Não podemos culpar Jack Merendino por estar nervoso quando subiu para a passadeira rolante para fazer um teste de esforço no ano passado. Poucos meses antes, o seu irmão mais novo fora operado ao coração, os seus pais tinham morrido de doença cardíaca e o seu score de cálcio coronário – que reflecte os depósitos de cálcio e placas que entopem as artérias – estava ligeiramente elevado. O mais alarmante: sentira uma dor no peito uma semana antes.

“Preparei-me para um diagnóstico de doença cardíaca – ou, pelo menos, para me dizerem que estava em má forma”, diz Merendino, actualmente com 64 anos, médico endocrinologista em Bethesda, no estado de Maryland. Parece seu grande alívio, os seus valores gerais – reflectindo o ritmo cardíaco, tensão arterial e outras métricas – estavam no intervalo superior de cinco por cento para os homens da sua idade. Isso significava que era improvável que ele padecesse de doença cardíaca. No entanto, o teste revelou algo que ele não sabia: Merendino poderá ter possibilidades abaixo da média de desenvolver cancro.

Esta novidade deriva de resultados recentemente publicados pela Mayo Clinic do Minnesota, que demonstram uma forte relação entre os resultados de um teste de esforço, tipicamente utilizado para diagnosticar doenças cardíacas, e riscos futuros de desenvolver cancro.

No estudo da Mayo, os investigadores acompanharam 13.382 homens e mulheres do estado de Minnesota que se submeteram a um teste de esforço de 10 a 15 minutos na passadeira rolante, entre 1993 e 2010. Depois de um início lento, a pessoa vai evoluindo gradualmente até conseguir exercitar-se ao máximo. A tensão arterial, a condição aeróbica, o ritmo cardíaco e a pulsação vão sendo medidos. Os investigadores acompanharam os sujeitos cerca de 13 anos após os testes de esforço, verificando a sua tensão arterial e outros valores, ponderando-os contra o risco de morte. Também calcularam uma “pontuação de exercício”, inserindo valores de diferentes áreas na equação.

“A conclusão interessante foi que o risco de morrer devido a doenças não-cardiovasculares era mais do que o dobro nas pessoas com os piores resultados no teste do que nas pessoas com os melhores”, disse o autor principal do estudo Thomas G. Allison, professor de medicina na faculdade de medicina Mayo Clinic Alix School of Medicine, em Rochester, no Minnesota. Essas “doenças não-cardiovasculares” são 14 causas de morte que incluem demência, AVC e pneumonia. Mas a mais importante de todas era o cancro – representando metade de todas as doenças não-cardiovasculares.

Mas como pode um teste de esforço – concebido para ajudar no diagnóstico de doenças cardíacas – prever mortes por cancro? “Fez sentido para mim”, diz Emily Lau, cardiologista e professora da Faculdade de Medicina de Harvard, que não participou no estudo do teste de esforço da Mayo, “porque a doença cardiovascular e certos tipos de cancro partilham alguns factores de risco”.

O risco cardiovascular espelha o risco de cancro

Numa investigação que complementa o novo estudo de Allison, Lau e a sua equipa analisaram resultados de dois estudos distintos que acompanharam a saúde de 20.305 homens e mulheres que tinham entre 36 e 64 anos no início do estudo. Um foi realizado em Framingham, no estado do Massachusetts, nos EUA (Framingham Heart Study), e o outro em Groningen, nos Países Baixos (estudo PREVEND).

Em vez de testes de esforço, os estudos Framingham e PREVEND analisaram diversos factores associados a doença cardiovascular, como o nível de colesterol no sangue, o índice de massa corporal (um indicador aproximado da gordura corporal) e a diabetes. Também utilizaram o questionário ASCVD (doença cardiovascular aterosclerótica), que descobriu que as pessoas na categoria de maior risco cardiovascular não só tinham mais probabilidades de desenvolver doença cardíaca, como 3,7 vezes mais probabilidades de desenvolver cancro ao longo de um período de 15 anos do que aquelas na categoria de menor risco.

Os investigadores também inseriram os valores de colesterol mau, hábitos de exercício e padrões alimentares – de sujeitos do estudo de Framingham na ferramenta de avaliação de risco “Life’s Simple 7", da American Heart Association. À semelhança dos resultados fornecidos pelo ASCVD, as pessoas com menos riscos de desenvolverem doença cardiovascular tinham também menos probabilidades de desenvolverem cancro.

A ligação entre a boa condição física e o cancro

Existe uma boa razão para o Life’s Simple 7 incluir hábitos de exercício, com um rigor de minutos por semana: a actividade física está fortemente associada à saúde cardíaca. Embora um teste de esforço não diga ao seu médico quanto exercício é que você faz, é muito eficaz na avaliação da sua condição aeróbica. “E isso tem grandes implicações no risco de desenvolver doença cardiovascular e determinados tipos de cancro”, diz Allison.

No mundo da ciência do exercício, “condição física” [fitness] significa tecnicamente “capacidade aeróbica funcional”, “condição aeróbica” ou “condição cardio-respiratória” e é a capacidade do seu organismo de transportar oxigénio até às células musculares enquanto uma pessoa faz exercício. “Quanto mais fortes forem o seu coração e os seus pulmões, mais oxigénio será transportado até às células, melhor será a sua condição física e mais protegido estará contra a doença cardíaca e outros problemas cardiovasculares”, explica Allison.

