Jennifer Wargo afixou no seu frigorífico um gráfico com o teor de fibra de vários alimentos: 15 gramas numa chávena de feijão preto, oito gramas numa chávena de framboesas, 4,5 gramas numa maçã com pele de tamanho médio. Todos os dias, a cirurgiã oncologista e investigadora do cancro incentiva os seus três filhos, com sete, 11 e 13 anos, a ingerirem alimentos suficientes da lista, de modo a alcançar os 50 gramas.

O objectivo: controlar a inflamação da família

Ao longo das últimas décadas, alguns investigadores, incluindo Wargo, acumularam provas de que alguns ingredientes essenciais numa dieta saudável são mais eficazes do que outros no controlo da inflamação, reduzindo o risco de doença cardiovascular e cancros, entre outras doenças. Agora, os cientistas estão a focar-se na comunidade de bactérias que vive no nosso sistema digestivo — o microbioma intestinal — como o sítio onde alimentos e ingredientes específicos, incluindo as fibras, promovem ou inibem reacções inflamatórias que acabam por afectar a trajectória das doenças e a resposta do organismo aos tratamentos contra o cancro. Focando-se no intestino, estão a descobrir novidade sobre como usar a alimentação de forma medicinal de modo a prevenir e tratar doenças crónicas.

Wargo, sediada no MD Anderson Cancer Center em Houston, copiou o gráfico de um livro de cozinha publicado pela editora americana Test Kitchen intitulado Cook for Your Gut Health: Quiet Your Gut, Boost Fiber, and Reduce Inflammation. Oferece-o frequentemente às pessoas no Natal. “Não prestava muita atenção a isto até começarmos a estudá-lo”, diz Wargo. “Depois pensei, ‘caramba, isto é mesmo profundo.’”

Uma maçã por dia

Há milhares de anos que a nutrição é um pilar dos conselhos de saúde, com base em observações duradouras que associaram determinados padrões de alimentação a vidas mais longas e saudáveis.

Nos tempos modernos, a inflamação tornou-se um alvo popular da alimentação saudável, com uma série de estudos que associa vários alimentos e dietas a menores incidências de doença e a níveis mais reduzidos de moléculas inflamatórias no sangue. Muitos destes estudos incidem sobre a dieta mediterrânea, repleta de frutos, legumes, peixe e cereais integrais e com poucas gorduras saturadas, privilegiando o azeite e incluindo lacticínios com moderação.

Ao longo de décadas de investigação, a dieta mediterrânea foi associada a riscos inferiores de desenvolver doença cardiovascular, diabetes tipo 2 e outras doenças, incluindo problemas de saúde mental. Os estudos sugerem que uma alimentação mediterrânea pode reduzir o risco de depressão em 33 por cento, diz Wolfgang Marx, especialista em psiquiatria nutricional do centro Deakin University’s Food & Mood Centre, em Melbourne, na Austrália.

dieta mind
FOTOGRAFIA DE FEIFEI CUI-PAOLUZZO, GETTY IMAGES

A dieta MIND centra-se no consumo abundante de legumes de folha verde, que, segundo se crê, fornecem nutrientes que contribuem para o funcionamento cerebral.

Estudos descobriram outros benefícios proporcionados por variantes da dieta mediterrânea. A dieta DASH, sigla que significa Dietary Approaches to Stop Hypertension (Abordagens Diéticas para Travar a Hipertensão, em português) pode ajudar a baixar a tensão arterial. A dieta MIND, que é semelhante à DASH, com uma ênfase adicional em nutrientes bons para o cérebro, como os ácidos gordos ómega-3 e a vitamina D, e rica em alimentos vegetais como bagas e legumes de folha verde, pode ajudar a proteger o cérebro. Numa análise de vários estudos realizada em 2023, as pessoas que cumpriam mais rigorosamente a dieta revelaram um risco 17 por cento inferior de desenvolver demência do que as pessoas que a seguiam menos, embora resultados de testes clínicos recentes tenham levantado algumas dúvidas sobre essa ligação.

Embora a verdadeira magnitude destes benefícios ainda seja tema de discussão – em parte por que estudar a alimentação é complicado e porque as pessoas com dietas mais saudáveis também costumam adoptar outros comportamentos saudáveis – vários estudos descobriram níveis mais baixos de moléculas inflamatórias no sangue de pessoas que seguem dietas de estilo mediterrâneo. Estudos realizados com placas de laboratório, animais e pessoas também descobriram respostas anti-inflamatórias a nutrientes e ingredientes específicos, incluindo curcuma, peixes oleosos, maçãs, abacates, cenouras e legumes de folha verde.

