Desde viagens interestelares à clonagem de espécies já extintas, passando pela exploração da mente humana ou a modificação genética, o cinema tem esquadrinhado conceitos científicos atraentes e provocadores ao longo dos anos, encontrando neles uma inesgotável fonte de inspiração. Através de diferentes filmes, os espectadores têm visto o grande ecrã transformar-se num laboratório dantesco onde as leis da natureza são sucessivamente distorcidas.

A investigação científica tem, tantas vezes, sido uma força impulsionadora por detrás de muitos filmes, alguns deles êxitos de bilheteira. Cada um representa um cruzamento entre o cinema e a ciência, demonstrando que, tal como muitos outros recursos, a narrativa cinematográfica também pode ser uma ponte válida entre o laboratório e o público em geral.

Interstellar

Considerado uma obra-prima da ficção científica, este filme de Christopher Nolan mergulha completamente nos limites do espaço e do tempo, explorando conceitos tão técnicos como a Teoria da Relatividade de Einstein ou os buracos de verme. O argumento desenrola-se num futuro distópico onde a falta de recursos e as alterações climáticas levaram a Terra até ao limite da destruição. Para salvar a humanidade, um grupo de astronautas parte para o espaço numa missão em busca de planetas habitáveis e um novo lar.

É uma produção muito aclamada pela forma como respeita os princípios da Teoria da Relatividade de Einstein. Por exemplo, aborda com rigor o conceito de dilatação do tempo, segundo o qual o tempo passaria de forma diferente em diferentes planetas, em função da intensidade da sua gravidade. A estes elementos, acrescenta-se o enfoque dado a temas mais profundos, como a luta da humanidade pela sobrevivência perante um cenário devastado pela crise climática, um problema mais do que presente nos dias que correm.

CONTACTO

Baseada no prestigiado romance de Carl Sagan, Contacto é outra pérola da ficção científica que explora a ideia da comunicação com extraterrestres e o papel fundamental que a ciência desempenharia nesse processo. A história é protagonizada por uma cientista que descobre sinais de rádio misteriosos provenientes de Vega, uma estrela pouco distante, os quais desencadeiam uma grande colaboração internacional e preocupação em interpretar a mensagem recebida e contactar essa inteligência extraterrestre.

Aquilo que transforma Contacto numa obra merecedora de destaque na filmografia científica é a forma detalhada como aborda a radioastronomia e, por conseguinte, a detecção de ondas provenientes do cosmos, uma prática muito comum no estudo astronómico. Partindo desta disciplina, o filme explora comportamentos científicos reais, como o tratamento dos dados astronómicos recebidos e a sua correcta interpretação.

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FOTOGRAFIA: CORDON PRESS

Carl Sagan, autor do romance Contacto, transposto para o cinema com o mesmo título.

Contacto aborda outras questões mais abrangentes, dilemas éticos da sociedade actual e que a dividem em diferentes grupos, como a tensão entre ciência e religião, a diplomacia internacional quando é necessário abordar determinadas descobertas científicas, a importância da perseverança e da investigação constante no campo da ciência.

PARQUE JURÁSSICO

Parque Jurássico é, provavelmente, uma das longas-metragens que mais marcaram a história do cinema e quase todos devem conhecer o seu tema: a clonagem genética. O filme mostra como um milionário excêntrico consegue dar vida a uma série de dinossauros através da clonagem, fundando um parque temático para todos os que queiram visitá-lo. No entanto, esse cenário ideal e atraente acaba por se transformar no mais completo caos.

A clonagem genética na base do enredo de Parque Jurássico baseia-se num conceito científico real (embora agora datado) pois, na actualidade, e ao longo dos últimos anos, a clonagem e a manipulação genética têm sido áreas em constante desenvolvimento. Não devemos esquecer que em 1996 (apenas três anos após a estreia deste filme), a ciência alcançou um dos seus maiores feitos: o nascimento da ovelha Dolly, o primeiro ser vivo clonado a partir de uma célula adulta.

