Porque choramos quando estamos tristes?

O choro é um acto libertador e necessário em determinadas situações de pesar ou tristeza excessiva. Mas sabe porque as lágrimas vêm e porque chorar fá-lo sentir-se melhor?

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O choro é o primeiro mecanismo de comunicação que adquirimos. Após o nascimento, uma das únicas formas que os bebés têm de transmitir o que estão a sentir (fome, dor, sono, desconforto...) é o choro. Depois, com o passar do tempo, outros métodos mais eficazes são desenvolvidos em determinadas situações, como gestos corporais, fala ou a expressividade do olhar. Entretanto, em nenhum momento de nossas vidas abandonamos as lágrimas como principal método de informar que estamos "tristes".

Esse curioso recurso, aparentemente instintivo e universal, tem sido objecto de estudo ao longo dos anos. Hoje, embora ainda haja algum mistério em torno do processo que desencadeia o choro, sabe-se com certeza que chorar numa situação de tristeza e pesar é um método de libertação de stress que ajuda o corpo a lidar com várias situações emocionais. Saiba porque acontece e porque chorar quando está triste fá-lo sentir-se melhor.

TIPOS DE LÁGRIMAS

Sabia que, ao longo de um ano, produz um total de 55 a 110 litros de lágrimas? E não, não falamos apenas de lágrimas de pesar e tristeza, pois existem outros tipos de lágrimas além daquelas produzidas em situações emocionais: as lágrimas basais e as lágrimas de reflexo. Entretanto, todas elas têm em comum, além do facto de serem produzidas nas glândulas lacrimais do olho, o facto de não excretarem toxinas. Ou seja, ao contrário do que se possa pensar, as lágrimas não são como a urina, mas têm uma função completamente diferente da eliminação de substâncias nocivas.

As lágrimas basais, por exemplo, são geradas num tipo de glândula lacrimal chamada glândulas acessórias que estão em constante funcionamento. Isso ocorre porque a sua principal função é humedecer e limpar o olho, portanto, a sua produção deve ser contínua. A sua ausência ou baixa produção é uma das causas dos olhos secos.

As lágrimas de reflexo, por outro lado, são aquelas que aparecem automaticamente quando há odores muito fortes que irritam os olhos. Dessa forma, diante da chegada de agentes externos e nocivos, elas são capazes de criar uma camada que protege a íris de todos esses agentes estranhos. Também se caracterizam por serem incontroláveis e chorarem em abundância. Já chorou enquanto cortava uma cebola? Eis apenas um exemplo das lágrimas de reflexo em acção.

CEBOLA
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O cheiro forte da cebola causa irritação nos olhos, o que ativa a produção de lágrimas reflexas.

UM ANALGÉSICO NATURAL

As lágrimas emocionais são, no entanto, muito mais complexas do que as outras duas, pois têm uma componente emocional que envolve o cérebro e as glândulas hormonais. Portanto, ao contrário das lágrimas basais e reflexas, que são compostas principalmente de água, iões e muito pouca proteína, as lágrimas emocionais têm um alto teor de hormonas e proteínas. São essas hormonas que surgem em resposta a situações emocionais fortes, como um mecanismo de regulação e liberação do stress.

Uma das principais hormonas que eles contêm é a prolactina. Isto é, um produto químico produzido pela glândula pituitária, uma área na base do cérebro que, nas mulheres, desempenha um papel importante na geração de leite materno durante a gravidez e após o parto. No entanto, no cérebro, os altos níveis de prolactina estão relacionados com a baixa dopamina, o que explicaria o seu aparecimento em lágrimas durante períodos de luto.

OK
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Localização da glândula pituitária no cérebro.

A hormona adrenocorticotrófica é outra hormona que aparece nas lágrimas. Neste caso, esta substância está directamente relacionada com altos níveis de ansiedade e stress. A secreção dessa hormona pelas lágrimas seria uma forma de o corpo estabilizar esses valores e regular o humor e a situação emocional.

Entretanto, uma das substâncias mais curiosas que aparecem nas lágrimas emocionais – e que corrobora esse raciocínio – é a leucina-encefalina. Essas substâncias químicas nada mais são do que moléculas opióides responsáveis por modular a percepção da dor. Por outras palavras, são como analgésicos naturais. A sua secreção durante o choro produziria uma espécie de efeito calmante e seria uma das responsáveis pela sensação de bem-estar após o choro.

LÁGRIMAS DE FELICIDADE

E quanto às lágrimas de alegria? Bem, o mecanismo é bastante semelhante. O ponto de partida é uma situação emocional forte, neste caso, uma grande felicidade, que gera certas activações cerebrais em abundância. Por outras palavras, assim como uma grande tristeza exige a auto-regulação por meio da secreção de determinadas hormonas durante o choro, uma grande alegria repentina também causa um desequilíbrio no corpo emocional.

Portanto, o choro será, mais uma vez, um método para voltar ao funcionamento normal do organismo e para que o cérebro recupere desse pico destabilizador de felicidade. Dessa forma, poderá descansar e voltar à racionalidade normal e a uma capacidade de tomada de decisão que não seja influenciada pelos sentimentos.