TAC
IMAGEM DE STEVEN NEEDELL, SCIENCE SOURCE

É possível que determinada combinação de alimentos seja mais bem absorvida pelo organismo e, consequentemente, mais eficaz no combate a condições inflamatórias crónicas como a gota, visível acima numa imagem de TAC.

Em termos gerais, é provável que os alimentos e nutrientes interajam e afectem a saúde mais do que determinado superalimento ou especiaria da moda, diz Fred Tabung, investigador de cancro na Faculdade de Medicina da Ohio State University e do Comprehensive Cancer Center, em Columbus. Numa análise realizada em 2023, que usou moléculas inflamatórias como métrica para os efeitos dos alimentos na saúde, de tamanho médio e os seus colegas descobriram que estas moléculas, ou biomarcadores, reagiam de forma diferente com base na combinação de alimentos e bebidas ingerida pelos indivíduos. Os resultados sugerem que comer uma salada de tomate com uma fonte de gordura como abacate e um pedaço de queijo, por exemplo, pode ser reduzir mais a inflamação sistémica crónica do que comer apenas tomate, diz Tabung.

A confecção também é importante: as batatas assadas afectam o sistema imunitário de forma diferente do que as batatas fritas. Tabung está a pensar em desenvolver uma ferramenta para ajudar a planear refeições. “Os mesmos nutrientes podem interagir com diferentes fontes de alimento e afectar os mesmos biomarcadores de forma diferente e estes biomarcadores são os factores que causam doença crónica”, afirma. “A fonte onde obtemos o nutriente é mais importante do que o nutriente em si.”

Por outro lado, as dietas com muitos alimentos processados, carne vermelha e gorduras saturadas, parecem aumentar a inflamação e acelerar o desenvolvimento de doenças. Em 2021, Marx e os seus colegas examinaram 15 análises de estudos com dados de quatro milhões de pessoas de todo o mundo e concluíram que as pessoas que consumiam mais alimentos ultra-processados corriam mais riscos de sofrer ataques cardíacos, cancro, depressão e morte prematura. Os alimentos ultra-processados são definidos como alimentos convenientes e com grande longevidade, contendo cinco ou mais ingredientes quase nunca utilizados na comida caseira, como preservantes, corantes e compostos que acrescentam textura ou intensificam o sabor.

Por cada aumento de 100 gramas nos alimentos de fabrico industrial, a investigação mostrou um aumento de quatro por cento nos níveis de proteína C reactiva, produzida pelo fígado como resposta à inflamação – e frequentemente interpretada como indicador de inflamação no organismo. Segundo algumas estimativas, aqueles tipos de alimentos compõem quase 60 por cento das calorias consumidas nos EUA e até metade das calorias consumidas em alguns países. “Uma dieta saudável tem um efeito anti-inflamatório, mas agora estamos a ver os efeitos pró-inflamatórios das dietas não saudáveis”, diz Marx. “Estamos a ver ambos os lados.”

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IMAGEM DE THE VISUAL MD, SCIENCE SOURCE / SCIENCE PHOTO LIBRARY

Esta visualização médica mostra células gordas a activarem a produção e libertação de proteína C reactiva (PCR) – um biomarcador chave da inflamação – no fígado.

Micróbios bons, micróbios maus

À medida que as investigações continuam a averiguar quais os alimentos que promovem ou combatem a inflamação e quais as melhores combinações, o microbioma intestinal tornou-se o foco dos esforços para compreender como é que os alimentos podem causar ou inibir a inflamação.

Há muito que os cientistas sabem que o nosso organismo é habitado por muitas centenas de tipos de bactérias. Nos nossos intestinos, estes micróbios ajudam-nos a digerir os alimentos, produzindo moléculas que comunicam com o nosso sistema imunitário ao longo do processo. Por sua vez, estas mensagens influenciam a quantidade de inflamação produzida pelo nosso organismo. Segundo os estudos, aquilo que comemos altera a composição das espécies microbianas e as comunidades de bactérias que cultivamos no nosso organismo foram associadas à probabilidade de desenvolver cancros, depressão, autismo, artrite e doença inflamatória do intestino, entre outros problemas de saúde.

Segundo Wargo, a diversidade e variedade do microbioma intestinal parece particularmente importante. Quando o intestino contém muitas espécies de micróbios, incluindo as variedades mais desejáveis, o sistema imunitário consegue dar o seu melhor para regular a inflamação e manter a saúde. Quando esse equilíbrio é perturbado, algumas espécies começam a dominar o ecossistema, tornando o sistema imunitário menos capaz de responder adequadamente ou combater as doenças.

Fezes
FOTOGRAFIA DE MARTIN OEGGERLI, NATIONAL GEOGRAPHIC IMAGE COLLECTION

Uma amostra de fezes humanas, que inclui uma bactéria enorme. Microbioma intestinal.

