Destacamos neste artigo seis cientistas originários dos cinco continentes que fizeram contribuições relevantes para a humanidade, contextualizando as suas descobertas e o seu impacto positivo para a humanidade.

Ahmed Zewail (África)

Nascido em Damanhur – a chamada “cidade de Hórus”, no Egipto – e criado na cidade de Disuq, Ahmed Zewail, filho de um funcionário público, frequentou o ensino superior na área da química na  Universidade de Alexandria.

Por sugestão dos seus professores, rumou à Universidade da Pennsylvania, nos Estados Unidos da América, para tirar aí o seu doutoramento. Esta iniciativa marca o arranque da sua carreira internacional na investigação que o veria a fazer as malas de novo à Califórnia, primeiro para a Universidade de Berkeley e depois para o Instituto de Tecnologia da Califórnia.

AHMED ZEWAIL
CC BY 2.0

Ahmed Zewail venceu o prémio Nobel da Química de 1999. Fonte:  Simon Fraser University - University Communications (fotografia de 2010)

Foi nesta última instituição que desenvolveu o que o tornaria famoso: a femtoquímica, um ramo da química totalmente novo. Esta técnica, com recurso a lasers ultrarápidos, permite visualizar em detalhe as reacções químicas a nível atómico, o que tem implicações imensas não só ao nível da química, como também, por exemplo, ao nível da produção de componentes electrónicos.

O nome desta inovação provém da escala de tempo a que estas se processam, sendo que o tempo típico de uma reacção química é de entre 10 a 100 femtosegundos (um femtosegundo corresponde a 10-15 segundos). Esta técnica valeria ao cientista egício-americano o prémio Nobel da Química em 1999. Zewail faleceu em Pasadena, na Califórnia, em 2016. 

Min Chueh Chang (Ásia)

Nasceu em 1908 em Taiyuan, na província chinesa de Shaanxi. Filho de um magistrado, Min Chuen Chang pôde frequentar a universidade, onde se formou em 1933 em Fisiologia Animal. Inicialmente interessado em células nervosas, é convidado em 1938 a mudar-se para o Reino Unido, onde desenvolve um interesse pela biologia reprodutiva, uma área de estudo que o marcará o resto da vida.

Min Chueh Chang
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Após a Segunda Guerra Mundial, Min Chueh Chang muda-se para os EUA para continuar os seus estudos em biologia reprodutiva de mamíferos. Iniciará aí um percurso de investigação que, no meio de muitas outras descobertas (é creditado com mais de 350 artigos científicos!), dará duas valiosas contribuições para a humanidade.

Em primeiro lugar, e por razões práticas, prova que a progesterona administrada por via oral é uma maneira eficaz de impedir a gravidez em mamíferos, o que leva directamente à criação da pílula contraceptiva.

Em segundo lugar, é pioneiro nos estudos de fertilização in vitro em mamíferos (no caso, coelhos) e consequente implantação do óvulo fecundado numa fêmea, criando bases fortes para, anos depois, se conseguir reproduzir o processo em seres humanos. 

Min Chueh Chang faleceu em 1991 nos EUA. 

EGAS MONIZ (EUROPA)

Embora o português Egas Moniz tenha sido agraciado com o prémio Nobel da Medicina em 1949 pelo desenvolvimento da técnica da leucotomia pré-frontal, não é este o seu legado principal.

Aliás, a técnica desenvolvida por este médico – e ex-político – filho de aristocratas rurais nascido em Avanca, Aveiro, não só caiu praticamente em desuso, após a criação de medicamentos antipsicóticos eficazes na década de 60, como, com os anos, a justeza deste galardão passou a ser questionada.

No entanto, Moniz foi responsável por desenvolver outra técnica, de impacto muito maior na saúde humana e que ainda hoje é utilizada: a angiografia cerebral em pacientes vivos. Embora já existisse previamente a técnica de introduzir compostos radiopacos (ou seja, que não são atravessados por raios-X, aparecendo assim como sólidos numa radiografia) para visualizar os vasos sanguíneos, esta técnica era apenas utilizada em pacientes já mortos, mais que não fosse pelos fluidos utilizados, que incluíam, entre outros, petróleo e cal viva.

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Retrato do Prof. Egas Moniz (1932), pintado por José Malhoa.

António Egas Moniz (1874-1955), no entanto, desenvolveu uma solução radiopaca – inicialmente à base de iodeto de sódio, mais tarde com uma solução desenvolvida pelo próprio – que podia ser injectada numa das artérias que alimenta o cérebro sem que isto (normalmente) causasse a morte ao paciente, abrindo assim uma nova via diagnóstica que foi, ao longo dos anos, responsável por salvar centenas de milhares de vidas, senão milhões.

