No dia 8 de Abril de 2024, os astrónomos amadores da América do Norte poderão observar um dos acontecimentos interestelares mais falados da década: um eclipse solar total. No decorrer deste evento, a Lua deslizará entre a Terra e o Sol, transformando o dia num crepúsculo fantasmagórico ao longo de uma faixa com cerca de 150 quilómetros de largura da América do Norte, conhecida como percurso da totalidade.

Lançando uma sombra desde Mazatlán, no México, até às províncias marítimas do Canadá, prevê-se que este eclipse seja um dos mais observados de todos os tempos. Nos EUA, mais de 31 milhões de pessoas vivem no percurso da totalidade, que abrange três estados, desde o Texas até ao Maine, e até três milhões de pessoas poderão viajar para observá-lo. E pela primeira vez em grande escala, as pessoas com incapacidade visual também poderão desfrutar da sua própria experiência – ouvindo-o.

Uma equipa do Laboratório de Astronomia da Universidade de Harvard desenvolveu oLightSound, um dispositivo do tamanho de um smartphone que traduz a luz ambiente para áudio. O som de uma flauta representa o Sol pleno e o de um clarinete indica o desvanecimento gradual causado pelo eclipse. Estalidos suaves assinalam os breves minutos de totalidade, quando a Lua bloqueia completamente o Sol, à excepção da sua atmosfera exterior incandescente, conhecida como corona.

Estes sons calmos foram concebidos para complementar, não eclipsar, o acontecimento multissensorial. “As pessoas querem sentir o que as rodeia”, diz Allyson Bieryla, responsável pelo laboratório de astronomia de Harvard e caçadora de eclipses. Durante a totalidade, os observadores podem sentir a temperatura descer. Alguns podem ouvir criaturas inesperadas, como corujas ou grilos – para não mencionar as reacções da multidão. “Algumas pessoas começam a bater palmas e outras a chorar”, diz Bieryla.

LightSound
ALLYSON BIERYLA, NAT GEO IMAGE COLLECTION

O dispositivo LightSound utiliza sonificação para traduzir a luz ambiente para som.

Como ouvir

O LightSound começou a ser desenvolvido antes do eclipse total do Sol de 2017. “Estava muito comovida pelo facto de não incluirmos todas as pessoas nos eventos [eclipses]”, diz Bieryla.

Ela juntou-se à astrónoma cega Wanda Diaz Merced, pioneira no uso da sonificação – transformação de dados em som – para analisar conjuntos de dados como explosões de raios gama. A equipa começou com três dispositivos, para o eclipse de 2017, e depois recrutou o estudante Sóley Hyman, que também é músico, para redesenhar o dispositivo e os seus sons antes do espectáculo deste ano.

OLaboratório de Astronomia da Universidade de Harvard planeia construir e disponibilizar mais de 700 unidades LightSound a instituições que promovam sessões de observação de eclipses, como faculdades, museus, parques nacionais e estaduais e escolas para invisuais. Os locais podem ser encontrados no mapa do LightSound. Qualquer instituição que organize um evento de observação de eclipse pode solicitar um dispositivo gratuitamente.

Os amantes da astronomia ou dos gadgets são encorajados a fazerem os seus próprios dispositivos. A componente instrumental do LightSound vem incorporada, mas o dispositivo e o seu código estão disponíveis ao público em acesso livre (open source). Qualquer pessoa que saiba soldar pode seguir as instruções do laboratório e criar a sua própria unidade com sons personalizados.

Bieryla diz que o objectivo do laboratório é tornar a astronomia acessível a mais gente. “Este aparelho não se destina apenas a uma pessoa cega ou amblíope. Também pode ser uma ferramenta para uma pessoa que lide com os dados de forma diferente”.

Tornando a astronomia acessível

Há muito que astronomia se baseia na visão, diz Kimberly Arcand, cientista especializada em visualização do Centro de Astrofísica Harvard & Smithsonian. “Isto remonta aos primeiros dias em que os seres humanos olharam para cima. É umpreconceito que temos devido à simples evolução da humanidade, mas está a mudar aos poucos.”

Ao longo da última década, as tecnologias como a sonificação tornaram a astronomia mais inclusiva, melhorando simultaneamente os conhecimentos científicos do universo. Arcand e a sua equipa do Observatório de Raios X Chandra, da NASA, lideraram uma grande iniciativa para sonificar dados astronómicos, como comprimentos de onda de luz, para permitir às pessoas compreender melhor maravilhas como a Nebulosa do Caranguejo – os restos de uma explosão de supernova. “Se eu ouvir uma sonificação de um conjunto de dados, ela conta-me uma história ligeiramente diferente do que se eu estiver só a olhar”, diz Arcand.

Os estudos sugerem que esta abordagem pode ser mais eficaz no ensino de pessoas neurodivergentes, disléxicas ou autistas. Segundo Mike Simmons, da Astro4Equity, uma organização sem fins lucrativos que promove programas de astronomia em comunidades marginalizadas e desfavorecidas, os cientistas criaram vários auxiliares educativos para além do som, desde livros em braille sobre a Lua e eclipses a globos tácteis para ensinar factos sobre constelações e estrelas a cegos e amblíopes.

O desafio é aumentar a consciencialização e a distribuição destas ferramentas. “Precisamos que estes recursos sejam utilizados”, diz Simmons.

É aqui que a produção em grande escala e a distribuição de dispositivos LightSound pode desempenhar um papel – para além do dia do eclipse. “O LightSound não resolve a questão do acesso para todos”, diz Bieryla. “Mas, embora seja uma coisa pequena, é uma ferramenta simples que promove a inclusão de um grupo bastante mal representado”.

Uma versão mais curta desta reportagem foi publicada na edição de Fevereiro de 2024 da revista National Geographic.