Segundo alguns estudos, a alimentação pode ser uma das formas de ajustar o microbioma para tratar doenças, incluindo o cancro – e as fibras parecem ser peças muito importantes do puzzle. Em 2017, após anos de trabalho, Wargo, a sua colega Carrie Daniel-MacDougall e outros, estabeleceram uma ligação entre a composição dos micróbios intestinais, que ajudam a digerir a fibra, e a capacidade de resposta a um tipo de imunoterapia contra o cancro denominada bloqueio dos pontos de controlo imunológicos, conhecida em inglês pela sigla ICB. Em testes realizados com animais, os investigadores descobriram que os ratos com dietas pobres em fibras não reagiram à imunoterapia, mas aqueles que ingeriram mais fibra tiveram bons resultados. A composição dos seus microbiomas estava correlacionada com essas diferenças.

Agora, estão a obter o mesmo tipo de resultados em pessoas. Após analisar as dietas e o microbioma intestinal de 128 pacientes com melanoma tratados com ICB, descobriram que, por cada cinco gramas de fibra ingeridos diariamente, o risco de progressão ou morte devido a doença diminuía 30 por cento. Esse artigo, publicado em finais de 2021, foi inovador, tendo contribuído para uma nova forma de ver como a alimentação pode, não só prevenir o cancro, como contribuir para o seu tratamento. “Foi um sucesso”, diz Wargo. “Abriu a porta para toda uma nova gama de tratamentos”, acrescenta. 

Agora, os cientistas estão a tentar descobrir a forma como diferentes dietas influenciam o microbioma de diferentes grupos de pessoas, para além dos doentes com cancro – e é provável que a fibra não seja o único nutriente importante. A dieta mediterrânea foi associada a uma melhor resposta aos tratamentos ICB em pessoas com melanoma avançado, segundo um trabalho desenvolvido pela dietista Laura Bolte, da Universidade de Groningen, nos Países Baixos. Alimentos fermentados como o iogurte, o kimchi e a kombucha reduziram os marcadores inflamatórios e aumentaram a diversidade do microbioma intestinal num teste com 36 adultos saudáveis realizado em 2021 pela Faculdade de Medicina de Stanford.

No entanto, ainda há muito por descobrir. O estudo da fermentação, por exemplo, descobriu poucos a nenhuns benefícios numa dieta com um elevado teor de fibra, possivelmente porque os participantes do teste já ingeriam uma quantidade razoável de fibra quando o estudo começou, afirma Daniel-MacDougall, epidemiologista nutricional do MD Anderson Cancer Center em Houston e um dos colaboradores de Wargo.

Mudança de paradigma

Apesar disso, segundo os investigadores, o enfoque no microbioma tem motivado uma mudança de paradigma no campo da nutrição e da doença. Daniel-MacDougall diz que há mais de uma década não tinha conselhos fundamentados e comprovados para dar aos doentes de cancro que lhe perguntavam o que poderiam comer para ajudar a combater a doença. Agora, as provas estão a aumentar no sentido de recomendar a ingestão de uma grande variedade de frutos, legumes e alimentos com um elevador teor de fibra, incluindo abacates, frutos silvestres e legumes de folha verde, e uma redução no consumo de alimentos ultra-processados, carne vermelha, açúcar e gorduras saturadas – com algumas nuances, dependendo da condição física e das necessidades nutricionais de cada indivíduo.

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FOTOGRAFIA DE GILES PRICE, NATIONAL GEOGRAPHIC IMAGE COLLECTION

A inflamação crónica do intestino pode desencadear o caos em todo o organismo – até no cérebro, onde pode causar problemas de saúde mental. No entanto, podemos influenciar a inflamação através daquilo que comemos – ou não comemos.

Os alimentos podem ser mais eficazes do que os suplementos, acrescenta Daniel-MacDougall, porque contêm determinados compostos que estimulam as bactérias e são mais eficientes na manutenção do equilíbrio do microbioma. “Quando não temos soldados suficientes, os bichos maus podem prosperar”, diz.

Há muito que as dietas anti-inflamatórias são tendência. No entanto, enfatizam, frequente e erradamente a redução da inflamação, em vez de optimizarem a forma como o organismo regula todo o processo, dizem os especialistas, atribuindo demasiado valor a alimentos ou nutrientes específicos, em vez de a uma alimentação saudável em geral.

Embora muitos dos conselhos derivem de novos estudos que ecoam conselhos antigos sobre o que comer, existem agora mais razões do que nunca para explicar porquê. “Escolha uma dieta rica em alimentos vegetais com muita fibra”, diz Daniel-MacDougall. “Coloque mais disso no seu prato e deite o resto fora.”