“Ainda há pessoas que me dizem: Olha, sabes que tens o nome de uma ave?”, diz Carla Dove [rola], rindo-se. É compreensível. Enquanto directora do Laboratório de Identificação de Penas do Museu Nacional de História Natural Smithsonian, em Washington D.C., Dove passa o dia inteiro – e todos os dias – a pensar em aves, incluindo rolas.

Do mesmo modo, Greg Pond[lago] trabalha como biólogo aquático, recolhendo amostras em corpos de água na região nordeste dos EUA para a Agência de Protecção Ambiental. “O meu caminho é a água e todas as coisas que nela vivem”, diz Pond. “E é claro que, quando era miúdo, algumas pessoas deram-me a alcunha de Pondscum [película de algas que cresce à superfície da água].”

Pond e Dove são exemplos daquilo que se conhece por aptónimos – pessoas com nomes adequados às suas carreiras. No passado, os aptónimos seriam muito mais comuns do que actualmente. Afinal, apelidos como Baker [padeiro], Barber [barbeiro] e Butler [mordomo], entre muitos outros, derivaram originalmente da ocupação de uma pessoa ou família.

Hoje em dia, porém, as pessoas têm mais opções profissionais do que nunca. Por isso, é muito engraçado quando um nome parece adequar-se na perfeição ao percurso de uma pessoa. “De vez em quando, descubro que algumas pessoas acham que mudei o meu nome por estar tão entusiasmada com a minha carreira”, diz Betsy Weatherhead [cabeça de clima], cientista atmosférica galardoada que trabalhou no Grupo de Assessoria Científica da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA). “E não foi nada disso que aconteceu.”

No entanto, tudo isto levanta uma questão interessante – poderá o nome de uma pessoa influenciar a trajectória da sua vida?

O poder dos nomes

Embora Weatherhead diga que o seu apelido não tem nada a ver com o clima – é um nome escocês antigo que se refere a pastores de cabras – as pessoas da sua cidade natal, Wilmette, no estado de Illinois, não sabiam isso. “Cresci numa cidade pequena, tenho muitos irmãos e irmãs e somos todos muito parecidos”, explica Weatherhead. Por isso, as pessoas dirigiam-se frequentemente aos seus parentes perguntando lhes: “Então como está o tempo, Weatherhead?’”, recorda. “E eu detestava isso porque, quando temos 11 anos, queremos ser conhecidos como indivíduos únicos.”

Com efeito, a associação negativa com o seu apelido poderia ter afastado Weatherhead da climatologia, se não tivesse acontecido uma pequena reviravolta daquilo a que poderemos chamar destino aptononímico. Depois de perder a sua vaga na pós-graduação de física de partículas devido aos cortes orçamentais da administração Reagan, Weatherhead candidatou-se um emprego de Verão a processar dados para um cientista atmosférico. O cargo teve cerca de uma dezena de candidatos, mas o secretário do cientista disse-lhe mais tarde que a sua candidatura foi colocada no topo da pilha devido ao seu nome. O cientista “andava de um lado para o outro a dizer Weatherhead. Weatherhead. Temos de contratá-la!”

J. Sook Chung, cientista da Universidade de Maryland, lembra-se de um momento semelhante quando se apresentou diante de uma comissão de investigação ao candidatar-se ao seu trabalho actual, estudando caranguejos azuis. “Uma das fases de vida dos caranguejos azuis, a fêmea adulta, chama-se sook”, diz Chung. “Escreve-se exactamente da mesma maneira.” Partilhar o nome do animal que se propunha a estudar veio a revelar-se um quebra-gelo bastante útil. “Estou a brincar quando digo isto, mas eu estava destinada a trabalhar com caranguejos azuis”, diz Chung.

Como é óbvio, nem todas as pessoas consideram as associações dos seus nomes positivas ou significativas. “Imensas pessoas já repararam na aparente ligação entre o meu nome e o campo de estudo que escolhi”, diz Stephen Pyne [pyne soa como pine e significa pinheiro], escritor e cientista ambiental da Arizona State University cujo trabalho incide em florestas e incêndios, num e-mail. “Tenho de confessar que não sou uma delas”. Do mesmo modo, Ted Stankowich, um ecologista comportamental evolutivo que estuda doninhas [skunks], diz que o seu nome [stank é o tempo verbal no passado de stink, que significa feder] nunca teve um efeito visível na sua carreira”. “Lido com o meu apelido desde sempre e já me inventaram algumas alcunhas, como pode imaginar”, diz, “mas não isso nunca foi uma questão.”

O que há num nome?

É interessante verificar que podemos identificar alguma psicologia em acção. Por exemplo, num estudo publicado em 2015 na revista Self and Identity, Brett Pelham, professor de psicologia da Montgomery College, no estado americano de Maryland, utilizou dados de recenseamentos para procurar provas de egotismo implícito – fenómeno em que alguém gravita em direcção a pessoas, locais ou objectos parecidos consigo – e encontrou algumas tendências fascinantes.

“Descobrimos que, no caso de apelidos que também são profissões, como Butcher [talhante], Baker [padeiro], Carpenter [carpinteiro], Miner [mineiro], Mason [pedreiro], Porter [carregador], Painter [pintor], etc. — o número de homens com esses apelidos destacava-se nessas profissões”, diz Pelham. “Nesse mesmo artigo, descobrimos que as pessoas têm 6,5 por cento mais probabilidades de se casarem com outra pessoa cuja data de aniversário seja a mesma que a sua do que seria de esperar”, afirma. Outro pormenor interessante? Os homens chamados Cal e Tex demonstraram mais probabilidades de se mudarem para a Califórnia e o Texas.

Outro dos estudos de Pelham descobriu uma maior probabilidade de uma pessoa chamada Dennis ou Denise se tornar dentista e não advogado. Pelham adverte que os efeitos observáveis neste tipo de estudos tendem a ser pequenos. Mesmo assim, “se analisarmos o conjunto de dados completo, toda a vasta literatura de psicologia social e cognitiva, existem provas de que nem sempre temos livre-arbítrio”.

Tendências comuns

Além de lhes perguntarem se tinham alterado o seu nome legalmente, as pessoas com aptónimos costumam ter experiências divertidas na vida quotidiana. “No primeiro dia de aulas, entro sempre na sala, escrevo meu nome no quadro e depois digo: Não, isto não é real”, diz Frank Fish, biólogo marinho da Universidade West Chester, na Pensilvânia. Fish diz que o seu nome também lhe dificulta tarefas que tem de realizar no âmbito do seu trabalho, como contactar aquários. “Telefono-lhes e digo: gostaria de falar com o seu director de investigação. E perguntam-me: Como se chama? E eu respondo: Frank Fish… e depois há uma pausa”, diz, rindo-se.

Para o bem ou para o mal, a maioria dos entrevistados diz que ter um aptónimo os tornou mais conhecidos na sua área. “Existe um cientista atmosférico bastante famoso que se chama Carlo Buontempo,” diz Weatherhead. “Ele é de Itália e, em italiano, Buontempo significa ‘bom tempo’.” Nas conferências, até se tornou tendência as pessoas tentarem fotografar Weatherhead e Buontempo juntos. “A maioria das pessoas têm de trabalhar muito e de fazerem coisas extraordinárias na ciência para serem recordadas”, diz Weatherhead, a brincar. “Mas as pessoas lembram-se naturalmente de mim e estou grata por isso.”

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.