Existem muitos suplementos importantes que beneficiam as pessoas com deficiências específicas ou determinados problemas de saúde, mas segundo os estudos e alguns especialistas, determinadas vitaminas sintéticas podem fazer mais mal do que bem.

“Toda a gente anda sempre em busca daquele comprimido mágico que lhe vai dar uma saúde fantástica, mas os suplementos dietéticos não são a resposta porque os benefícios nem sempre superam os riscos”, diz JoAnn Manson, chefe de medicina preventiva no hospital Brigham and Women’s, em Boston, no Massachusetts.

Isso não significa que alguns grupos de pessoas não precisem de suplementar determinados nutrientes a dada altura da sua vida. Significa apenas que a maioria das pessoas não precisa de suplementar tantas vitaminas como pensa.

“Regra geral, não recomendo o consumo de suplementos vitamínicos, a não ser que haja uma razão específica para tal”, diz Walter Willett, professor de epidemiologia e nutrição da Faculdade de Saúde Pública Harvard T. H. Chan.

Estes conselhos são particularmente relevantes para as vitaminas solúveis em gordura.

Solúveis em água vs solúveis em gordura

Os nutrientes solúveis em água e solúveis em gordura são absorvidos de forma diferente pelo organismo.

As vitaminas solúveis em água, que incluem a vitamina C e todas as oito vitaminas do complexo B, são dissolvidas, processadas e metabolizadas rapidamente pelo organismo, não sendo armazenadas para uso posterior.

“As quantidades excessivas de vitaminas solúveis em água são excretadas na urina”, explica Alice Lichtenstein, directora da equipa de nutrição cardiovascular do centro Jean Mayer USDA Human Nutrition Research Center on Aging, na Universidade de Tufts.

Por outro lado, os nutrientes solúveis em gordura – vitaminas A, D, E e Ksãoarmazenados no fígado e nos tecidos adiposos (gordos) para serem usados mais tarde. Embora isso ajude a criar reservas de vitamina D enquanto o Sol brilha no Verão, de modo a compensar a menor exposição solar durante os meses de Inverno, também significa que estas vitaminas podem acumular-se até atingirem níveis potencialmente tóxicos.

É por isso que são divulgadas directrizes de segurança sobre o Nível Máximo de Ingestão Tolerável (UL) – nos EUA, essa responsabilidade é das Academias Nacionais – que indicam a quantidade máxima de determinadas vitaminas que ingerir em segurança, sem sofrer efeitos adversos.

“As vitaminas solúveis em gordura tendem a ter ULs mais baixos do que as vitaminas solúveis em água, o que reforça a necessidade de ter cuidado com o seu consumo”, explica Jen Messer, dietista certificada e presidente da New Hampshire Academy of Nutrition and Dietetics.

De entre as quatro vitaminas solúveis em gordura, os especialistas afirmam que as vitaminas A e E são as que exigem mais cuidado.

Preocupações com a vitamina A

A Vitamina A é importante para a visão, crescimento, reprodução e saúde imunitária. Quando ingerida através de alimentos naturais, como fígado de vaca, batata doce, espinafres, cenouras ou tarte de abóbora, nas doses recomendadas — 900 microgramas diários para homens adultos e 700 microgramas diários para mulheres adultas — a vitamina A é considerada segura e essencial.

A UL da vitamina A é 3.000 microgramas, mas é importante sublinhar que este valor inclui o consumo e absorção de todas as fontes de vitamina A – incluindo de origem alimentar, suplementos e cremes/loções contendo retinol. (Para ter uma ideia, uma dose de 100 gramas de fígado de vaca frito contém 6.582 microgramas de vitamina A.)

Exceder a UL é perigoso e “uma única dose grande pode contribuir para a toxicidade”, explica Yufang Lin, médico de cuidados primários no Cleveland Clinic’s Center for Integrative Medicine. Essa toxicidade pode causar problemas como dores articulares, lesões hepáticas e defeitos congénitos.

“A vitamina A é essencial para o desenvolvimento fetal normal, mas, em excesso pode causar danos à progenitora e ao feto, provocando um maior risco de defeitos congénitos nos olhos, coração, órgãos e sistema nervoso central”, diz Messer.

Até em quantidades modestas e sem ser na gravidez, “os suplementos de vitamina A foram associados a irritação cutânea e um aumento no risco de fracturas ósseas”, diz Manson.

Segundo investigações publicadas este ano, a toxicidade da vitamina A também pode resultar da aplicação tópica de vitamina A (retinol), um ingrediente utilizado para tratar condições como acne e psoríase.

Tem havido discussões em torno da inclusão da vitamina A nas multivitaminas. “A dada altura, havia preocupações com a quantidade de vitamina A nos suplementos multivitamínicos e a perda óssea nas mulheres mais velhas”, explica Lichtenstein. Segundo ela, é por isso que algumas marcas de multivitaminas só incluem vitamina A sob a forma de betacaroteno. (Os estudos demonstram que o betacaroteno é convertido em vitamina A no organismo, acarretando menos riscos do que as outras formas.)

