No século XVIII, o sueco Carl Lineu propôs o sistema de nomenclatura binominal ainda hoje usado para identificar cada espécie dos mais de dois milhões de seres vivos já descritos. Por norma, os taxinomistas propõem nomes que remetem para as características morfológicas, o habitat ou geografia onde a espécie ocorre. Outros honram investigadores relevantes, figuras envolvidas na descoberta ou simplesmente personalidades inspiradoras.

O ritmo a que são descritas novas espécies tem gerado nomes... insólitos. Bob Marley, Beyoncé, John Cleese, ABBA, Obama, Maradona ou Greta Thunberg são apenas algumas das personalidades que inspiraram nomes nos últimos anos. A esmagadora maioria dos epónimos presta merecida homenagem a pessoas que deram contributos no progresso do conhecimento e da conservação, mas há exemplos de nomes escolhidos para homenagear ditadores ou até para insultar o visado, designando uma espécie menos nobre. Em Portugal, o zoólogo oitocentista José Vicente Barbosa du Bocage inspirou os nomes de múltiplas espécies, mas também os músicos Zeca Afonso e José Mário Branco serviram de inspiração.

Em 2023, Patrícia Guedes, investigadora do CIBIO, e outros dez autores publicaram um artigo na revista Nature Ecology & Evolution, defendendo a abolição dos epónimos na nomenclatura científica da biologia pelo risco de se homenagearem personalidades que, no contexto da descrição da espécie, pareciam idóneas, mas que anos mais tarde viram a sua imagem drasticamente modificada. O exemplo superlativo é o insecto cavernícola Anophthalmus hitleri, descrito em 1933 para homenagear Adolf Hitler. Em Portugal, no Herbário da Universidade de Coimbra, conserva-se um exemplar de Kalanchoe salazari, planta colectada em 1937 em Huíla (Angola) e descrita em 1963 pelo botânico Raymond-Hamet. No artigo publicado no Boletim da Sociedade Broteriana, o botânico fez questão de sublinhar a felicidade de poder homenagear Oliveira Salazar, o homem “cujo génio político fez levantar um novo Sol sobre o destino de Portugal”.

Artigo publicado originalmente na edição de Dezembro de 2023 da revista National Geographic.