Mesmo que seja fumador de longa data, há alguns benefícios surpreendentes e até imediatos em deixar de fumar. Todos os anos, meio milhão de americanos morrem devido a causas relacionadas com o fumo e um número estimado em 16 milhões de americanos vive com problemas de saúde crónicos relacionados com o fumo, como doença pulmonar obstrutiva crónica, doença cardíaca, AVC ou cancro. Quanto a Portugal, o Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME) estimava que cerca de 12% dos óbitos de adultos portugueses com idade igual ou superior a 35 anos ocorridos em 2019 tinham como causa o consumo de tabaco. Mais recentemente,  um estudo de 2023 da Universidade de Santiago de Compostela, em Espanha, e da Escola Nacional de Saúde Pública e da Universidade da Beira Interior, revelou que oito em dez portugueses se consideravam expostos ao fumo de terceiros em espaços exteriores antes da nova lei do tabaco entrar em vigor.  

Embora os riscos de fumar sejam bem conhecidos, é incrivelmente difícil deixar este hábito, o que faz com que muitas pessoas desistam de tentar, presumindo que o mal já está feito. No entanto, como os estudos têm mostrado repetidamente, existem vantagens significativas em abandonar o tabaco.

Para ter uma ideia dos benefícios para a saúde a curto e longo prazo, a National Geographic falou com alguns especialistas sobre aquilo que acontece no nosso organismo nas horas, dias, semanas, meses e anos depois de deixarmos de fumar.

Melhoria da frequência cardíaca e da respiração

As pessoas que deixam de fumar podem contar com melhorias na frequência cardíaca e na respiração. A primeira mudança, que pode ocorrer meras horas depois do último cigarro, é a diminuição da frequência cardíaca, diz Humberto Choi, pneumologista na Cleveland Clinic, nos EUA. Os elevados níveis de monóxido de carbono presentes no sangue dos fumadores (cerca de três vezes superiores) também regressam ao normal passados alguns dias.

Ao fim de algumas semanas, outras mudanças começam a notar-se. Uma das principais é a melhoria da função pulmonar e a diminuição da tosse, que pode ajudar a melhorar a capacidade de exercício. Estas alterações ajudam as pessoas a respirar um pouco melhor, tornando menos difícil desenvolver e manter a prática de exercício – como caminhar regularmente ou adoptar um treino de força matinal. “As pessoas tendem, geralmente, a sentir-se melhor”, diz Choi.

O exercício também é um hábito alternativo para substituir o fumo. “O vício não desaparece depressa”, diz Choi. “É boa ideia introduzir alguma coisa nova na sua vida”. Muitas pessoas também dizem que o seu olfacto e paladar melhoraram semanas ou meses depois de deixarem de fumar. “Por vezes, nem se apercebiam de que tinham perdido o olfacto ou o paladar”, diz Choi.

Diminuição acentuada do risco de ataque cardíaco ou AVC

À medida que os meses se tornam anos, deixar de fumar pode conduzir a uma redução acentuada do risco de desenvolver doenças cardiovasculares como ataques cardíacos ou AVCs. “Nos dois primeiros anos depois de deixar de fumar, grande parte do risco acrescido desaparece”, diz Marie Robertson, cardiologista e directora científica da American Heart Association.

Robertson sublinha que o risco continua a diminuir à medida que o tempo passa. Dez anos depois de deixar de fumar, o risco de morrer devido a doença cardiovascular diminui 63 por cento face aos fumadores. Após 20 a 30 anos, este risco diminui para níveis semelhantes aos de uma pessoa que nunca tenha fumado.

O risco de desenvolver cancro diminui após uma década

O tempo avança e o risco de desenvolver determinados tipos de cancro também diminui – o patamar significativo é alcançado cerca de dez anos depois deixar de fumar.

“Passados dez anos, o risco de morrer devido a cancro do pulmão é metade do risco enfrentado pelos fumadores”, diz Farhad Islami, director científico sénior da American Cancer Society, e investigador que estuda os riscos do cancro em diferentes populações. Existe uma diminuição semelhante do risco de desenvolver outros tipos de cancros relacionados com o fumo como cabeça, pescoço ou esófago, acrescenta Islami.

