Uma equipa de investigação do Early Life Traces & Evolution Laboratory da Universidade de Liége (Bélgica) identificou tilacóides – estruturas microscópicas intracelulares onde ocorre a fotossíntese – em fósseis de uma espécie enigmática chamada Navifusa majensis (N. majensis), uma cianobactéria. A descoberta foi descrita na Nature no início de Janeiro. 

Estes fósseis, encontrados em xistos da formação de McDermott, na Austrália, estimados em mais de 1,75 mil milhões de anos, e também em formações semelhantes com cerca de mil milhões de anos situadas na zona ártica do Canadá, foram reconhecidos através de análises ultra-estruturais que permitem dizer sem equívoco que estas células possuíam já tilacóides.

A paleobióloga e astrobióloga Emmanuelle Javaux afirma que a descoberta vem “estender o registo fóssil por mais 1,2 mil milhões de anos”. Até agora, os exemplares mais antigos encontrados deste tipo de estruturas tinham “apenas” cerca de 550 milhões de anos. “A descoberta de tilacóides preservados em N. majensis dá-nos evidência directa de que a divergência entre as cianobactérias com e sem tilacóides terá ocorrido há pelo menos 1,75 mil milhões de anos”, recorda a também directora do laboratório belga.

Navifusa majensis
CRÉDITO: Emmanuelle Javaux

Imagem de Navifusa majensis, um microfóssil da Formação McDermott, na Austrália. Este microfóssil com 1,75 mil milhões de anos contém tilacóides, que o identificam como uma cianobactéria.

compreender melhor o “Holocausto do Oxigénio"

Esta descoberta abre a possibilidade de encontrar fósseis deste tipo ainda mais antigos, podendo assim clarificar o papel que seres com estas estruturas terão tido no Grande Evento de Oxigenação, um evento fulcral na história da vida na Terra que terá ocorrido há cerca de 2,4 mil milhões de anos.

Conhecido também de forma menos benévola como Catástrofe do Oxigénio ou o Holocausto do Oxigénio, este período ocorreu quando a atmosfera da Terra passou de pobre em oxigénio e de carácter essencialmente redutor, no sentido químico da palavra, para rica em oxigénio e de carácter oxidante. E a que se deveu esta mudança extraordinária? À proliferação de seres vivos que praticavam um tipo de fotossíntese (o mais comum hoje) que tinha o oxigénio na sua forma molecular como um dos produtos finais. As consequências desta reviravolta foram muito sérias para a maior parte dos seres vivos então existentes, que tinham evoluído em condições muito distintas das que agora se lhe deparavam e, embora geralmente não seja incluído na lista das grandes extinções, o Grande Evento de Oxigenação levou a uma contracção muito relevante da biomassa existente à época.

Mas o que são mesmo os tilacóides?

Os tilacóides são estruturas intracelulares membranosas, situadas dentro dos cloroplastos, os organelos descendentes de cianobactérias que se encontram nas células das plantas e algas verdes, ou dentro de cianobactérias fotossintéticas que vivem autonomamente. É dentro destas estruturas que se encontra a clorofila, o pigmento mais relevante no processo de fotossíntese, assim como outros compostos essenciais para este processo. É também nelas que se dão as reacções químicas mais relevantes neste processo. No cloroplasto, os tilacóides, que têm forma de disco, apresentam-se organizados em  pilhas, que são chamadas grana (granum, no singular).