sugere quaisquer vantagens a longo prazo associadas às limpezas ou desintoxicações, diz Melissa Prest, nutricionista certificada e porta-voz da Academy of Nutrition and Dietetics. Algumas podem até ser nocivas, sobretudo quando realizadas sem supervisão médica.

Mesmo assim, algumas pessoas juram sentir-se melhorapós fazerem uma limpeza – com mais energia, melhor capacidade de raciocínio, menos inchaço. Prest diz que não é surpresa nenhuma: “Se uma pessoa que consuma muitos alimentos refinados, pouca fibra e uma quantidade mínima de fruta e legumes, substituir esses alimentos, mesmo em pequenas quantidades, por outros, ricos em nutrientes, é óbvio que vai sentir-se melhor.”

Algumas alterações à sua dieta podem ter benefícios a curto prazo, mas até essas têm contrapartidas consideráveis.

O que é uma limpeza?

Não existe uma definição específica de limpeza, mas Prest diz que costuma envolver restrições alimentares durante um curto período de tempo, com a intenção de desintoxicar o organismo – seja de subprodutos naturais como o ácido láctico ou agentes externos como o mercúrio presente no peixe ou outros poluentes.

Fazer uma limpeza pode implicar abdicar de lacticínios ou glúten durante um mês, fazer uma dieta líquida ou a base de sumos durante uma semana ou simplesmente jejuar. Até dietas como a Whole 30 ou a cetogénica (keto) podem ser consideradas limpezas. (As limpezas ao cólon também estão na moda, mas isso é outra história.)

No entanto, a Academy of Nutrition and Dietetics, a maior organização mundial de profissionais em nutrição e dietética, não recomenda a prática de limpezas. Prest diz que o organismo já tem o seu próprio processo altamente eficaz de eliminar as toxinas, sobretudo através do fígado, rins e sistema digestivo. Por exemplo, o organismo consegue metabolizar o álcool em apenas um dia, dependendo do número de bebidas que uma pessoa tenha consumido (e do seu teor alcoólico).

A maioria das limpezas enquadra-se na categoria de “dietas da moda”, que, frequentemente, eliminam grupos alimentares, não fornecem nutrição adequada e promovem alterações de curto prazo que são difíceis de manter, segundo um estudo publicado na revista Frontiers em 2022.

A maioria das empresas da área das limpezas alimentares dizem que os seus produtos são “aprovados por estudos”, mas essas afirmações podem ser manipuladas de modo a corresponderem a uma narrativa. Por exemplo, a “desintoxicação de água com limão” é um dos básicos das pessoas preocupadas com a limpeza do organismo. No entanto, um estudo frequentemente citado para comprovar a sua eficácia monitorizou menos de 100 participantes ao longo de apenas 11 dias.

“A maioria das alterações positivas também foram observadas em sujeitos com uma dieta de restrição calórica que não ingeriram a mesma mistura de sumo de limão”, diz Melinda Ring, especialista em medicina integrativa e interna da Northwestern Medicine e directora do Osher Center for Integrative Health da Northwestern University.

Muitos estudos também são feitos em animais, cujos resultados não são idênticos em humanos.

Quais são, então, os verdadeiros benefícios a curto prazo de uma limpeza?

Ring não é contra as limpezas. “É uma espécie de reiniciação mental para as pessoas, talvez até mais do que uma reiniciação física. Ajuda as pessoas a sentirem que estão a recomeçar. Ajuda-as a desintoxicarem-se de maus hábitos”, afirma. “Vou encorajar as pessoas a fazerem-nas de forma saudável, mas dizendo-lhes para terem noção de que há limites em relação ao que pode ser feito.”

Contudo, é difícil apontar exactamente aquilo que uma limpeza faz ao seu organismo a curto prazo, devido ao facto de existirem tantas variantes. Algumas limpezas destinam-se a reduzir a inflamação – que pode ser causada por alimentos como os lacticínios ou glúten, sobretudo em pessoas com intolerâncias. Um número estimado em 68 por cento da população mundial não absorve eficientemente a lactose, segundo os Institutos Nacionais da Saúde dos EUA e até sete por cento sofre de sensibilidade ao glúten. No entanto, algumas reacções podem ser tão ligeiras que uma pessoa nem se apercebe delas – o que pode explicar porque se sente melhor ao eliminar esses alimentos

A inflamação afecta uma série de processos físicos e, segundo Ring, pode conduzir a problemas como artrite, gastrite e bronquite. Por isso, eliminar estes alimentos, mesmo que por pouco tempo, pode ajudar. Alguns alimentos ou suplementos, como o gengibre, o alho e os ácidos gordos ómega-3 também têm sido associados a uma diminuição da inflamação.

Se ingerir mais fibra, que é benéfica para o microbioma intestinal, poderá sentir benefícios a curto prazo na digestão e regularidade do seu trânsito intestinal, acrescenta Prest. “Sabemos que uma única refeição pode ter impacto no microbioma de uma pessoa”, diz Ring. “Por isso, há alguns efeitos bastante imediatos observáveis na química, bioquímica e fisiopatologia do organismo.”