Num artigo recentemente publicado, Islami e os seus co-autores concluíram que 20 a 29 anos depois de deixar de fumar, o risco de morrer de cancro diminui cerca de 90 por cento. As pessoas que conseguirem deixar antes dos 35 anos terão uma diminuição ainda maior do risco, ao ponto de, passadas duas a três décadas, o risco de morrerem devido a cancros relacionados com o fumo ser quase equivalente ao de uma pessoa que nunca fumou.

“É melhor deixar de fumar quando somos mais novos”, diz Islami, mas mesmo que as pessoas não consigam desistir até serem mais velhas, “os benefícios continuam a ser muito, mas muito substanciais”.

A progressão de doenças relacionadas com o fumo diminui

No caso das pessoas que vivem com doenças crónicas relacionadas com o fumo, como cancro, doença cardíaca ou doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), deixar de fumar pode abrandar a progressão da doença, melhorando simultaneamente as probabilidades de sobrevivência. “As probabilidades de reincidência após o cancro são baixas se deixar de fumar”, diz Choi.

No caso das pessoas que já sofreram um ataque cardíaco, deixar o tabaco também pode diminuir a possibilidade de ter um segundo episódio e as probabilidades de a DPOC piorar. “Queremos que as pessoas deixem de fumar antes de desenvolverem estes problemas”, diz Luba Yammine, investigadora da UTHealth Houston, cujo trabalho incide no transtorno de consumo de substâncias, acrescentando que “mesmo que já tenha a doença, continuará a ser muito benéfico deixar de fumar”.

SMOKE
FOTOGRAFIA DE JUSTIN GUARIGLIA, NAT GEO IMAGE COLLECTION

A adicção é complexa

Fumar pode ser um dos vícios mais difíceis de largar devido a uma série de factores. “A nicotina é a substância mais viciante que existe”, diz Yammine. “É muito fácil ficar viciado e muito difícil parar.” As dificuldades de deixar de fumar devem-se a uma combinação de factores físicos e comportamentais.

O primeiro desafio prende-se com a dependência física da nicotina, que pode causar uma mistura de sintomas de desejo compulsivo e abstinência quando se pára de fumar. “Esta mistura de sintomas de desejo e abstinência é muito desagradável”, diz Yammine. Muitas pessoas disseram ter sentido uma fome excessiva depois de deixarem de fumar, juntamente com sentimentos generalizados de irritabilidade. Existem algumas ferramentas disponíveis (inclusive em Portugal), para ajudar a reduzir estes sintomas, incluindo adesivos e pastilhas de nicotina e medicamentos como a bupropiona.

O segundo grande factor é comportamental. “Os cigarros tornam-se uma parte integral da nossa vida”, diz Yammine. O dia de um fumador de longo prazo é frequentemente estruturado em torno de onde e quando fuma, seja um cigarro a acompanhar o café de manhã, fazer intervalos periódicos para fumar ao longo do dia ou acender um cigarro em determinados ambientes. Estes comportamentos podem tornar-se tão enraizados que se torna muito difícil vencer o hábito, mesmo que os sintomas físicos da abstinência estejam bem controlados.

Deixar de fumar exige, frequentemente, várias tentativas

Devido às dificuldades associadas à adicção em nicotina, os fumadores reportam fazer várias tentativas para deixar de fumar antes de encontrarem uma estratégia bem-sucedida – e aquilo que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra.

Embora abandonar o tabaco sem assistências funcione para algumas, outras precisam de medicação para controlar os desejos. Algumas pessoas têm de fazer grandes alterações nos seus hábitos diários para conseguirem deixar de fumar, enquanto outras podem consegui-lo apenas com pequenos ajustes. Algumas deixam o tabaco após as primeiras tentativas e outras precisam de várias. “Cada tentativa é uma lição sobre como fazê-lo melhor na próxima vez”, diz Robertson.

Adaptação de artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.