A ficção científica explodiu em termos de popularidade ao longo das últimas décadas, com os filmes da Marvel no topo das receitas de bilheteira e revitalizações de sagas de longa duração como a Guerra das Estrelas e Star Trek. Mas não é só o público que procura entretenimento que adora ficção científica. Os cientistas também – e muitos foram inspirados a seguir a sua área pelos filmes de ficção científica que viram em crianças.

E embora a ciência das séries e dos filmes que os cientistas adoram seja frequentemente exagerada ou até inventada, muitos enredos contêm um fundo de realidade ou uma mensagem sobre o papel da ciência na sociedade que ecoa nos investigadores já na idade adulta.

“Em muitos destes filmes, existe algo transversal que é real”, diz Marshall Shepherd, meteorologista e cientista especializado em clima responsável pelo Programa de Ciências Atmosféricas da Universidade da Georgia, EUA.

Apresentamos-lhe a opinião de alguns especialistas sobre a ciência por detrás de filmes e séries televisivas populares. 

Desastres naturais apocalípticos

Shepherd refere-se a um filme do qual gostou, apesar das suas incoerências científicas. O Dia Depois de Amanhã, um filme de desastres de 2004 no qual o sistema de circulação oceânica do Atlântico norte colapsa, mergulhando o mundo numa nova Idade do Gelo. Os impactos do sucedido – uma gigantesca onda de maremoto que engole a cidade de Nova Iorque, tornados em Los Angeles, descidas da temperatura tão súbitas que as personagens têm, literalmente, de fugir do gelo que as persegue – são “extremamente exagerados”, diz Marshall.

Mas a ideia de esta corrente oceânica, que transporta o calor no Atlântico Norte, poder parar, amplificando fenómenos meteorológicos extremos e empurrando o clima da Terra para além do limite, é real. Alguns cientistas temem que as alterações climáticas causadas pelos seres humanos possam desencadear um colapso deste género ainda neste século.

Os dinossauros regressam à Terra

Do mesmo modo, a saga Parque Jurássico alimentou o interesse do público na paleontologia desde a estreia do primeiro filme, em 1993. Tal como O Dia Depois de Amanhã, Parque Jurássico e as suas sequelas tinham bastantes lacunas científicas. No entanto, também acertam em algumas coisas essenciais sobre os dinossauros, diz Gabriel-Phillips Santos, director dos serviços educativos do Museu de Paleontologia Raymond Alf, em Los Angeles.

Começando pelo primeiro filme, Santos diz que o T. rex andava de forma realista, com a cauda espetada e direita e o corpo paralelo ao solo, apesar das imagens anteriores da cultura pop, que mostravam um T. rex semelhante a Godzilla, deslocando-se em pé, arrastando a cauda atrás dele. Os Brachiosaurus também são retratados saindo da água para terra, caminhando de uma forma que se alinha com a ideia que os paleontólogos têm da evolução do seu estilo de vida, diz Santos. “Costumávamos pensar que eram tão pesados que só conseguiam suportar o seu peso dentro de água, mas agora sabemos que isso não é verdade. Eles mostraram mais ou menos isso no ecrã.”

Mesmo quando os filmes não são cientificamente rigorosos – os velocirraptores são demasiado grandes e a saga só incluiu um dinossauro com penas até 2022, apesar de existirem abundantes evidências científicas de que muitos dinossauros tinham penas – Santos diz que são uma oportunidade de alcançar um público que, de outra forma, não seria alcançável. Santos dá palestras frequentes em convenções de cultura pop, como a Comic-Con de San Diego, sobre a ciência verdadeira (e falsa) do Parque Jurássico.

“Qualquer coisa que envolva os dinossauros e chegue aos meios populares… vai inspirar as [pessoas]”, diz Santos. “Pode inspirá-las a visitar um museu de história natural e aprender mais. Se decidirem dedicar-se à área, é espectacular.”

Viagens espaciais

A saga Star Trek, que inspirou várias gerações de crianças a tornarem-se astrónomos e exploradores especiais, também mistura ciência com uma dose saudável de exagero. Erin MacDonald, astrofísica e consultora científica de Star Trek, diz que usa frequentemente a série Star Trek: Voyager, transmitida entre 1995 e 2001, para explicar conceitos científicos, nomeadamente a forma como a gravidade distorce o espaço-tempo, ao público nas conferências. “Surpreendentemente, é uma série com ciência a sério”, diz MacDonald.