Os testes de esforço medem a condição física através do “VO2Max”: o volume máximo de oxigénio que o seu organismo consegue absorver enquanto se exercita ao máximo. As pessoas mais jovens e os homens (por terem uma percentagem de músculo mais elevada do que as mulheres), têm um valor VO2Max mais alto. E qualquer pessoa pode aumentar o seu VO2Max com exercício aeróbico regular — caminhada, jogging, remo, ciclismo ou outro tipo de exercício que aumente o ritmo cardíaco e a faça respirar mais arduamente.

Os participantes no estudo da Mayo Clinic com uma capacidade aeróbica funcional apenas 10 por cento abaixo da média tinham 68 por cento mais probabilidades de morrer devido a problemas cardiovasculares e 42 por cento mais probabilidade de morrer devido a outras doenças, sobretudo cancro, do que as pessoas com pontuações mais altas.

E isto diz respeito apenas à condição física! Se incorporarmos a capacidade aeróbica funcional, a tensão arterial e outras métricas dos testes de esforço numa “pontuação de exercício” geral, as pessoas com pior pontuação têm cinco vezes mais probabilidades de morrer de ataque cardíaco, insuficiência cardíaca e outros problemas cardiovasculares do que aquelas com as melhores pontuações.

“As pessoas em boa forma não só têm menos probabilidades de desenvolver cancro, como mais probabilidades de lhe sobreviver. São mais aptas para sobreviver a quase qualquer doença, até quedas e fracturas. Se se levantar e se mexer, é mais provável que chegue a bom porto”, comenta Allison.

Não tem de ser um atleta para colher os benefícios. Os 150 minutos semanais recomendados de exercício aeróbico de intensidade moderadaestão associados a uma diminuição entre 23 e 40 por cento no risco de desenvolver doença cardiovascular, face a um estilo de vida sedentário. Da mesma forma que ser fisicamente activo está associado a uma redução de 8 a 25 por cento no risco de desenvolver determinados tipos de cancro – com o cancro da mama, cólon, endométrio, gástrico e do pulmão no topo da escala – combatendo simultaneamente a obesidade, diabetes tipo 2, depressão e outras doenças crónicas.

O seu treino, o seu intestino e o cancro

O exercício opera a sua magia fortalecendo o músculo cardíaco e refreando instigadores de doença cardiovascular e cancro, como obesidade, inflamação e níveis elevados de glucose no sangue.

Novas investigações sugerem que, pelo menos, alguns destes benefícios poderão começar no intestino, lar de triliões de microrganismos. (Mais uma faceta do microbioma!)

A nossa investigação indica que o exercício físico… aumenta os níveis de bactérias que produzem ácidos gordos de cadeia curta. Estes ácidos têm uma acção protectora contra o cancro colo-rectal”, diz Alexander Boytar, doutorando da School of Human Movement and Nutrition Sciences da Universidade de Queensland, na Austrália.

“Podem até deslocar-se para outras áreas do organismo e proporcionar protecção contra outros tipos de cancro”, escreveu Boytar num e-mail. A actividade física também leva as células intestinais a produzirem mais células imunitárias que refreiam a inflamação – e o desenvolvimento do cancro.

Estas vantagens do microbioma podem ajudar a explicar porque as pessoas que praticam exercício físico têm menos probabilidades de desenvolver determinados tipos de cancro. As provas são particularmente sólidas no que diz respeito ao cancro colo-rectal — o terceiro tipo de cancro mais frequentemente diagnosticado e o segundo cancro mais mortal a nível mundial. As pessoas fisicamente activas têm 24 por cento menos riscos de desenvolver este tipo de cancro do que as pessoas sedentárias.

“Não se trata apenas de prevenir o cancro – o microbioma intestinal pode melhorar a eficácia da quimioterapia e da imunoterapia”, escreveu Boytar.

Quanto exercício? “Trinta a 90 minutos de exercício aeróbico, três ou mais vezes por semana, durante oito semanas pode inverter o equilíbrio dos micróbios do intestino a nosso favor”, escreveu Boytar.

Não se trata apenas de exercício…

Por mais poderoso que seja, o exercício não é tudo. “Recomendo seguir o “Life’s Essential 8” da American Heart Association, que enumera recomendações especificas não só para o exercício, mas para comer melhor e outros hábitos saudáveis”, sugere Lau. Na sua investigação, Lau utilizou a versão disponível na altura, denominada “Life’s Simple 7”. Desde então, a American Heart Association acrescentou um oitavo hábito que protege o coração – dormir o suficiente. Os estudos existentes sugerem que os distúrbios do sono aumentam o risco de cancro ao perturbarem os ritmos circadianos e aumentarem a inflamação.

Jack Merendino está atento. “Mesmo com resultados decentes no teste de esforço, não estou a dar a minha saúde cardíaca por garantida. Antes do teste, eu fazia frequentemente directas ou dormia apenas cinco horas por dia. Eu sabia da relação entre a falta de sono e a doença cardíaca e agora que estou a ouvir que poderá haver uma ligação ao cancro, tenho outra razão para apagar a luz mais cedo”, diz.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.