Galardoado com o Prémio Nobel da Química em 1960, Willard Frank Libby ficou para a história por ter criado um sistema conhecido universalmente que revolucionou a arqueologia e a antropologia. Conhecido como datação por carbono 14 ou radiocarbono, este sistema é capaz de determinar, de forma muito aproximada, a idade dos materiais que contenham este isótopo radioactivo, até uma idade de cerca de 40.000 anos.

Imprescindível, mas limitado

Os estudos de Libby tiveram origem numa descoberta realizada pelo físico norte-americano Serge Korff em 1939. O trabalho de Korff afirmava que a Terra era constantemente bombardeada por raios cósmicos que produziam neutrões. Libby, que trabalhara com o trítio, um isótopo radiactivo do hidrogénio, já sabia da existência daquelas partículas na atmosfera, algo que se revelaria fundamental no seu trabalho posterior com o carbono 14. A reacção do nitrogénio com estes neutrões dá origem ao carbono 14 radioactivo em nove em cada 10 reacções e ao trítio na reacção remanescente.

Como tal, a atmosfera conteria pequenos vestígios de carbono 14 e, inclusive, partículas mais pequenas de trítio. Libby deduziu então que o carbono 14 radioactivo gerado na atmosfera pelos raios cósmicos penetraria em todos os tecidos vivos, servindo-se para tal do dióxido de carbono que seria absorvido, em primeiro lugar, pelas plantas e transmitido posteriormente a todos os animais do planeta. Quando os seres vivos morrem, esta concentração de radiocarbono começa a decair a determinado ritmo, que Libby estimou em cerca de torno 50 por cento a cada 5.568 anos.

Libby deduziu que o carbono 14 radioactivo gerado na atmosfera pelos raios cósmicos seria absorvido, em primeiro lugar, pelas plantas e transmitido posteriormente a todos os animais.

No entanto, o método de Libby tinha as suas limitações, nomeadamente a contaminação das amostras a estudar por outros materiais que também contivessem carbono. Outro dos seus inconvenientes era que os materiais inorgânicos não podiam ser datados desta forma – e, o maior de todos, o custo elevado desta análise. A antiguidade também era um inconveniente: é muito difícil datar amostras com mais de 40.000 anos, pois os seus níveis de carbono 14 são ínfimos. O problema é ainda maior se as amostras tiverem mais de 60.000 anos, pois os níveis tornam-se impossíveis de detectar.

Willard Frank Libby
Cordon Press

Willard Frank Libby recebeu o Prémio Nobel da Química em 1960. 

A calibração era ainda outra dificuldade: com a chegada da era industrial, o ser humano começou a emitir muito mais dióxido de carbono para a atmosfera, o que, juntamente com os ensaios nucleares que se sucederam, sobretudo durante a Guerra Fria, fez com que a quantidade de radiocarbono diminuísse drasticamente. Por isso, apesar de ser um método bastante exacto, a datação por radiocarbono não é uma solução milagrosa. O ambiente é tudo e pode ser complicado determinar se existe uma relação temporal entre dois objectos encontrados num mesmo sítio arqueológico.

Apesar de tudo, o carbono 14 continua a ser a ferramenta de datação mais rigorosa de que os arqueólogos dispõem actualmente, uma vez que os métodos estatísticos modernos e as bases de dados permitem aos cientistas ter em consideração os efeitos que a actividade antrópica provoca na atmosfera terrestre.

LIBBY e A GUERRA FRIA

Libby também participou noutros projectos de investigação menos pacíficos. Durante a Segunda Guerra Mundial fez parte do Projecto Manhattan, nome de código que o governo norte-americano deu ao projecto de investigação e desenvolvimento de armas nucleares. Libby integrou o projecto juntamente com o químico Harold Clayton Urey e foi o responsável por separar e enriquecer os isótopos de urânio 235, os quais foram utilizados para fabricar a bomba atómica que seria, mais tarde, lançada sobre a cidade japonesa de Hiroshima, no dia 6 de Agosto de 1945.

Terminada a Segunda Guerra Mundial, Libby trabalhou para o Instituto de Estudos Nucleares da Universidade de Chicago, fazendo parte da Comissão de Energia Atómica do governo dos EUA entre 1955 e 1959, ano em que regressou à Universidade da Califórnia como professor de química.

act
CC

Libby fez parte do Projecto Manhattan e foi o responsável por separar e enriquecer os isótopos de urânio 235, que foram utilizados para fabricar a bomba atómica lançada sobre Hiroshima.

No final da década de 1950, Libby e o físico Edward Teller, ambos comprometidos com a Guerra Fria e firmes defensores dos ensaios com armas nucleares, opuseram se à petição de Linus Pauling, galardoado com o Prémio Nobel da Química e, posteriormente, da Paz, para proibir a proliferação e utilização das armas nucleares. Para demonstrar que era possível sobreviver a um ataque nuclear, Libby construiu um refúgio contra a chuva radioactiva na sua própria casa.

No entanto, o refúgio e a casa incendiaram-se algumas semanas mais tarde, levando o físico Leo Szilard, que criticava acesamente os ensaios nucleares, a dizer com ironia: “Isto não só prova que existe um Deus, como que Ele tem sentido de humor”.