MacDonald, que estudou ondas gravitacionais no âmbito do seu doutoramento antes de envergar por uma carreira em comunicação científica, foi contratada pela Star Trek para encontrar uma explicação científica para“The Burn”, um evento cataclísmico introduzido na temporada 3 de Star Trek: Discovery, no qual todo o “dilítio” activo da galáxia se torna inerte, impossibilitando as viagens a velocidades warp.

MacDonald recorreu a áreas científicas como a física de partículas e o estudo da matéria escura para explicar como o dilítio, um material fictício, pararia subitamente de comportar-se de forma como sempre se comportara em Star Trek. Actualmente, MacDonald pronuncia-se sobre todas as séries de Star Trek transmitidas ou em face de produção, lendo os argumentos e sugerindo alterações na linguagem, escrevendo equações que aparecem no ecrã e trabalhando com as equipas pós-produção para as ajudar na apresentação visual dos aspectos científicos.

Pandemias globais

Contágio, o thriller baseado num desastre biológico lançado em 2011 também teve assessoria científica – e nota-se, diz Tara Smith, epidemiologista na Kent State University. No filme, funcionários do departamento de saúde pública esforçam-se para investigar e conter um novo vírus que saltou dos morcegos para os porcos e, posteriormente, para os seres humanos, desencadeando rapidamente uma pandemia global. Smith, cujo trabalho de investigação incide em infecções zoonóticas – infecções que se transmitem de animais para seres humanos – diz que o vírus de Contágio segue uma via de transmissão muito semelhante à do vírus Nipah, que se propagou de morcegos para porcos e seres humanos.

“A pandemia [do filme] aconteceu um pouco mais depressa do que seria de esperar na vida real – de zero a praticamente o mundo inteiro no espaço de poucos dias”, diz Smith. “O desenvolvimento das vacinas também foi incrivelmente rápido. Mas foi mais razoável enquanto filme sobre doenças infecciosas”.

Smith também elogiou a primeira temporada da série televisiva The Last of Us, transmitida pela HBO no início de 2022, por associar as alterações climáticas ao aparecimento de surtos de doenças infecciosas de uma forma “bastante rigorosa em termos científicos”. A série apresenta um futuro pós-apocalíptico no qual uma infecção fúngica global transforma grande parte da população humana em zombies, desencadeando o colapso da sociedade. Os zombies são “onde a biologia acaba”, diz Smith. Mas a introdução da série mostra um cientista falar sobre como, à medida que a Terra aquece e os fungos se adaptam a temperaturas mais altas, os surtos de doenças fúngicas podem tornar-se mais generalizados – uma ideia com mérito científico. “Usei isso numa aula de epidemiologia de doenças infecciosas no ano passado para falar sobre as alterações climáticas e o aparecimento de doenças”, diz Smith.

A ascensão da inteligência artificial

Alguns cientistas, como a investigadora da inteligência artificial (IA) Janelle Shane, ainda estão à espera que os argumentistas de Hollywood apresentem a sua área de forma realista. Embora a IA desempenhe um papel central em muitos êxitos de bilheteira e séries televisivas, desde Exterminador Implacável a The Matrix, Battlestar Galactica e Foundation, da Apple TV+, a maioria mostra robots que alcançaram a consciência e uma inteligência ao nível da humana.

Isto está a milhas de distância das tecnologias baseadas em IAque existem actualmente no nosso mundo, como Siri, a assistente de voz da Apple, e o software que conduz automóveis com piloto automático. Embora algumas IAs generativas, como o ChatGPT, possam escrever ensaios e contar piadas de uma forma desconcertantemente humana, na verdade são meros programas optimizados para desempenhar muito bem determinada tarefa ou um conjunto de tarefas.

“A IA da ficção científica é uma IA que parece uma pessoa ou, pelo menos, é tão esperta como uma pessoa, mesmo que tenha pontos de vista e objectivos diferentes”, diz Shane. “A IA do mundo real é algo muito mais limitado.”

Shane já viu alguns exemplos de IA realista em livros de ficção científica recentes, como Sourdough, de Robin Sloan. A história é protagonizada por Lois Clary, uma engenheira de software numa empresa de robótica que está a esforçar-se para ensinar um braço robótico a desempenhar tarefas específicas “e tem um conjunto de problemas muito realista”, diz Shane. De repente, a sua vida sofre uma reviravolta quando os irmãos lhe oferecem uma massa-mãe de pão senciente e lhe dizem para mantê-la viva. “É uma leitura muito aconchegante”, diz Shane. “Sobretudo, se comer um belo pão de massa-mãe enquanto lê.”

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.