GATTACA

Igualmente relacionado com a genética, Gattaca é um filme realizado por Andrew Niccol. Neste caso, a acção desenrola-se num futuro em que a genética e a discriminação a ela associada são elementos fundamentais da sociedade, pois os indivíduos concebidos de forma natural encontram-se em desvantagem, comparados com aqueles cujo genoma foi concebido e aperfeiçoado por tecnologias de reprodução assistida. Levantam-se, assim, questões profundas sobre a ética da manipulação genética e a busca da perfeição.

O facto de estabelecer como protagonistas elementos como a eugenesia ou o desenvolvimento biotecnológico permite colocar Gattaca no epicentro dos filmes com uma base científica. Ao longo de toda a longa-metragem, levantam-se questões éticas essenciais sobre a manipulação genética ou a criação de humanos “feitos por medida”, sem nenhum tipo de imperfeição, realçando todas as injustiças, manipulações e limitações que esse pensamento traria à sociedade.

Uma MENTE brilhante

Saindo do âmbito da ficção científica, Uma Mente Brilhante merece destaque entre os filmes baseados em histórias verídicas. Narrando a vida do matemático John Nash, consegue abordar duas vertentes científicas de forma rigorosa e muito transparente: em primeiro lugar, a esquizofrenia de que padece o protagonista e as teorias e os seus contributos para a comunidade.

PETER BADGE / TYPOS1 - SUBMISSION BY WAY OF JIMMY WALES
PETER BADGE / TYPOS1 - SUBMISSION BY WAY OF JIMMY WALES

Retrato do matemático John Forbes Nash, captado em 2007.

O filme apresenta uma representação muito cuidadosa e pormenorizada do distúrbio da esquizofrenia, desde as alucinações que afligem o matemático à sua luta para manter a sanidade à medida que a sua doença vai progredindo, desafiando assim os estigmas existentes em torno dos problemas de saúde mental. Além disso, Uma Mente Brilhante apresenta a matemática e, mais especificamente, a teoria dos jogos desenvolvida por Nash de uma forma muito acessível para o público. Embora não aprofunde este campo, transmite a paixão do matemático pela resolução de problemas e mostra como os seus contributos para a economia tiveram um grande impacto na comunidade científica.

O DIA DEPOIS DE AMANHÃ

Numa relação directa com o problema das alterações climáticas, destaca-se a longa-metragem O Dia Depois de Amanhã, no qual o planeta enfrenta um cenário apocalíptico com uma série de eventos meteorológicos extremos – tornados, cheias, uma idade do gelo repentina… – desencadeados pelas alterações climáticas que ameaçam a sobrevivência da humanidade.

Embora o filme pertença ao género da ficção científica e os seus desastres naturais sejam exageros dramáticos dos efeitos das alterações climáticas, baseia-se em conceitos científicos reais e na preocupação cada vez maior com o aquecimento global e as suas consequências. O enredo consegue realçar a importância decisiva de nos consciencializarmos e de tomarmos medidas para combater as mudanças climáticas, bem como o facto de a falta de acção humana poder ter consequências catastróficas para o planeta e a sobrevivência da espécie.

FRANKEnSTEIN

Esta obra clássica da literatura de ficção científica da autoria de Mary Shelly, adaptada diversas vezes para o cinema, continua a ser um dos filmes mais emblemáticos no que diz respeito às primeiras reflexões sobre as questões científicas, éticas e filosóficas relacionadas com a criação da vida. Como se sabe, a história gira em torno do cientista Victor Frankenstein, um homem obcecado com a ideia de criar vida a partir de partes de cadáveres, recorrendo à energia eléctrica produzida durante uma tempestade.

Embora seja um enredo cheio de fantasia, Frankenstein conseguiu explorar a ambição científica desenfreada e a responsabilidade na criação de seres vivos num contexto histórico em que a ciência e a tecnologia avançavam rapidamente nos campos da electricidade e da anatomia: os físicos Gauss e Weber estavam a realizar as suas investigações que dariam origem aos antecessores dos telégrafos eléctricos e os estudos de anatomia a partir do uso de cadáveres eram populares na altura.

Por outro lado, o filme também reflecte profundamente sobre a natureza da humanidade, bem como sobre a perda de controlo ou de autoridade do indivíduo sobre si próprio. É uma das obras mais aplaudidas de sempre e serviu de inspiração a diversas adaptações ao longo dos anos, algo que reforça a importância dos temas éticos e científicos abordados.