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fotografia de STEVE GSCHMEISSNER, SCIENCE PHOTO LIBRARY

Estas imagens mostram a alta densidade dos microvilli numa pequena célula do intestino humano – captada numa microfotografia de varrimento electrónico (esquerda) e numa microfotografia de transmissão electrónica (direita). Estas estruturas minúsculas formam uma cobertura densa semelhante a uma escova na superfície das células, permitindo-lhes absorver os nutrientes dos alimentos digeridos.

“Mas se alguém voltar a beber em excesso, a comer fast-food e a fazer outros disparates, os benefícios desaparecerão rapidamente”.

Os médicos continuam a ser os profissionais mais indicados para supervisionar as dietas de eliminação e diagnosticar sensibilidades alimentares e os especialistas não recomendam a eliminação de nenhum grupo alimentar, a não ser que a pessoa sofra de alguma sensibilidade.

E os benefícios do jejum intermitente?

O jejum intermitente é outra estratégia de desintoxicação popular, que envolve comer apenas durante uma janela de 8 ou 12 horas. Isto pode provocar algumas alterações de curto prazo no organismo.

Mais notavelmente, não alimentar o corpo induz um processo conhecido como autofagia, no qual as células basicamente eliminam os seus componentes velhos e danificados. O organismo já está constantemente em autofagia, mas o jejum pode enganá-lo, levando-o a intensificar o processo – mas isso não é necessariamente bom.

“A autofagia desempenha efectivamente um papel de limpeza da casa e, se a intensificar, poderá ter a casa mais limpa. Aquilo que não sabemos é onde fica a fronteira entre ter a casa limpa e começar a deitar fora a sua melhor porcelana”, diz E. Dale Abel, endocrinologista e director do Departamento de Medicina da Faculdade de Medicina David Geffen School da UCLA, e director clínico executivo do Health Department of Medicine, igualmente da UCLA.

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fotografia de SCIENCE SOURCE, SCIENCE PHOTO LIBRARY

Esta microfotografia de transmissão electrónica, com edição de cor, mostra uma célula em processo de autofagocitose — um processo natural em que a célula elimina as suas partes velhas e danificadas. O jejum pode ajudar a induzir a autofagia, embora não seja claro se acarreta os mesmos benefícios.

Novos estudos mostram que a autofagia pode ser utilizada para tratar a diabetes e combater as células cancerígenas. No entanto, não é claro se induzir a autofagia através do jejum tem os mesmos benefícios e serão necessários mais estudos, com mais pessoas e ao longo de períodos mais longos, diz Abel.

O jejum intermitente também pode ajudar uma pessoa a alcançar mais rapidamente um estado de cetose, no qual organismo queima gordura, em vez da glicose presente no sangue, para obter energia. Este é o derradeiro objectivo da dieta cetogénica, que envolve o consumo de quantidades elevadas de gordura, moderadas de proteína e quase (ou mesmo) nulas de hidratos de carbono e açúcar.

O júri ainda não se pronunciou sobre a segurança e os benefícios a longo prazo da dieta cetogénica, mas uma análise narrativa publicada em 2022 na revista Nutrients associou a cetose é uma melhoria da cognição em participantes com doença de Alzheimer.

“O estado de cetose está associado com uma sensação de quase clareza cerebral e aumento da energia. Isso explica parcialmente por que as pessoas podem sentir-se bem quando fazem estas dietas cetogénicas”, diz Ring.

Outros, porém, poderão sentir confusão mental como efeito secundário da dieta cetogénica, diz Abel.

Os perigos das limpezas

Em circunstâncias raras, as limpezas podem ter efeitos extremos e até ameaçar a vida. Por exemplo, consumir demasiadas cenouras ou outros alimentos com níveis elevados de vitamina A, pode provocar dores de cabeça e enfraquecer os ossos. O consumo excessivo de legumes de folha verde, com elevados teores de oxalatos, pode danificar os rins.

Outras limpezas, sobretudo as que acompanham dietas de restrição calórica extrema, podem ter um efeito oposto ao pretendido.

“O organismo adora assegurar-se de que consegue continuar a funcionar. Por isso, faz todo o tipo de coisas para sobreviver”, diz Prest. “Pode abrandar o metabolismo para conservar a energia que está a obter”, acrescenta o especialista. Deste modo, ao regressar aos seus níveis típicos de calorias ou nutrientes após uma limpeza, poderá até ganhar peso. “Com o metabolismo mais lento, tudo o que restar poderá ser convertido em gordura ou ser armazenado para ser usado mais tarde”, acrescenta a nutricionista.

As pessoas também podem começar e interromper diferentes dietas ou limpezas. Essas flutuações extremas podem ser nocivas para o organismo. Em pessoas com diabetes, é possível observar diferenças no ADN das que experimentaram dietas extremas, face àquelas que se alimentaram de forma saudável”, diz Abel. “São os extremos, ir de uma ponta à outra, que podem fazer mal”, diz – algo a considerar na próxima vez que pensar em reiniciar o seu organismo.

Em vez disso, os médicos e nutricionistas dão o conselho habitual: mantenha-se hidratado e consuma frutos, legumes e fibra suficientes e com regularidade.“Será sempre preferível fazer uma alteração sustentável a longo prazo”, conclui Ring.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.