Esta técnica, pela qual Moniz foi nomeado quatro vezes para o Nobel – embora tenha com os anos sido abandonada para algumas situações em prol de outras mais modernas – é ainda hoje usada diariamente em meio hospitalar como meio diagnóstico.

Jennifer Doudna (América do Norte)

Em colaboração com a sua colega francesa Emmanuele Charpentier, esta cientista americana é responsável pela descoberta mais recente desta lista.

Nascida em 1964 em Washington e criada em Hilo, no Hawai, esta bioquímica doutorada por Harvard foi uma das responsáveis por aquele que provavelmente é um dos avanços científicos mais relevantes das últimas décadas – e o Comité Nobel parece concordar, tendo atribuído a Doudna e à sua colega o prémio Nobel da Química de 2020 pelo trabalho no desenvolvimento de um sistema de edição genómica utilizando o sistema Cas9-CRISPR.

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CC BY-SA 4.0 / Christopher Michel

Jennifer Doudna fotografada por Christopher Michel

O CRISPR, cujo nome é um acrónimo para Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats  (Repetições Palindrómicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas, em português), consiste em pequenas sequências de DNA repetitivo presentes em muitos procariotas, derivadas de bacteriófagos (vírus que infectam bactérias) e que são usadas pela célula para se defender dos mesmos.

Quando são lidas e traduzidas em RNA, interagem com uma enzima (no caso em questão a já mencionada Cas9) que as usa como modelo para cortar DNA que se lhe assemelhe. Se este sistema evoluiu para combater os bacteriofágos destruindo o seu DNA, o golpe de génio destas investigadoras foi perceber que era possível utilizar outras sequências de RNA com esta enzima, e que esta iria interromper a cadeia de DNA nos sítios que lhe se assemelhassem. Isto permitiria então a edição da mesma num local específico. Não é demasiado dizer que esta descoberta revolucionou completamente o mundo da genética.

IVAN IzQUIERDO (AMÉRICA do sul)

Izquierdo nasceu em Buenos Aires, na Argentina, em 1937, onde se licenciou em Medicina. Casado com uma brasileira, nos anos 70 troca o seu país pelo Brasil, onde acaba por se radicar em 1978 em Porto Alegre.

Após o seu doutoramento em Farmacologia pela Universidade de Buenos Aires, começa a investigar no campo em que se destacaria no mundo científico e para o qual tinha sido inspirado por um conto de Jorge Luis Borges, Funes el memorioso: as bases celulares e neuronais da memória.

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No Centro da Memória da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde trabalhou grande parte da sua carreira, a sua equipa foi das primeiras a nível mundial a descrever o papel dos vários neurotransmissores na formação e modulação dos processos de memória. Também descobriu que as memórias de curto e longo prazo não partilhavam uma via neuronal, como até aí se pensava, mas duas vias completamente separadas. 

Deve-se a a Ivan Izquierdo (falecido em 2021) muito do que sabemos sobre as bases físicas da memória, e virtualmente todos os neurocientistas da América do Sul foram directamente influenciados pelos mais de 500 artigos científicos que assinou durante a sua carreira.

Ernest Rutherford (Oceânia)

Nascido em 1871, numa Nova Zelândia ainda colonial, o quarto de 12 filhos de um casal de agricultores cedo se destacou nos estudos, conseguindo financiamento para ingressar na Universidade da Nova Zelândia, em Wellington. Daqui, seria convidado para continuar os estudos em Cantuária, em Inglaterra, e acabaria por ser neste país que desenvolveria uma boa parte da sua carreira, com uma passagem relevante também pelo Canadá.

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Modelo planetário do átomo proposto pelo físico Ernest Rutherford, considerado o "pai" da física nuclear.

Desde cedo, Ernest demonstrou um talento particular para o experimentalismo e para a física. Os seus primeiros trabalhos de investigação centraram-se essencialmente no magnetismo. Estes acabariam por levar ao estudo da radioactividade – é dele e do seu colega Frederick Soddy a teoria da desintegração da radioactividade, a primeira a encará-la como um fenómeno atómico e não molecular. Mais tarde, desenvolveria juntamente com Niels Bohr, com base nas teorias de Max Planck, uma teoria da estrutura atómica que se mantém maioritariamente válida até hoje.

Rutherford, que ganhou o prémio Nobel da Química em 1908 (foi o primeiro natural da Oceânia a consegui-lo) é hoje tido em grande medida como o pai da física nuclear, e isto não é de todo desmerecido: as suas descobertas influenciaram substancialmente todos os que lhe se seguiram, tendo sido muitos dos grandes físicos atómicos seus colegas ou alunos. Morreu em Cambridge, Inglaterra, em 1937. 

Ernest Rutherford LOC
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