Além disso, embora alguns estudos mostrem que a vitamina A obtida a partir de uma dieta equilibrada pode reduzir o risco de determinados cancros, o NIH Office of Dietary Supplements alerta para o facto de a sua ingestão através de suplementos poder aumentar o risco de determinados cancros, devido ao papel desempenhado pela vitamina A na regulação do crescimento e diferenciação celular.

“A longo prazo, uma ingestão de doses elevadas de vitamina A poderá causar doença hepática, níveis elevados de lípidos no sangue, dores ósseas e musculares e problemas de visão”, diz Kate Zeratsky, nutricionista e dietista certificada da Mayo Clinic, em Rochester, no estado do Minnesota. “Os primeiros sinais de toxicidade de vitamina A podem incluir pele seca, náuseas, dores de cabeça, fadiga, fígado gordo e perda de cabelo, entre muitos outros possíveis sintomas.”

Preocupações com a vitamina E

A vitamina E é um suplemento solúvel em gordura ainda mais polémico.

Enquanto nutriente naturalmente presente em alimentos como óleo de gérmen de trigo, abacate, peixes, sementes e frutos secos como amêndoas, avelãs e amendoins, a vitamina E é um antioxidante poderoso que protege as células dos efeitos dos radicais livres e contribui para a saúde da pele e dos olhos.

No entanto, o departamento de nutrição da Faculdade de Saúde Pública Harvard T. H. Chan salienta que o perfil de segurança da sua forma sintética é tema de debate entre os académicos: “Devido a relatos ocasionais de efeitos negativos para a saúde causados por suplementos de vitamina E, os cientistas têm discutido se estes suplementos poderão ser nocivos e até aumentar o risco de morte”.

Um dos pontos de polémica e confusão em relação à vitamina E é o facto de o nutriente existir sob diversas formas, algumas mais bem estudadas do que outras.

“A vitamina E existe naturalmente em oito formas químicas, enquanto a maioria dos suplementos de vitamina E são alpha-tocopherol sintético”, explica Lin. E este alpha-tocopherol parece acarretar mais riscos do que as outras formas de vitamina E. “É um argumento a favor de ser preferível ingerir alimentos ricos em vitamina E a tomar um suplemento sintético”, concorda Zeratsky. “Acho que é preciso compreender melhor como as diferentes formas de vitamina E funcionam e interagem no nosso organismo”, afirma.

Também existe alguma confusão sobre quanta vitamina E é seguro consumir. Adose diária recomendada (RDA) de vitamina E é 15 miligramas para homens e mulheres adultos, mas o seu UL é 1.000 miligramas. O NIH Office of Dietary Supplements alerta que “ingerir suplementos de vitamina E pode ser nocivo até abaixo destes limiares”.

Com efeito, estudos clínicos demonstraram que a ingestão de apenas 268 miligramas diários de vitamina E pode aumentar o risco de cancro na próstata em 17 por cento. A forma sintética utilizada nos suplementos também foi associada a cancro do pulmão.

“E não é necessário alcançar os níveis tóxicos para sentir as desvantagens”, acrescenta Manson. “Ensaios aleatórios de vitamina E evidenciaram problemas até com quantidades moderadas.” Doses mais elevadas de suplementação de vitamina E também podem interferir com a formação de coágulos no sangue, que podem provocar hemorragias, diz Jessika Rose, dietista bariátrica da Universidade de Maryland Upper Chesapeake Health.

Devido a estas e outras questões, estudos publicados pela American Heart Association mostram que a suplementação de vitamina E já não é recomendada nos seus níveis mais elevados, necessários para contribuir para a protecção contra doenças crónicas como cancro, artrite e cataratas.

“Resumidamente, trata-se de avaliar o equilíbrio entre os potenciais riscos e recompensas”, explica Messer.

Falta de regulação nos suplementos dietéticos

Outra fonte de preocupação para os especialistas, que afecta tanto as vitaminas solúveis em água como as solúveis em gordura, é que os suplementos não são regulados pela agência norte-americana do medicamento (FDA) segundo os mesmos critérios aplicados aos alimentos e aos fármacos.

Isto pode conduzir a afirmações infundadas e até a rótulos que identifiquem erroneamente os ingredientes de cada suplemento. “Segundo uma análise independente recentemente realizada a 57 suplementos dietéticos, 84 por cento não continha os ingredientes na quantidade indicada e 40 por cento dos suplementos não continha quaisquer dos ingredientes que afirmava ter”, diz Messer.

“Além disso, 12 por cento dos suplementos continham ingredientes não declarados, algo que é proibido pela FDA.”

Cabe, então, aos consumidores escolher marcas de confiança e comprar produtos testados e classificados por entidades externas reconhecidas. “E devem ter muito cuidado com qualquer suplemento que se afirme ser capaz de tratar uma doença, uma vez que não se podem fazer tais afirmações [a propósito dos] os suplementos”, diz Lin.

É igualmente importante verificar as recomendações da dose diária e os UL dos suplementos dietéticos e assegurar que um suplemento não interfere com outro. “Converse com o seu médico ou dietista para determinar os nutrientes específicos de que necessita”, sugere Rose.

“Pensar que os suplementos vitamínicos são benéficos para todos é um equívoco comum”, diz Messer. “Podem ser benéficos para alguns indivíduos em situações específicas, mas não são universalmente necessários, podem ser dispendiosos e não são inteiramente isentos de riscos.”

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.