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Sumario / Setembro 2011

Os senhores perdidos do deserto do Saara. Pág 2. Em quase cada passada que damos, os nossos pés esmagam ruidosamente cartuchos queimados. “Sigam as minhas pegadas”, previne ele, observando que o exército do Níger minou a zona, no lugar onde outrora existira uma escola para os tuaregues. Os seus homens retiraram alguns dispositivos, outros ficaram perdidos nas areias sempre em movimento.
Chegámos ao final da tarde. Estamos na estação seca e a temperatura desceu finalmente abaixo de 40°C. As dunas beges que se prolongam para norte vão ganhando uma tonalidade rosada e as sombras das cristas íngremes a sudoeste alongam-se. Neste vale solitário, chamado Tazerzaït, lugar onde o maciço de Aïr se encontra com os grandes oceanos de areia do Saara, os homens do comandante conquistaram a sua maior vitória durante a guerra travada ao longo de dois anos contra o governo do Níger.

Se tivéssemos asas. Pág 20. Empoleirada à beira de uma duna fria, na Carolina do Norte, eu estava prestes a realizar o sonho de voar, partilhado com Leonardo da Vinci.
O génio do Renascimento passou anos a decifrar o voo das aves e a desenhar máquinas de voo. No seu leito de morte, em 1519, Leonardo terá afirmado que uma das suas principais frustrações era nunca ter voado. Cinco séculos de inovação produziram o parapente que ergo sobre a minha cabeça, suficientemente simples e seguro para ser comercializado como diversão para turistas. No entanto, apesar dos séculos de aventura e experiência, o voo individual, ou seja, a capacidade de subir pelos ares, mergulhar e mudar de direcção tão depressa como as aves, permanece inacessível.

Elefantes órfãos. Pág 34. Ao longo da fronteira setentrional do Parque Nacional de Nairobi, no Quénia, pode ver-se um misterioso conjunto de cobertores garridos de lã sobre alguns ramos retorcidos. Contra o pano de fundo dos monótonos tons de castanho e verde característicos da região, os cobertores poderiam ser interpretados como resquícios de um rito tribal.

Renascimento brasileiro. Pág 56. José Alberto, Murilo, Geraldo, Angela, Paulo, Edwiges, Vicente, Rita, Lúcia, Marcelino, Teresinha. Isto faz 11, certo? Sem contar com o nado-morto, os três abortos e o bebé que não chegou a viver um dia inteiro, Dona Maria Ribeiro de Carvalho, uma senhora brasileira de voz grave e profunda, a caminho do seu 88.º aniversário, finalizou a contagem das suas 16 gravidezes e olhou para José Alberto, o filho mais velho, que veio visitá-la neste domingo e fumava um cigarro no seu sofá. “Com a quantidade de filhos que tive, já devia ter mais de cem netos agora”, observou Dona Maria suavemente, com um ligeiro remoque de censura na voz.
José Alberto, que passara a manhã a pescar na lagoa da sua fazenda, ainda vestia as calças de treino. A sala de estar de sua mãe, na cidade de São Vicente de Minas, no centro do Brasil, tinha apenas o tamanho suficiente para abrigar três poltronas atravancadas, um televisor, numerosas fotografias de família, desenhos emoldurados de Jesus e de Nossa Senhora, e o sofá negro de vinil no qual ele, o professor Carvalho, director reformado da Faculdade de Economia da sua universidade e um dos mais eminentes demógrafos brasileiros do passado século, agora se reclinava. Pousou os pés na mesinha de centro e sorriu. É claro que sabia bem o número total de netos: 26.

Viagem rumo ao Sul. Pág 82. O autor desta sucinta entrada de diário chamava-se Roald Amundsen, um explorador norueguês que conquistara a fama cinco anos antes, ao tornar-se o primeiro ser humano a navegar e transpor a lendária passagem noroeste do Árctico, que liga o Atlântico ao Pacífico. Agora, Amundsen encontrava-se no extremo oposto do planeta, na Antárctida, almejando o mais prestigiado dos troféus ainda disponíveis no mundo da exploração: o Pólo Sul. Planeada com minúcia, esta arrojada aventura devia-se também a uma casualidade. Dois anos antes, Amundsen estivera totalmente imerso em planos para alargar a sua exploração do oceano Árctico e passar sobre o Pólo Norte, quando recebeu a notícia (mais tarde contestada) de que Robert Peary já reivindicara o Pólo. “Naquele instante, resolvi mudar de frente”, recordou mais tarde Amundsen. “Virei tudo ao contrário e olhei para o Sul.” Amundsen estimou que, se conquistasse o Pólo Sul, a fama e o financiamento de futuras explorações estariam garantidas.